sexta-feira, agosto 31, 2018

Beleza Oculta (Collateral Beauty, 2016)


Mais um filme de Will Smith massacrado pela crítica e fracasso de público. Será justo?


Existem alguns filmes que são prejudicados quando você injeta muito dinheiro e expectativa neles. Filmes como Oblivion(2013), por exemplo, que seria uma ótima ficção científica não fosse a necessidade de ter cenas de ação e romance forçado para virar um  “filme do Tom Cruise”. Outro exemplo recente é Passageiros(2016), que funciona maravilhosamente quando é uma ficção cientifica com dilema moral mas vira um desastre quando transformado em filme romântico para ter justificada a presença dos astros Jennifer Lawrence e Chris Pratt.

Aqui, temos um elenco recheado de atores renomados, Will Smith, Hellen Mirren, Keira Knightley, Kate Winslet, Edward Norton, Michela Peña e a direção do mesmo David Frankel de O Diabo Veste Prada e Marley e Eu. Enfim, o filme carrega em si toda banca de filme de Natal, com a promessa de uma mensagem otimista e edificante. O grande mérito, porém, de Beleza Oculta (Collateral
Beauty, 2016) é não cumprir esta promessa. E provavelmente é este mérito a razão de seu total fracasso. Dá para suspeitar que talvez o mérito seja acidental. Parece que queriam mesmo fazer um filme “para cima” sobre um pai que perde a filha de seis anos. Por sorte, não conseguiram. Seria desonesto. O resultado, porém, cumpre a função de “lição de vida” de forma muito mais verdadeira e eficiente. Resumindo, se eu tivesse que aconselhar um filme para quem sofreu uma grande perda, jamais recomendaria A Cabana (The Shack, 2017), mas recomendaria muito Beleza Oculta. Confesso que só insisti em ver por teimosia. A crítica detonou implacavelmente e o público também foi fraco. Entretanto, logo de cara dá para entender que parte do problema do filme foi o trailer e como ele foi vendido. A história nos mostra, Howard Inlet ( Will Smith), que cai em uma depressão monstruosa quando perde sua filha de seis anos (algo muito semelhante ao plot de A Cabana).  Sua falta de vontade e revolta com tudo e com todos começa a levar para o buraco sua firma de publicidade. Seus sócios desesperados se sentem impotentes quando veem a beira da falência e resolvem contratar uma detetive para segui-lo e provar que ele está fora de suas faculdades mentais. Assim, podem ao menos vender a firma e salvar alguma coisa.
A detetive descobre que Howard, como forma de lidar com a dor, envia cartas desaforadas para três elementos do universo: a morte, o tempo e o amor. Os amigos então, resgatam as cartas e contratam três atores para se fazer passar pelos respectivos elementos. Assim, podem talvez possam ajudar Howard e, principalmente, ajudar a si mesmos, provando que ele não anda bem da
cabeça e obriga-lo a vender a firma.
Sim, normalmente eu não dou spoiler, mas o trailer vendia exatamente um filme em que Will Smith escreve cartas para a morte, o amor e o tempo e estes respondem para conversar sobre a vida, o universo e tudo mais, assim, ajuda-lo a superar o trauma. Não, isso na prática não acontece no filme.  Aos 5 minutos de filme a promessa do trailer cai por terra e realmente não me admira que o expectador e os críticos se sintam enganados.
Mas resolvi dar uma chance e ver o filme até o fim. O resultado é que curti muito. Primeiro que a graça está justamente na rima da história. Os atores/elementos contratados conseguem até conversar e, até certo ponto, ajudar Howard.  Mas são os amigos dele quem realmente precisam de ajuda e são eles que vão ser realmente ajudados pela morte, pelo tempo e pelo amor.
Claire(Kate Winslet) se sente velha para ter filhos, pois dedicou sua vida ao trabalho. Essa frustração dela em relação ao Tempo (Jacob Latimore) é muito mais interessante e justificada que com o problema de Howard com o mesmo.
Já With (Edward Norton), o melhor amigo de Howard, traiu a esposa e, com isso, perdeu o casamento e também o amor de sua filha. Assim, é ele quem vai ter que ajustar contas com o Amor (Keira Knightley).
E finalmente, Simon (Micheal Peña) está com um câncer terminal e pronto para ajustar as contas com a Morte (Hellen Miren).
Assim, o filme nos conduz a uma jornada pelos personagens secundários enquanto Will Smith ancora tudo jogando água no chope dos argumentos positivos dos “elementos”. E os seus questionamentos são pertinente em diálogos, no mínimo, inteligentes. Enquanto isso, Howard tenta participar de um grupo de apoio e é lá, com uma amiga, que ele consegue reunir forças para tocar a vida e encarar finalmente a sua trágica realidade.
O filme não é perfeito. Sofre da nova síndrome de Netflix, quando você sai com a impressão de ter visto algo que daria uma ótima primeira temporada de uma boa série, mas que em filme as coisas ficam pouco desenvolvidas. No caso, é fundamental conhecer e simpatizar com os personagens
secundários e entender seus dramas e há pouco tempo para desenvolver isso.
Confesso que só entendi o drama da personagem de Kate Winslet no final. Achei que With seria uma espécie de vilão e Micheal Peña merecia mais tempo em cena. A necessidade de manter o foco em Will Smith a maior parte do tempo prejudica o longa já que, a história dele é apenas a condutora.
A filha de With, Allisson (Kylie Rogers), é ótima atriz, e o drama apresentado por ela é verdadeiro, mas é difícil engolir uma menina de 9 anos falando como uma psicóloga formada de 26 anos. A resolução entre ele e a filha só sai porque o filme não tinha mais tempo.
No final das contas, dá para entender o ranço da crítica, mas não concordo se tratar de um filme desonesto. Beleza Oculta é um filme que tem algo a dizer e traz ótimas interpretações de todo o elenco. Trata de um assunto sério e pesado com responsabilidade, sem apelos religiosos. O elemento metafísico aparece, mas deixa o julgamento ao espectador. Será que são realmente atores? Ou será que o tempo, o amor e a morte realmente estavam ali?
No final, não temos respostas fáceis, mas uma esperança honesta e madura. Se tivesse sido feito com um orçamento apertado e atores desconhecidos, provavelmente seria muito elogiado.



quinta-feira, junho 14, 2018

Eu não sou um homem fácil




Filme francês diverte usando universo invertido entre homens e mulheres



Damien (Vincent Elbaz) é um típico solteirão machista, estilo cafajeste, vaidoso e egocêntrico que trabalha em uma empresa de software. Ele está feliz transando com várias mulheres, dando cantadas na rua, no bar, na livraria, no trabalho, em toda parte. Mas a vida é uma caixinha de surpresas e, numa bela manhã de sol, após conhecer a secretária de seu melhor amigo, Alexandra (Marie-Sophie Ferdane), numa livraria, ele bate a cabeça num poste na rua e desmaia. Ao recobrar a consciência, ele descobre que está em um mundo invertido. Não, não é o de Stranger Things, mas uma sociedade matriarcal em que as funções entre homens e mulheres são invertidas, ou seja, são os homens que precisam “prestar contas à sociedade”, se vestir com roupas apertadas e sexistas. Precisam se depilar, fazer as unhas, usar rosa e flores (lembrei do Menudo, pesquisem no Google sobre do que se trata).

A princípio Damien até gosta da ideia de ser cantado na rua por todas as mulheres. Mas depois o pesadelo vai mostrando seu lado cada vez mais sinistro. Seus pais cobram o fato dele ser solteiro, promíscuo e não ter filhos e acham um absurdo seu discurso sobre como um homem pode ser feliz sem ser casado. No serviço, acaba demitido por “não saber o seu lugar diante da chefe”. O seu melhor amigo, antes um admirado escritor, agora é um passivo, recatado e do lar.

Damien  até que tenta se adaptar ao novo mundo: depila o corpo completamente, pinta as unhas, compra roupas que mostram mais as pernas (depiladas) e consegue um novo emprego, justamente como secretário de Alexandra que, neste mundo é basicamente uma versão feminina dele mesmo, uma colecionadora de homens egocêntrica e que vê em Damien um homem difícil de ser conquistado e, portanto, um prêmio a ser disputado.


Um pouco além de comédia, mas não muito


Escrito e dirigido por Eléonore Pourriat, Eu não sou um homem fácil é uma boa surpresa do Netflix. A produção francesa estreou em junho e pega leve em um tema muito atual, mesmo assim, vale a pena ser visto tanto por homens quanto por mulheres. O entretenimento é garantido principalmente pelas atuações de Vincent Elbaz e Marie-Sophie Ferdane. O primeiro convence como machista que vai se adaptando a nova condição de oprimido e a segunda como uma “mulher cafajeste”.

O filme opta por um caminho mais leve, lembrando muito mais o  constrangedor Do que as mulheres gostam, de 2000, com Mel Gibson, sobre um machista que descobre ter o poder de ler o pensamento das mulheres e passa longe do genial, A Cor da Fúria, de 1995, com John Travolta em um mundo invertido onde os negros são a casta superior e os brancos marginalizados.

O problema é que, o racismo contra negros é algo relativamente novo em termos históricos, datando da época da escravidão há 300 anos e agravado com as teorias eugênicas dos Séculos XIX e XX. A simples inversão dos papeis no filme de 1995 é suficiente para mostrar o absurdo da sociedade e causar incômodo e até, no meu caso, náuseas.

Já a situação da sociedade patriarcal remonta no mínimo uns 100 mil anos e não se restringe ao ser humano. Na verdade, a maioria das espécies de animais possui uma divisão da função entre machos e fêmeas e cada uma com características peculiares que foram, ou não, assimiladas pela raça humana. A simples inversão do papel não resolve o problema e ainda corre o risco de entrar no erro mais comum de pessoas leigas de pensar que o feminismo é apenas o contrário de machismo. (O contrário do machismo é a inteligência, caso alguém não saiba).

Por outro lado, a inversão dos papeis demonstra claramente que o mau-caratismo e a falta de consideração com os sentimentos das outras pessoas não é, infelizmente, apenas uma prorrogativa masculina, mas que a sociedade é mais tolerante com determinados deslizes de caráter de um gênero em detrimento de outro.


Faz rir, faz pensar e faz torcer


Mas se o filme não dá um parecer definitivo sobre as relações de poder entre machos e fêmeas da raça humana, ao menos consegue brincar com os clichês do gênero. E no momento em que fica claro a opção da narrativa por ser uma comédia romântica, confesso que fiquei até aliviado, já que o roteiro vinha se mostrando muito leve para um assunto tão pesado. Quando escolhe ser um estudo superficial, o filme se despe da pretensão de ser um tratado sobre o assunto e deixa claro que quer apenas divertir com um pouco de reflexão.

Neste contexto é fascinante como a direção aproveita os clichês do gênero comédia romântica para brincar e criticar a realidade. Quando Alexandra, por exemplo, percebe que Damien entende realmente de carros, ela começa realmente se apaixonar por ele, afinal, ele não é só um homem superficial preocupado apenas com moda e com a aparência. Ao mesmo tempo, mesmo sabendo e condenando as atitudes canalhas de Alexandra, ele não resiste a dar uma volta no carrão dela. Este momento beira o brilhantismo porque deixa claro que a diretora não vai ser condescendente com ninguém.

A piada sobre os “peitos pequenos” de Alexandra, os quais ela parece querer compensar com carrões e demonstrações de poder, também é digna de aplausos.

Os gays mostrados no mundo invertido também são um ponto alto. Trata-se apenas de homens e mulheres que se vestem de um jeito que a nossa sociedade acharia normal. Mas eles têm que fazer isso em um lugar reservado para não chocar.


Tem hora em que erra, mas tem grandes acertos


O problema maior de Eu não sou um homem fácil está no roteiro preguiçoso. Para começar, a transição para o mundo invertido é feita com Damien batendo a cabeça numa placa de rua. Não se preocupam em dar nenhuma explicação a mais. Tá certo que não precisa, mas a cena é meio broxante. Várias situações propostas como a relação de Damien com os pais não são resolvidas, simplesmente ficam de lado.

No final, fiquei com uma sensação de que, como é uma produção falada em francês e com uma ideia muito original, vai acabar saindo uma versão americana em breve e a história será melhor contada.

E se eu falei do maior problema, o maior mérito do roteiro para mim foi saber terminar a história de maneira coerente, sem cair na pieguice e também sem cair no dramalhão deprimente. Mas para saber o final, você vai ter que ver o filme. E, acredite, este filme merece ser visto!


segunda-feira, maio 07, 2018

Cobra Kai – Série continua a história de Karatê Kid 34 anos depois




Acabei de ver Cobra Kai, continuação direta da trilogia Karatê Kid do recém-falecido diretor, John G. Avildsen. Vi o primeiro filme no cinema em 1984. A produção fez sucesso nos EUA, mas passou batida no Brasil por causa do título “A Hora da Verdade”. Não, não tinha “Karatê Kid” no título nacional do primeiro filme nos cinemas.

O sucesso no Brasil só veio quando passou na Rede Globo em um domingo. Aí sim, alguém teve a lucidez de colocar o título original antes do nacional. Aí, ficou “Karatê Kid – A Hora da Verdade”.

Quando estreou “Karatê Kid 2 – A hora da verdade continua”, faturou alto nos cinemas nacionais também. Com direito ao sucesso da música de Peter Cetera, Glory of Love que chegou a ser indica ao Oscar.

A saga fechou com “Karatê Kid 3 – O Desafio Final”, que foi o mais fraco dos filmes. Com uma história bem surreal e situações de luta que expuseram ainda mais o problema crônico é que Pat Morita nunca ter sido um bom lutador. O filme afundou nas bilheterias e teve péssimas avaliações da crítica.

Depois tentaram ressuscitar a série com um Karatê Kid 4 com a futura oscarizada, Hilary Swank, e fizeram um filme muito, mas muito ruim. Aí veio a ótima refilmagem produzida por Will Smith com seu filho, Jaden Smith, como o jovem que sofre Bullying e Jackie Chan como o mentor. O cenário foi transportado para a China e o filme fez sucesso, mesmo sem o charme do original, mas com personalidade própria.

Agora, é o próprio Will Smith quem também produz, ao lado de Ralph Macchio, esta série que continua diretamente a saga original.

Para quem não sabe, os filmes originais acompanhavam a vida do franzino Daniel Larusso (Ralph Macchio), criado com muita dificuldade pela mãe, Lucille (Randee Heller) - o pai morreu quando ele tinha apenas oito anos. O menino sofre bullyng dos valentões riquinhos da escola porque se envolveu com Ali (Elisabeth Shue) ex-namorada do macho alpha do pedaço, Johnny Lawrence (William Zabka).

A tensão entre o garoto franzino de origem humilde contra os valentões ricos da escola encontra um elemento chave quando o Sr. Miyagi, (Pat Morita que foi indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante pelo papel) zelador do prédio onde Daniel mora com a mãe, se mostra um grande mestre de artes marciais e resolve treiná-lo para enfrentar os valentões, ou o bullying como se diz hoje. O final é arrebatador quando Daniel participa de um torneio de Karatê e vence. Descobrimos que o grande vilão não é Lawrence, mas o seu mestre, Kreese (Martin Kove) dono de uma escola de Karatê chamada Cobra Kai.

Jonny reconhece a coragem e a determinação de Daniel.

Vamos lembrar que John G. Avildsen já havia ganhado o Oscar de melhor diretor por Rocky – O Lutador em 1977 e sabia como ninguém filmar dramas de superação através da luta.



Curiosidade pessoal

Quando escrevi meu primeiro romance, Fáfia – A Copa do Mundo de 2022, entre 1993 e 1995 (lancei em 1999) cheguei a escrever duas linhas brincando com uma possível continuação onde Daniel LaRusso se tornava mestre. Um personagem assistia televisão quando via um comercial de um filme: “Aos Sessenta anos, ele resolve ajudar um rapaz frágil e problemático nas milenares técnicas do Karatê! Ralf Macchio, ele agora é o mestre em KARATÊ OLD - PARTE X!”

Bom, minha profecia se concretizou parcialmente com Cobra Kai. O plot da série é muito melhor que o do filme que imaginei 25 anos atrás.



A história



Cobra Kai mostra a vida e redenção de Johnny Lawrence 34 anos depois da derrota no torneio. Temos a impressão que ele não se recuperou até hoje do chute na cara que levou do Daniel. Trata-se de um homem destruído pelo alcoolismo. Fracassado como pai e profissionalmente falido. O sucesso de Daniel LaRusso em comerciais de tevê, como empresário, só parecem aumentar seu sofrimento e sua sensação de fracasso.

A princípio é difícil enxergar o Johnny do final do primeiro filme como um derrotado. Ele aprendeu a lição e vemos que ele pega o troféu e entrega a Daniel. Mas parando para pensar dois minutos e lembro de muitos amigos e parentes que sucumbiram ao alcoolismo por conta de golpes duros na vida, Johnny perdeu a mãe e é obrigado a conviver com o padrasto idiota. Conheço pessoalmente gente que morreu por conta de alcoolismo.

De certa forma, Johnny Lawrence segue um caminho parecido com o Sr. Miyagi, que, no primeiro filme, também usa o álcool para tentar anestesiar as dores do passado envolvendo a perda de entes queridos.

E é salvando um garoto franzino, Miguel (Xolo Maridueña), de um grupo de valentões da escola que Johnny começa sua escalada rumo à redenção.

Ele reabre a escola Cobra Kai e começa inicialmente a treinar o jovem Miguel que é imigrante equatoriano. Logo vários nerds e “perdedores” da escola se juntam ao grupo de alunos do Cobra Kai. O mais fascinante é como o discurso de “Ataque primeiro”, “Não existe dor neste dojo” e “Não tenha piedade” se ajusta perfeitamente a discussão contemporânea da geração mimimi.

Neste ponto, o roteiro é extremamente inteligente ao lançar ao ar a discussão sem realmente abraçar um lado. Vemos a filosofia de Johnny dando resultados, como Eli (ótima presença de Jacob Bertrand) um jovem traumatizado com as cicatrizes deixadas por uma cirurgia de correção de lábio leporino. Johnny não tem nada de politicamente correto e ensina o jovem a enfrentar a vida agressivamente. O garoto sai, faz um cabelo moicano chamativo e uma tatuagem enorme de falcão nas costas. Depois disso, supera o trauma da cicatriz e arruma até namorada.

Cobra Kai seria uma série bem ao gosto da geração bolsominion se o roteiro não tivesse um contraponto. E é exatamente Daniel LaRusso, agora um bem sucedido empresário com uma franquia de venda de carros. Ele também tem que se virar na luta para ser um bom pai, bom marido e ainda enfrentar a concorrência agressiva.

Ao se deparar com o retorno de Johnny, do Cobra Kay, de descobrir que agora é pai de uma bela adolescente já com o primeiro namorado e dos problemas da vida empresarial, Daniel também começa a assumir uma postura agressiva.



Alertado pela esposa, Amanda (Courtney Henggeler com boa presença) seu comportamento, Daniel volta a treinar Karatê e arruma um pupilo. Não exatamente um jovem frágil e desprotegido, mas justamente Robby Keene (Tanner Buchanan), ninguém menos que o confuso, rebelde e frustrado filho de Johnny Lawrence, que, decepcionado com o pai, resolve provocá-lo indo trabalhar justamente com seu grande rival. Não, Daniel não sabe que Robby é o filho de Johnny e sim, a série usa vários destes artifícios novelescos, mas aqui até que funcionam e funcionam bem. A filha de Daniel, por exemplo, Samantha LaRusso (Mary Mouser), vai acabar namorando justamente o aprendiz de Lawrence, Miguel. E tudo vai ser resolvido novamente no mesmo torneio, que aliás, não mudou a arte gráfica e nada da sua identidade visual mesmo depois de 34 anos.

Mas estes “defeitos” acabam deixando a história ainda mais deliciosa. Johnny e Daniel são dois lados de se encarar o Karatê e a vida. Um mais agressivo, outro mais poético. Ambos os lados parecem caminhar para um equilíbrio. Johnny vai tendo seu arco de crescimento e aprendendo tanto quanto ensina aos seus alunos. Já Daniel percebe que sua vida não é tão perfeita como pensava e por momentos ele quase vira o antagonista da série. Só isso já valeria a pena assistir Cobra Kai.



Mas há também vários outros pontos positivos como as referências, às vezes forçadas, mas sempre hilárias aos anos 80 e 90, como Johnny ainda ter o mesmo carro e às vezes usar até algumas roupas velhas da época do primeiro filme. Ele também afirma não saber o que é Facebook e se irritar ao descobrir que Miguel nunca ouviu falar de Gun’s and Roses. Há boas surpresas como Randee Heller voltando ao papel de Lucille, mãe de Daniel e constantes homenagens e referências aos primeiros filmes, inclusive a inesquecível trilha sonora de Bill Conti! Tudo isso vai deliciar os fãs de Karatê Kid. Já quem não conhece... Bom, quem não conhece?



Mas a grande sacada da série é trazer Johnny Lawrence para o centro das atenções. Como se ele tivesse sido transportado dos anos 80 para cá instantaneamente com uma atuação sensacional de William Zabka que dá ao seu personagem exatamente um equilíbrio entre um cara durão irritado com sua vida e um homem em busca de consertar os erros do passado, mas sem nunca abaixar a cabeça. Ele praticamente não sorri e notamos sua alegria e satisfação com os alunos com um meio sorriso discreto. Tão pouco chora, sua interpretação é sempre contida, como se carregasse o peso dos anos de desilusões daquele jovem arrogante do filme de 1984. Ele também nunca deixa o lado bad-ass para trás. Ao saber que sua aluna é vítima de ciberbullying, Johnny se revolta e comenta que “na minha época, a gente fazia bullying olhando nos olhos da pessoa. Hoje se escondem atrás de um computador, são uns covardes”.

Embora baseado nos personagens e em uma história clássica dos anos 80, Cobra Kai traz a tona uma discussão atual sobre a busca do equilíbrio em uma época em que predomina uma cultura de radicalismo entre preto e branco, esquerda e direita, capitalismo ou comunismo, politicamente correto ou incorreto. Saber se impor, exigir respeito e ao mesmo tempo entender e respeitar o próximo e as diferenças é o grande desafio do mundo contemporâneo, algo muito mais complicado e difícil que vencer um torneio. Basta lembrar que escândalos sexuais já afetam a entrega do prêmio Nobel, desconstroem carreiras no cinema, medalhas olímpicas foram confiscadas por conta de comprovações de doping com conivência do governo russo, enfim, entramos de vez em uma era em que vencer a todo custo não é primordial. Os meios são mais importantes que os fins. Ao mesmo tempo, ainda precisamos nos impor, porque o mundo e nossa sociedade continua sendo implacável com os perdedores.



Agora é ficar na torcida para a série fazer sucesso e trazer novas temporadas. Porque ficou bem claro que a história entre Johnny e Daniel ainda tem muita coisa para nos ensinar e nos divertir.




sábado, dezembro 09, 2017

Westworld – A série (sem spoilers)




No desespero de tentar fazer um novo Game of Thrones, a HBO resolveu encurtar o verdadeiro Game of Thrones porque estava ficando muito caro e aí fez uma série mais cara ainda. Após a primeira temporada, a constatação do óbvio: Westworld não é Game of Thrones e deixou muita gente irritada com isso. No meu caso, fiquei irritado porque não havia necessidade de gastar grandes somas de dinheiro numa série que se destaca justamente pelas sutilezas e interpretações. Mas se essa grana toda foi investida a maior parte no elenco, a gente até perdoa, porque trata-se de dois pontos fortes de Westworld: elenco e roteiro.
Ironicamente, a surpresa agradável reside no fato de Westworld não ser Game of Thrones. Não se trata de uma imitação, de uma tentativa de repetir fórmulas parecidas. De fato, a única semelhança entre as duas séries é a profusão de “nudes” jogados na tela e que, honestamente, não atrapalha em nada a história, ao contrário, os nus fazem parte da atuação agora muito mais que em Game of Thrones. Temos peitos, bundas e pintos para todos os gostos. Se você é moralista aconselho a não ver nenhuma das duas séries e procurar uma igreja ou um mosteiro. Já vou avisando que há sexo nesses lugares também.
Fora isso, Westworld é pura ficção científica com pitadas de western. Baseado no filme de 1973 escrito e dirigido por Micheal Crichton que trazia a história de um parque que com três ambientes que simulavam épocas distintas: o velho oeste, a era medieval e a Roma antiga. Neste cenários, robôs incrivelmente realistas proporcionavam aos humanos o prazer de matar, roubar, estuprar e cometer os maiores atrocidades de maneira impune, uma espécie de GTA ao vivo. Tudo vai bem até que os robôs começam a bugar e querer matar os humanos sem razão aparente. Lembrando que o mesmo Micheal Crichton que, anos depois, escreveria o livro Jurassic Park que viraria o famoso filme de Steven Spielberg (roteiro também de Crichton) e que também fala de um parque aonde as atrações se voltam contra os visitantes.
Já a série foca apenas (ao menos nessa primeira temporada) no mundo do velho oeste. Já em relação à psique dos personagens, ela vai mais fundo e, claramente, escolhe o lado dos robôs. Assim, ficamos conhecendo Dolores (Evan Rachel Wood), uma bela jovem que vive intrigada com sua própria realidade. Ela busca uma postura otimista na vida enquanto é ocasionalmente morta e/ou estuprada. Sua narrativa regular envolve presenciar a morte de seu pai e sua mãe, só para ser salva por um “hospede” humano que quer viver a experiência de ser o mocinho da história e salvar a bela em perigo.
Nem todos os hóspedes, porém, querem ser mocinhos. A grande vantagem do lugar é justamente ficar livre de limitações morais. Imagine um lugar em que todas as pessoas que fazem comentários anônimos em sites de notícia pudessem fazer tudo que postam? Pois é... Assim, conhecemos o frio e sinistro homem de preto (Ed Harris) que está a mais de 30 anos jogando regularmente no parque e que tem uma queda para cometer atrocidades com mulheres, crianças e qualquer coisa que cruze o seu caminho.
A exemplo do Doutor Hammond de Jurassic Park, temos o Doutor Robert Ford (Antony Hopkins)como o dono e diretor do parque com ideias muito próprias sobre suas criaturas e umas intriguinhas entre a equipe e a diretoria. Temos também a figura de Bernard (Jeffrey Wright) como o segundo em comando. Um homem que parece compensar as perdas pessoais de um filho morto no passado com um apego especial aos robôs como se esses fossem seus novos filhos.
Como toda boa série, temos várias histórias paralelas, desde a dupla de novos hóspedes, o inocente Willian (Jimmi Simpson) e seu cunhado babaca, Logan (Ben Barnes). A robô prostituta (Thandie Newton) e o bandidão local Hector Escaton (Rodrigo Santoro) sempre querendo infernizar a cidadezinha local para roubar um cofre.
Como eu não sou exatamente um apaixonado por filmes do velho oeste, não consigo imaginar alguém pagando para viver nesse mundo. Aliás, tenho sérias dúvidas se iria caso me pagassem. E mesmo se houvessem na série cenários medievais e romanos como no filme, por mais que goste de história, tenho horror a banho frio. Então, parte da motivação da coisa para mim já é fraca. Há certos mistérios dentro de mistérios na série que incomodam por lembrar da má resolução de Lost, série que eu gostei muito mas, como a maioria dos seres humanos que a assistiram, não agradei do final. Westworld de fato abusa dos chamados mistérios não resolvidos, por exemplo, nunca fica claro como controlam um lugar tão gigantesco com tantas narrativas simultâneas e como técnicos e diretores fazem para chegar tão rápido em toda parte. O sistema de segurança dos parques de Micheal Crichton também são uma droga e seus funcionários não passariam um psicotécnico da Petrobras.
Dito isso, vamos a parte boa. Há uma ousada narrativa não linear que é diferente dos flashbacks e flashfowards de Lost e isso contribui para que fiquemos sempre com um pé atrás sobre o que está realmente acontecendo.
As discussões que a série se propõe sobre o que é identidade, o que é consciência, o que é estar vivo, renderão pano para muito estudos de narrativas num futuro bem próximo. As interpretações são impecáveis. Antony Hopkins não sai muito do padrão Hanibal Lecter, mas o fato é que ter um parque de robôs dirigido por Hanibal Lecter é realmente uma ideia sinistramente interessante. Rodrigo Santoro faz bonito como o robô estilo clichê de mexicano bandoleiro, só que charmoso. Jeffrey Wright está excelente como Bernard, mas as melhores chances de ganhar muitos prêmios estão com a dupla feminina Thandie Newton e Evan Rachel Wood. Ambas são robôs que vão aos poucos tomando consciência de sua própria natureza, cada uma a seu jeito e cada uma reagindo a sua maneira. Além da soberba interpretação de máquinas divididas entre a crescente consciência e questionamentos sobre suas identidades, também há momentos em que o lado “mecânico” toma conta e uma crise de choro pode ser bruscamente interrompida por um comando de voz. 
A atuação delas é literalmente visceral. Thandie Newton aparece em 40% de todas as suas cenas totalmente nua. Ao mesmo tempo em que chama a atenção para o belo corpo, também não deixa de mostrar com as rugas e os seios digamos não tão firmes aos 44 anos, a bela atriz mostra a decadência do que seria uma prostituta em final de carreira, desencantada com a vida, podemos sentir a dor que ela carrega de suas muitas vidas e, ao mesmo tempo, a força de uma máquina que se descobre superior aos seus criadores. Assim, quando a vemos nua em uma sala, atuando com dois homens vestidos, é impressionante como fica claro que a vulnerabilidade é toda dos homens e não dela.
Já Evan Rachel Wood às vezes é mostrada quase como uma estátua ou uma pintura. E quando o inocente Willian começa a se apaixonar por ela, parte de nós se apaixona junto.
Enfim, o grande trunfo de Westworld está no roteiro bem amarrado, infelizmente, isso só dá para saber com certeza vendo todos os episódios - e mais de uma vez. Talvez isso seja pedir demais para uma plateia, talvez não. Mas o fato é que se trata de uma série inteligente que buscou uma personalidade própria ao invés de tentar ser um Game of Thrones no oeste. Talvez falte um personagem para a gente torcer como Tyrion Lennister, ou um vilão que a gente queira morto como Joefrey. Não há um grande perigo como os caminhantes brancos ou uma grande batalha a ser travada, mas Westworld tem reflexões sobre a natureza humana que chegam em boa hora nesse mundo parece se deparar com uma encruzilhada aonde quem posava de mocinho não convence mais ninguém, deixando espaço para as caricaturas populistas de Putin, Trump, Maduro ou Bolsonaro que oferecem descaradamente fantasias infantilizadas. É uma série que, no final das contas, faz pensar em uma época em que precisamos realmente pensar e questionar a realidade em que vivemos.

segunda-feira, abril 17, 2017

A Bela e a Fera




Nova versão live-action de clássico da Disney é burocrática, mas agrada fãs do original

O sucesso do desenho animado A Bela e a Fera de 1991 foi tanto que gerou também um musical na Broadway, avenida de Nova Iorque em que ficam os teatros mais badalados dos EUA. A peça atraiu multidões e ficou em cartaz de 1994 até 2007. Agora, com o sucesso de outras versões com atores reais de desenhos da Disney, como Malévola e Cinderela, era inevitável que A Bela e a Fera também ganhasse sua versão live-action. Porém, muitos não perceberam é que essa versão é muito mais influenciada pelo musical da Broadway que propriamente pelo desenho animado. Por isso, quem for ver, se prepare para uma quantidade bem maior de números musicais e canções que o desenho animado.

Baseado em um conto francês, escrito por Gabrielle-Suzanne Barbot, Dama de Villeneuve, em 1740, conta a história de uma moça que, para salvar o pai, acusado de ladrão, aceita ser prisioneira de um monstro que na verdade é um príncipe amaldiçoado. No filme de 1991, assim como nessa nova versão, sobra maldição para os empregados do príncipe também que acabam se transformando em parte da mobília, da prataria e até da louça do castelo. Também como na versão em desenho animado, a maldição só será quebrada se o monstro conseguir amar e ser amado. E isso tem que ocorrer antes que uma rosa mágica perca totalmente as pétalas.

Protagonizado pela eterna Hermione de Harry Potter, Emma Watson, o filme ainda tem vários atores famosos fazendo as vozes dos empregados transformados. Assim, Ewan McGregor, o Obi Wan de Star Wars, faz o castiçal Lumiere, enquanto Ian McKellen, (Magneto e Gandalf) faz o relógio Cogsworth. Quem rouba o show é Luke Evans como mal caráter Gaston que está hilário como o ótimo vilão que toda boa história merece.

O filme, porém, é irregular, embora cumpra o papel de divertir especialmente quem é fã do desenho original. Várias partes do desenho são reproduzidas de forma idêntica, principalmente a icônica cena da dança, com Emma Thompson substituindo a lendária Angela Lansbury cantando a música tema que, inclusive, ganhou o Oscar em 1992. Há momentos belíssimos para arrancar suor dos olhos mais insensíveis. Mas eu confesso que chegou um momento que eu que pensei comigo: “Ah, não, vou ter que aturar mais uma canção!”. A maioria das músicas que não estavam no desenho são bem chatinhas. O maior defeito, entretanto, fica por conta dos efeitos digitais da Fera que, por problemas da produção, tiveram que ser refeitos às pressas. O plano original era que o ator Dan Stevens, o Matthew da série Downton Abbey, usasse maquiagem, mas a ideia não funcionou. Com a bilheteria chegando aos 500 milhões de dólares pelo mundo, entretanto, é fácil atestar que o filme herdou o charme, a simpatia e os dólares do agora clássico desenho de 1991.

Burocracia e polêmica

Atender as demandas do politicamente correto é sempre um desafio para a criatividade dos roteiristas, bem como a chance de atualizar uma história centenária sem que ela perca sua essência. No caso, trata-se de “Um conto tão antigo como o tempo” segundo a letra original da consagrada canção. A história fala de uma mulher presa por uma fera e que acaba se apaixonando por ela. Algo que há 300 anos, em um continente em que saber ler e escrever era privilégio de poucos, o casamento era algo arranjado por interesse e a noção de romantismo tinha mais a ver com a cultura muçulmana que com a europeia, era fácil de aceitar como uma bela história de amor.

Mesmo o desenho de 1991 foi alvo de críticas pesadas, a mais famosa na também animação Shrek de 2001, quando a princesa Fiona ao ser livrada do feitiço, faz o contrário do que acontece em A Bela e a Fera e assume definitivamente a forma de ogro, ou seja, ser feio ou mesmo monstruoso não precisa necessariamente ser uma maldição e você pode ser aceito  e ser amado sem precisar ser um modelo de beleza. O filme agora tenta contornar isso mostrando que a maldição foi desencadeada por uma bruxa exatamente porque o príncipe se recusou a ver a beleza interior.

A inclusão de negros no filme também causou polêmica. Houve protestos de alguns defensores do “historicamente correto” que não são necessariamente estudantes de história, ou saberiam que já havia muitos negros na França na época em que a história se passa, ou mesmo na época em que o conto foi escrito. Basta lembrar que o consagrado autor Alexandre Dumas, criador de Os Três Mosqueteiros, é negro e nasceu em 1802. Então, a inclusão de negros não é nenhuma grande ousadia, apenas uma correção. Já o personagem gay é tão caricato e paradoxalmente discreto que chega a decepcionar quem esperava algo mais ousado.

Finalmente, sobre a síndrome de Estocolmo, em que a prisioneira se apaixona por seu carcereiro, o filme usa a solução do conto, ou seja, a Bela só se apaixona pela Fera no momento em que esta lhe concede a liberdade de escolha. Entretanto, a rapidez com que a personagem de Emma Watson vai se interessando pelo monstro na medida em que vai passeando pelo castelo e descobrindo que ele tem uma biblioteca gigantesca, objetos mágicos e belos jardins, deixa a impressão que o filme não defende exatamente beleza interior, mas que você pode conquistar uma bela menina mesmo sendo feio, desde que você seja rico.


sexta-feira, abril 14, 2017

13 reasons why – sem spoilers

Obrigatório para pais e professores, série escorrega no roteiro mas acerta na discussão de responsabilidades


Depois de sofrer todo tipo de abusos físicos, psicológicos e sexuais, a jovem Hanna Baker de 17 anos se suicida. Antes, porém, ela grava 13 fitas cassetes (aquelas antigas, mesmo) contando quais foram as razões que a levaram a tirar sua própria vida.
As fitas chegam à casa de alguns amigos da menina com as seguintes instruções: ouça tudo e depois repasse para a próxima pessoa da lista. Nas gravações, Hanna enfatiza que, caso não seja obedecida, haverá sérias consequências, o que obriga os adolescente a obedecer à risca.
A série começa duas semanas após a morte da menina, quando as fitas vão parar nas mãos do jovem  Clay Jensen, com quem ela trabalhou na bilheteria de um cinema. Abalado ainda com a morte da amiga, ouvir as fitas é um processo doloroso para o rapaz. À medida que vai escutando, Clay compreende e se revolta com os motivos que levaram a bela jovem a se matar. Ele mesmo é o 11º motivo o que pressupõe que 10 amigos já escutaram as fitas antes dele. Aos poucos, vamos sabendo através de flashbacks como cada uma daquelas pessoas influenciaram para a decadência de Hannah.

Fugindo do maniqueísmo, a série mostra com eficiência como cada um dos envolvidos é, ao mesmo tempo, vítima e agressor de si mesmo, dos outros e, claro, de Hannah Baker. A começar pelo garoto com quem ela dá o primeiro beijo e trata de espalhar por toda a escola que ela é uma “piranha”. Fama que vai perseguir Hannah pelo resto de sua curta vida e com a qual ela não sabe lidar.

Um dos problemas de 13 Reasons Why está no velho hábito dos norte-americanos de colocar pessoas maiores de idade para interpretar adolescentes. Algumas vezes pode até funcionar, mas no caso de Katherine Langford de 20 anos (fará 21 dia 29 de abril de 2017) interpretando Hannah Baker com 17, fica difícil explicitar na tela a fragilidade emocional que a menina se encontrava. Sua voz nas gravações das fitas não soa como de uma pessoa a beira do abismo. Lembra mais alguém tramando friamente uma vingança. Talvez uma menina na idade certa retratasse melhor Hannah Baker.
Outro problema é o exagero e as incongruências do roteiro. Ficamos com a impressão que os verdadeiros opressores de Hannah são os roteiristas já que chega um momento em que tudo dá errado na vida da menina. Depois que ela morre, tudo parece dar certo em seu plano. Já que seus amigos obedecem cegamente suas instruções quando poderiam simplesmente destruir as fitas.
E nem todos os “Porquês” de Hannah são realmente convincentes. Alguns chegam a ser absurdos, como uma placa de trânsito quebrada que gera acontecimentos surreais. Ficamos com a impressão que faz parte da cultura norte-americana acreditar que qualquer pecado, por menor que seja, será punido com a culpa eterna ou ganhará proporções bíblicas.


Esticada para poder durar 13 episódios, a história fica dependendo da lentidão de Clay para escutar as fitas para poder manter o suspense. Entretanto, ele resolve julgar e punir todas as pessoas acusadas por Hannah, antes de escutar todas as fitas e saber da história completa, algo que muito ironicamente deixa o roteiro mais realista já que, se parar para pensar, apenas imita o padrão intelectual dos usuários das redes sociais que adoram julgar uns aos outros e consideram agressão quando alguém lhes tenta explicar alguma coisa.

Apesar desses problemas, a série produzida pela cantora Selena Gomez, não esconde que seu objetivo vai além de mero entretenimento juvenil. 13 Reasons Why é uma daquelas mídias obrigatórias para pais e educadores justamente porque acerta naquilo que realmente se propõe a fazer: servir como manual de instruções sobre como funciona a cabeça de um adolescente; mostrar como a sociedade ainda está mal preparada para lidar com o bullying, o assédio moral, o estupro e, principalmente, analisar os mecanismos que podem levar uma pessoa a tirar sua própria vida. E nesse ponto, a série é eficiente beirando a genialidade.

Em várias cenas, vemos como os adolescentes evocam o direito a própria privacidade com os pais como se fosse uma ação judicial. As tentativas dos pais de se aproximar, perguntando e por vezes implorando aos filhos para saber o que se passa na vida deles são angustiantes. Ao mesmo tempo, entendemos como a criação e histórico familiar de cada um influencia em seus respectivos comportamentos. Assim, descobrimos que a menina que age de forma homofóbica está na verdade protegendo os próprios pais, um casal gay, de receberem mais ataques homofóbicos. “Vão dizer que eu sou gay por ter sido criada por eles”, justifica. O jovem que sofre violência física por parte do padrasto, acaba não apenas descontando a raiva em quem ele reconhece como mais fraco (Hannah Baker como sempre), como também se resignando aos caprichos do amigo rico só para poder ficar mais tempo na casa dele e assim, fugir do padrasto.

Neste ponto, o suicídio de Hannah serve como ponto de partida para visitarmos a vida de cada um desses indivíduos que, longe de serem meramente maus ou bons, se mostram como pessoas de verdade. Até Hannah escapa de ser mera vítima da situação. Apesar de ser realmente uma pessoa essencialmente boa, ela é emocionalmente muito frágil. Não consegue lidar com bullying que sofre na escola, chegando ao ponto de não conseguir mais discernir quem é e quem não é realmente seu amigo. Isolada socialmente, ela ainda tenta erguer a cabeça e tropeça na própria desorientação emocional, decorrência óbvia de tudo que ela passou. Suas gravações são sim ao mesmo tempo uma vingança e uma denúncia. Ela também erra em muitos dos julgamentos que faz, algo que eu, pessoalmente, não vi como falha, mas como acerto no roteiro. As falhas do roteiro caem quase sempre em cima de Clay Jansen interpretado com muita competência por Dylan Minnette mas que sofre o peso de ter que segurar todas as pontas soltas da história. Então, há vários momentos em que Clay está claramente sendo manipulado por Hannah através das fitas e não se dá conta disso. Ele não só carrega nas costas toda a culpa pela morte da amiga, como também quer impor essa culpa aos outros personagens.

Embora muitos problemas no roteiro possam e estão sendo apontados por alguns bons críticos, arrisco a dizer que quem realmente lida ou lidou com adolescentes, principalmente em escolas, não vai ver muita coisa inverossímil não. Pelo contrário, as atitudes por vezes contraditórias (burras) dos personagens e que realmente acabam ajudando a costurar convenientemente o roteiro, soam extremamente plausíveis para quem já lidou com essa faixa etária (vamos ser honestos, adultos também são assim).

No final, a tão polemizada “cena gráfica” do suicídio foi feita com base em orientação de psicólogos e pedagogos para ser o mais desconfortável possível de se assistir, justamente para não incentivar ninguém e deixar bem apavorados os pais que assistirem.

Gatilhos da síndrome de werther

Nos tempos atuais é comum confundir a expressão “atitude corajosa” com “atitude certeira”. Entendemos ter coragem com acertar e errar com covardia. Isso está muito, muito, muito errado. Digo isso porque ao arriscar fazer uma série sobre o tema suicídio os produtores tiveram uma atitude realmente muito corajosa. E como a série está fazendo muito sucesso, é bem provável que as palavras coragem e sucesso passem a fazer parte da maioria dos textos dos defensores da 13 Reasons Why, grupo do qual eu também pertenço. Mas é necessário dizer que pessoas vão morrer por causa dessa série. E isso provavelmente já aconteceu. Isso não é motivo para demonizar a série, mas é necessário lembrar que se deve ter cuidado ao assistí-la e mesmo ao recomendá-la.

Em um dever de casa da faculdade de jornalismo fui entrevistar a assessora de imprensa da Polícia Militar de Juiz de fora no, agora distante, ano 2001. Não lembro o nome da mulher, mas nunca vou esquecer quando ela me falou de como os marginais se pautavam às vezes pelos jornais. Quando havia um assalto a taxistas, assim que este era noticiado, outros bandidos resolviam também assaltar taxistas na cidade. Isso era um paradoxo para a profissão de jornalismo, afinal, divulgar uma notícia sobre um crime era sim, um dever. Mas isso iria motivar outros crimes. E agora? Ela me esclareceu essa dúvida na hora. O bandido iria cometer outros crimes de qualquer jeito e com a divulgação dos crimes, os taxistas se precaviam, a polícia tomava providências e a onda de assaltos passava.

No caso do suicídio, a questão complica porque vítima e assassino são a mesma pessoa. Sendo assim, não divulgar uma notícia de suicídio era uma forma esquisita, mas eficiente, de proteger a vítima do assassino. Agora, conversar sobre o tema é um problema diferente e específico. Uma série que tem como tema principal uma menina que comete suicídio é, enfim, um produto extremamente necessário e até obrigatório. Eu diria até que se trata de um possível remédio, mas como tal, deve ser usado com parcimônia e talvez, dependendo do caso, só com acompanhamento médico.

Enfim, 13 Reasons why talvez não seja uma série recomendada para pretensos suicidas, mas para repensar o modo como tratamos uns aos outros.




domingo, março 26, 2017

Trilogia Before





A trilogia "Before" do Richard Linklater é um dos projetos mais poderosos sobre a natureza do amor em todos os tempos. O mais surpreendente é que não foi um projeto, mas algo tão natural quanto despretensioso.

Começou em 1995 com o filme Antes do Amanhecer (Before Sunrise) com uma história simples sobre dois jovens se encontrando em um trem e resolvendo passar um dia juntos. Com atuações impecáveis de Ethan Hawke e Julie Delpy, eles nos apresentam o americano Jesse e francesa Celine. O filme mostra os dois se apaixonando quase em tempo real. Não há tramas complicadas, mistérios ou reviravoltas. Não tem um vilão ou desafio. Apenas duas pessoas conversando e se apaixonando enquanto caminham pelas belas ruas de Viena. E acredite, é um dois filmes mais românticos já feitos.

No final, ambos tem uma ideia típica da idade em que se encontram, na casa dos 24 anos: não trocar sobrenome, telefone ou endereço, mas se encontrariam em seis meses no mesmo local. E o filme acaba deixando para nossa imaginação descobrir o que iria acontecer àqueles jovens e belos amantes.

A história terminaria por aí se não fosse um desses acasos da vida. O diretor Richard Linklater, que tecnicamente pertencia à série C do cinema americano, produziu um sucesso de bilheteria, no caso, A Escola de Rock com o doidão Jack Black. E o ator Ethan Hawke foi indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante por Um Dia de Treinamento. Com dinheiro, poder e fama, os dois resolveram arriscar a fazer uma continuação daquele filme que não pedia uma continuação. Foi aí que, em 2004, veio Antes do Pôr do Sol (Before Sunset), mostrando o que havia acontecido com Celine e Jesse nove anos depois.

Descobrimos que a avó de Celine morreu perto do dia do encontro e ela acabou não podendo ir. Jesse foi e ficou dias procurando ela mas sem sucesso. A vida deles seguiu de uma forma cruel. Ambos sonhando um com o outro. Jesse casou-se porque sua namorada engravidou. Continuou casado por comodismo e por amar o filho, sempre sonhando secretamente com aquela francesa do trem. Celine tocou a vida da melhor maneira que pode, mas também sem tirar o garoto americano da cabeça. Enfim, Jessie resolve escrever um livro sobre aquele encontro na esperança de que, caso o livro fosse um sucesso, ele acabasse encontrando aquela mulher novamente. Deu certo. Em um lançamento em Paris, Celine aparece na livraria e os dois voltam a conversar e se apaixonar.

Mas se antes eles estavam na casa dos 24 aos, agora estavam com 33. A perspectiva muda. O rosto e o corpo dos atores também. O fogo da juventude que incendiava seus olhares em 95 se transforma quase em um desespero. É como se um visse no outro, a última oportunidade de ser feliz na vida.

O filme novamente termina em aberto. Desta vez, porém, temos certeza que os dois vão ficar juntos. Era quase o único caminho a ser seguido para manter a sanidade de ambos.

Embora Julie Delpy não tenha se tornado uma atriz de sucesso em Hollywood, sua carreia foi bem na França. Hawke e Linklater continuaram a fazer sucesso mundial com a força do cinema americano.

Inevitavelmente, nove anos depois, veio o terceiro filme Antes da meia-noite (Before Mindnight) em 2013. Pessoalmente, fiquei morrendo de medo. Por favor, não mexam novamente com Celine e Jesse. Deixe os dois no “Felizes para Sempre”, por favor?

Mas o trio não me escutou e veio o que, até agora, é o filme mais premiado da trilogia. Chegando inclusive a ser indicado ao Oscar de roteiro original e ao Globo de Ouro de Melhor Atriz para Julie Delpy. É o filme mais pesado também.

Assim como a vida, a história segue. Agora Jesse e Celine estão casados (ufa!) e tem filhas gêmeas. O filho de Jesse de primeiro casamento já é um adolescente e vive com a mãe nos EUA enquanto Jesse tenta viver na Europa com Celine. Agora os atores estão com 42 anos. Pela primeira vez, temos uma cena de nudez de Julie Delpy mostrando os seios, o corpo exibe uma barriguinha, rugas, muitas rugas em ambos. A barbicha de Jesse começa a embranquecer.

Embora a paixão continue, estão agressivos e cruéis um com o outro. Metade do filme é briga e feia. O assunto traição vem à tona. Aqueles jovens de vinte anos atrás, apaixonados, agora discutem se é justa a divisão de tarefas domésticas. Ele um escritor de relativo sucesso, se mudou para a França, - algo que para um americano é bem doloroso - para ficar perto dela, longe do filho. Celine, por sua vez, continua trabalhando. De noite, é ela quem cuida das gêmeas para ele escrever. Ou seja, ela faz aquelas típicas jornadas de trabalho dupla, no serviço e depois em casa. Ele escreve (acreditem em mim, é um trabalho que consome o indivíduo) e convive com a culpa de não estar sempre presente.

Em seu terceiro ato, a trilogia não tem medo de mostrar o lado mais cruel do “Felizes para Sempre” dos contos de fadas. Novamente a história termina de forma aberta. Novamente, entendemos que o casal vai permanecer junto, pois NOVAMENTE os atores nos convencem de forma absoluta de que Jesse e Celine se amam apaixonadamente e literalmente nasceram um para o outro. Mas algo mudou radicalmente e do casal apaixonado e puro de 1995, passamos para o casal estressado de 2013.

De certa forma, a trilogia “Before” é um magnífico estudo sobre o amor verdadeiro e poderoso que une aqueles dois seres humanos que acompanhamos durante vinte anos. Mas também pode ser um cruel filme de terror se assistido em sequência. A deterioração de corpos e sentimentos é honesta, cruel e assustadoramente bela. Manter uma relação tem seu preço. O “felizes para Sempre” cobra tributos e estes são altíssimos. Isso nunca foi mostrado nas telas de cinema com tanto realismo. Entretanto, talvez seja uma das poucas obras românticas a mostrar o amor em “tempo real” de forma tão verdadeira, sem idealizações, sem concessões. Ainda assim, continua sendo belo, continua sendo romântico.

Tecnicamente os filmes são impecáveis com diálogos, interpretações e direção de um realismo impressionante. Os atores vestem os personagens de tal maneira que muitos fãs se apaixonam por eles a cada filme. Os personagens são complexos, ricos e multifacetados. No último filme, Julie Delpy está particularmente impressionante pela transformação física e a francesinha inteligente de 95 deu lugar a uma mulher maldosa, sofrida e que parece prestes a explodir. Ethan Hawke não é exatamente um ator de grandes expressões, mas se entrega a Jesse e o jovem hiper-romântico vai se tornando um cara que carrega a culpa e o comodismo de uma vida em que consegue sucesso como escritor, mas fica dilacerado por viver em um país distante e longe do filho. A química entre os atores é tão grande que estranhamos muito o fato de nunca terem sido casados um com o outro.


Uma curiosidade ainda mais cruel sobre a trilogia, é que o primeiro filme foi inspirado em um encontro de Richard Linklater com uma jovem chamada Amy Lehrhaupt na Filadélfia. Assim como no primeiro filme, os dois passaram pouco tempo juntos e não mais se encontraram. Assim como no segundo filme, Linklater fez sua obra com um desejo secreto de poder assim, reencontrar aquela moça. Infelizmente, a vida foi mais cruel que a arte e Amy morreu em um acidente de moto meses antes da estreia de Antes do Amanhecer.

Acho relevante dizer que literalmente cresci e envelheci junto com Celine e Jesse. Quando vi o filme de 1995, pensei: É isso que eu quero para a minha vida! Quero uma Celine para mim! Encontrei e já estava casado com ela 2004 quando o casal se reencontrou em Paris e os apresentei para a então esposa. Quando assistimos em 2013 a Antes do Meia-noite, o impacto foi tão grande que nos separamos menos de um ano depois. Então, aconselho a assistir com muita cautela.

O diretor e os atores, que agora também são roteiristas, pretendem mostrar Jesse e Celine ainda mais uma vez, quando completar mais nove anos. Devemos encontrá-los agora na casa dos 50 e tenho medo do que vem por aí, embora tenha certeza que será incrivelmente belo e poético, além de, é claro, assustador. Confesso que aguardo ansiosamente por esse encontro com esses velhos amigos.

Enfim, apesar dessa crueldade em não dourar a pílula, não há como negar que se trata de uma obra poderosa e apaixonada que desconstrói o romantismo sem destruí-lo. A intenção não é botar água no chope dos românticos, mas dizer que, apesar de tudo, não há coisa melhor (e mais trabalhosa) que estar com a pessoa que amamos. Acredito que essa trilogia seja recomendada a todo mundo, mas principalmente a quem quer entender essa coisa louca que chamamos de amor.