terça-feira, dezembro 01, 2015

O eterno e desnecessário recalque trekker

Não é só no Brasil. Para mostrar que amamos uma coisa sentimos necessidade de mostrar hostilidade com outra. A noção de identidade às vezes tem mais a ver com quem não somos.
Mesmo assim, fico impressionado com o recalque dos Trekkers em relação a proximidade do Despertar da Força. 

Vários amigos que são fanáticos assumidos de Star Wars confessam que, assim como eu, são trekkers, as vezes gostam mais de Star Trek que Star Wars. Então é estranho para mim quando alguém se vê obrigado a escolher um lado.
Embora as duas séries sejam basicamente Space Opera, Star Trek tem muito mais a ver com ciência e tecnologia, enquanto Star Wars tem mais a ver com aventura. Daí a grande discussão se Star Wars era realmente ficção científica e não fantasia. A dúvida pega carona numa briga antiga quando o contador ligado a exatas Jules Verne não aceitava que as discussões sociais do biólogo H.G. Wells fossem consideradas ficção científica.

Então, numa discussão de boteco é fácil provar que Star Trek é melhor, ou pior, que Star Wars. Depende só de quem tiver a melhor memória. Há momentos trash em que Kirk lutou contra uma cenoura gigante e há momentos fantásticos como em que Picard vive em poucas horas a vida inteira de um alienígena de uma raça que já se extinguiu (inner light). Mesmo na subestimada série Enterprise, última aparição da série na TV, há episódios absurdamente bons.

A rivalidade deu uma acirrada depois que o diretor J.J. Abrams foi chamado para dirigir O Despertar da Força. O diretor foi levado ao cobiçado trono para dirigir Star Wars justamente por ter salvo Star Trek da morte horrível nos cinemas. Feitos não para agradar os trekkers, mas para ressuscitar uma série morta e deixá-la atraente para uma nova geração, os filmes do Abrams deixaram a ciência de lado mas abraçaram um tom de absoluta reverência aos personagens. Claro, pegar Star Trek e deixar a ciência de lado é um troço perigoso.

No segundo filme, Into the Darkness, há uma cena em que a Enterprise está com os motoros estourados ao lado da Lua e, 3 minutos depois, está caindo na atmosfera da Terra atraída pela gravidade. Isso é abusar da paciência e boa vontade até de fãs de Transformers. Fazer isso com Trekker confesso que irritou até a mim (trekker também com muito orgulho).

Pelo que vejo, às vezes Trekkers se comportam como tias velhas com inveja do primo bonito que tem um bom emprego e vários troféus em casa. Mas o "primo pobre" tem entre seus muitos feitos o fato de ter inspirado 99% dos autores de ficção científica, astronautas, engenheiros espaciais do mundo. Enfim, Star Trek merece mais que ser comparado a Star Wars o tempo todo. 

sábado, outubro 17, 2015

CLFC lança prêmio Argos de Literatura Fantástica 2015


No ano em que comemora seus 30 anos de fundação o Clube dos Leitores de Ficção Científica do Brasil – CLFC lança a sétima edição do prêmio Argos de Literatura Fantástica, um dos mais importantes do cenário nacional. O objetivo é incentivar e prestigiar a leitura de obras do gênero de autores nacionais.

Esse ano o prêmio traz além das tradicionais categorias de Melhor Romance e Melhor Conto, estreia de melhor Antologia ou Livro de Contos. Ou seja, três categorias de premiações.

A festa de entrega do prêmio vai ser durante o Jedicon Rio de Janeiro 2015 nos dias 28 e 29 de novembro no Planetário da Gávea e vai ter como homenageado o escritor Jorge Calife que receberá o prêmio Argos pelo conjunto da obra. Jorge Calife autor da saga Padrões de Contato ficou famoso na década de 80 por ter escrito a novela 2002 que foi enviada a Arthur C. Clarke que inspirou o livro 2010 – A Segunda Odisseia. O livro se transformou em nada menos que a continuação de 2001 – Uma Odisseia no Espaço, considerado por muitos como o melhor filme de ficção científica de todos os tempos.

De acordo com o presidente do Clube dos Leitores de Ficção Científica do Brasil, Clinton Davisson, para concorrer ao prêmio não é necessário se inscrever. “Qualquer história de ficção científica, fantasia ou terror publicada originalmente em língua portuguesa, em meio impresso ou digital, durante o ano de 2014 está apta a receber votos e a votação é realizada somente pelos sócios do Clube que conta hoje com 1040 associados oficiais”, explica o presidente.

As votações se iniciam no dia 19 de outubro, segunda-feira e vão até 1º de novembro.

Os finalistas serão divulgados dia 8 de novembro e os vencedores serão revelados durante o Jedicon 2015.

O prêmio surgiu no início da década passada e durou quatro edições em 2000, 2001, 2002 e 2003. O nome do prêmio foi uma homenagem à Coleção Argonauta, uma série de livros de bolso de ficção científica, publicada pela Editora Livros do Brasil, pioneira na divulgação do gênero em língua portuguesa.

De acordo com o escritor Gerson Lodi-Ribeiro, um dos criadores do prêmio e agora consultor da nova edição do Argos, o nome foi um consenso porque o próprio Clube nasceu de uma convocação impressa no livro do Roberto Cezar Nascimento, Quem é Quem na Ficção Científica – Volume 1: A Coleção Argonauta. “A Coleção Argonauta sempre foi importante para a maioria dos sócios da velha-guarda. Daí, quando se pensou em criar um prêmio do CLFC, ‘Argos’ foi o nome de consenso”, lembra.

Os interessados em se associar ao CLFC podem encontrar instruções no site www.clfc.com.br onde também consta o regulamento da premiação.

domingo, agosto 23, 2015

Lá vamos nós para mais uma Bienal do Livro









O escritor Clinton Davisson, presidente do Clube dos Leitores de Ficção Científica do Brasil, vencedor do Prêmio Nautilus da Revista Scifi News contos e autor da saga Hegemonia - O Herdeiro de Basten estará no estande da Editora Draco promovendo o Brasil Fantástico, segundo livro do CLFC que promove uma releitura do folclore nacional.

segunda-feira, maio 11, 2015

50 tons de Arquivo X

Com Gillian Anderson e Jamie Dornan, série The Fall nos deixa a impressão de ver a Agente Scully tentando prender Christian Grey


É engraçado saber que séries inglesas também precisam ganhar versões americanizadas para passar nos EUA. Esse inclusive é o tema de série, no caso Episodes. Mas isso fica bem claro quando assistimos The Fall.
 Quem se acostumou as tiros, explosões, correrias das séries americanas, vai ter dificuldade com o ritmo lento de The Fall. Embora isso seja uma qualidade a maior parte do tempo, confesso que às vezes perdi a paciência, principalmente no penúltimo episódio.


The Fall é uma série inglesa estrelada pela eterna Agente Scully de Arquivo X, Gillian Anderson, e pelo desejado Christian Grey na adaptação cinematográfica de 50 Tons de Cinza, Jamie Dornan. Criada por Allan Cubitt, a série apresenta os trabalhos da detetive Stella Gibson (Gillian Anderson), que é chamada pela polícia da Irlanda para investigar os crimes que vêm sendo cometidos por um assassino em série. O público acompanha simultaneamente os trabalhos da detetive e a vida do criminoso, Paul Spector (Jamie Dornan), um homem casado e com uma filha pequena, que não consegue conter seu desejo de atacar mulheres.


Com um ritmo lento, porém intenso, a série não faz cerimônia em explorar a sensualidade de seus atores principais e coadjuvantes. Mas é nas interpretações que os atores exibem o que tem de melhor. Rotulada para sempre como a agente Dana Scully de Arquivo X, Anderson volta a fazer uma investigadora, usa roupas bem parecidas, participa de autópsias, mostra o mesmo andar e as pernas imortalizadas em Arquivo X, mas é nas sutis diferenças entre as personagens que ela cresce e aparece. Stella Gibson é uma mulher madura, segura de si e de sua sensualidade. Além de tudo é tão fria que parece descender do iceberg que afundou o Titanic. Enquanto Scully vivia à sombra do Agente Mulder, Stella está sempre no controle e exala força em todas as cenas.  Em determinado momento um personagem chega a perguntar: “Você tem ideia do efeito que causa nos homens? Eu largaria tudo, família, emprego, tudo por você!” e recebe apenas um olhar gelado, como se mentalmente ela repetisse a famosa frase de Rick Blaine em Casablanca: “Se eu ao menos pensasse em você, provavelmente te desprezaria”.


 Já Jamie Dornan também faz um personagem que poderia ser muito bem uma variação de Christian Grey, ou talvez uma irônica fanfic de 50 Tons de Cinza com o tema: o que aconteceria se Christian Grey não fosse rico? Pacato psicólogo, pai de dois filhos, casado com uma enfermeira feiosa, Paul Spector ama sua família, é um profissional competente e, ao contrário de Christian Grey, nos é apresentado o tempo todo como um ser humano real.  Se você teve coragem de ir ao cinema ver 50 Tons de Cinza (não foi meu caso), deve ter rido na famosa cena onde o galã brega diz para Anastasia Steele que não faz amor, ele “fode... e com força”. Fica difícil imaginar o mesmo ator que protagonizou essa que talvez entre para a história como uma das piores cenas de todos os tempos no cinema, fazer uma declaração de amor para uma personagem específica nos últimos episódios que me fez literalmente desabar em lágrimas. Muito se comentou da atuação hipnótica de Vincent D’Onofrio como Wilson Fisk na série O Demolidor e provavelmente haverá prêmios para esse ator no próximo ano se existe alguma justiça neste mundo. Agora, Jamie Dornan não ficou atrás (sem trocadilhos maldosos, please) e mergulhou na psique de seu psicopata frio e implacável que também pode ser um pai de família amoroso e profissional exemplar.  A série é tão bem escrita que entendemos perfeitamente todos os porquês e motivações do personagem sem a necessidade de defende-lo ou mesmo redimi-lo. Ele é um escravo de seus próprios desejos, um viciado em morte.  Entendemos que a frieza que une Stella Gibson e Paul Spector os faz quase espelhos. Almas gêmeas que, em certo ponto, parecem ter consciência do que representam um para o outro.

Fica apenas o reforço do aviso: não espere uma série movimentada e se prepare para poucos acontecimentos. Mas esse ritmo, ou a falta dele,  é compensado largamente com um roteiro bem amarrado e atuações soberbas.

De ruim, fica apenas a estranheza diante do anúncio de uma possível terceira temporada. Não consigo imaginar que Stella e Paul tenham algo mais a me dizer. Entretanto, se tiverem, estarei lá para escutar, é o mínimo que posso fazer para agradecer esses atores e seus maravilhosos personagens.

terça-feira, janeiro 29, 2013

50 tons de cinza



A jovem virgem Anastasia Steele quebra um galho para uma amiga de faculdade e vai entrevistar um jovem empresário no lugar dela. Ela não faz curso de jornalismo, mas nos EUA, jornalismo não precisa de diploma universitário, então, qualquer um pode fazer o trabalho. E lá vai Ana com as perguntas na mão sem ter a mínima ideia de quem seja seu entrevistado. Aí aparece Christian Grey, rico, malhado, o mais belo dos belos. Ela faz uma entrevista ridícula, mas o destino dá um jeito dos dois se esbarrarem para, a exemplo de Crepúsculo, ele possa dizer para ela se afastar dele porque ele é “perigoso”. Claro que o cara vai ficar atrás dela o tempo todo só para dizer o quanto é perigoso e ela vai se apaixonar por todo aquele dinheiro, presentes e músculos bem torneados.
Para quem não lembra, eu defendi Crepúsculo anos atrás, apesar de todos os defeitos, relacionei seu sucesso a jornada do herói versão feminina. Onde a princesa encontra o príncipe perfeito e vive feliz para sempre. O absurdo da história é aceitável se a gente levar em conta os mitos masculinos que Arnold Schwarzenegger e Silvester Stallone emplacaram no cinema. Os caras podem bater, ou melhor, matar qualquer um que cruze seu caminho. Trata-se de uma válvula de escape para um mundo onde precisamos ser controlados e educados. Por que as mulheres não podem ter sua própria válvula de escape?
Fora o fator “dança do acasalamento”. Bella e Edward fazem o que qualquer casal apaixonado, adolescente ou não, costuma fazer. São contraditórios. Ele diz a toda hora que não podem ficar juntos, mas não larga do pé dela. Ela sabe que ele é “perigoso” por ser um “vampiro”, mas também não fica longe dele.
Agora, 50 Tons de Cinza, que começou como um fanfic de Crepúsculo, usa a mesma tática. Ele é tudo que uma mulher independente gostaria de ter como válvula de escape. Ou seja, um cara rico, bom de cama, culto, controlador e que gosta dela. Por que? Hora, deve ser cansativo levar vida de mulher independente, eu acho. Provavelmente muito mais dura do que a de um homem. Hoje em dia as mulheres costumam sustentar a casa, cuidar do marido, dos filhos, ser dona de casa e ainda arrumar tempo para estudar. Imaginar um cara rico que possa dar tudo que ela precisa e ainda ser bom de cama é um direito de sonho bem razoável, não acham?
O problema é que o livro é realmente feito para mulheres com a vida sexual muito, muito, muito monótona. Só assim para achar o livro picante. Fico me perguntando, será que os homens modernos são tão ruins de cama assim?
Gostei, entretanto, da tridimensionalidade do personagem principal, Christian Grey, ao menos ele tem uma explicação freudiana para agir do jeito que é. Ao mesmo tempo, o personagem é todo caótico. É rico, ok! Não nasceu rico. Adotado, filho de uma viciada em crack, passou dificuldades na infância. Ficou rico com o próprio esforço antes dos 30 anos. Na verdade tem entre 27 e 28 anos. Como ele arrumou tempo para ficar rico, aprender a pilotar, tocar piano, entender de vinhos, música clássica e literatura? Provavelmente com o dispositivo vira-tempo de Dumbledore.
A personagem Ana Steele é daquelas que você imagina com um corpão de garota do fantástico, mas cabeça de vento. Tudo o que ela faz para encantar Christian Grey é... nada. Ela só é bonita e gostosa. Além de burra o suficiente para não se dar conta disso. Demora a entender as piadas do cara. Demora a entender o que ele quer. Demora a entender tudo. Perto dela, Isabella de Crepúsculo poderia ser astronauta da Nasa.
O que menos gostei do livro foi a desonestidade da autora em relação a personagem principal. Claramente seduzida por toda grana e os presentes de Christian Grey, Anastasia jamais admite isso e apenas se questiona se ele é capaz de amá-la. Em um romance de verdade, isso acontece? Claro, sempre sentimos as dúvidas mais esquisitas e adotamos o comportamento mais incoerente quando estamos apaixonados. Mas no caso aqui, o problema é o exagero. Tudo em relação a riqueza de Christian é descrito com fetichização exacerbada, mas a autora tenta nos convencer que nada disso abala a cabeça da menina. Ela apenas quer ser amada. Lembrei do filme O Diabo Veste Prada onde ocorre uma situação parecida. A personagem de Anne Hathaway acaba sendo seduzida pelo glamour do mundo da moda e é justamente nessa corrosão de caráter que repousa o melhor do filme. O duelo entre o caráter da personagem e a sedução diabólica do mundo da moda. Daí o nome “Diabo” no título do filme, entre outras coisas. Aqui a autora joga isso fora para fazer uma criatura unidimensional e irritante. Ela precisaria de uma atriz muito carismática para defendê-la no cinema porque no livro, você entende claramente por que Christian Grey é fascinado por ela: ela é gostosa, muito gostosa. Mas não entende por que ele simplesmente não se limita a fazer sexo com ela e pronto. Ela é burra, não precisa conversar tanto com ela. Não precisa mandar tantos e-mails. Não precisa nada. Ela já se entregou totalmente e está feliz com os presentes. É só dizer que a ama que ela é idiota suficiente para acreditar.
Na maior parte do tempo, o livro não sai do lugar. O namoro dos dois começa e os dois transam. A primeira cena de sexo é leve e bem escrita, consegue ser excitante sem em nenhum momento parecer vulgar. Mas depois a coisa vai ficando repetitiva. A preocupação excessiva de Christian em não machucar Ana, entra em contraste com o discurso de que gosta de sadomasoquismo. Quando a prometida surra finalmente acontece, é algo tão sem sal que decepciona.
Enfim, 50 Tons de Cinza é um livro fundamental para se entender o mundo pós-feminismo, onde parece que as mulheres cansaram do discurso de independência e demonstram que encontrar alguém que lhes dê segurança financeira e lhes encha de agrados pode não ser o fim do mundo. Embora eu considere um livro bem machista, não é um machismo masculino. Ao contrário, é bem feminino. Lembrando que as pessoas mais machistas que conheci na vida eram mulheres, mas lembrando também que, o feminismo propõe não apenas direitos iguais, mas também que mulheres podem e devem ser seres humanos e, por isso, não precisam ser perfeitas. É na cobrança dessa perfeição que algumas religiões defendem que a mulher deve ter o clitóris extirpado, afinal, já são perfeitas então não precisam de mais esse prazer.
É nesse permitir não ser perfeita que o livro se encaixa. É o direito de descanso, de poder gostar de um canalha, de poder sair da linha, de experimentar coisas novas, nem que seja ler e gostar de um livro tão ruim. Duvido que leitoras de 50 Tons de Cinza vão vender a dignidade em troca de presentes, assim como fãs de Schwarzenegger não saem por aí matando as pessoas. É tudo uma válvula de escape.