sábado, agosto 31, 2019

Diário de um peladeiro XXIV – Despedida temporária dramática



Era uma vez um garoto que não gostava de futebol, mas foi obrigado a aprender a jogar para se socializar. Naturalmente, o garoto se apaixonou pela bola ainda que tardiamente. Talvez por essa paixão ter sido tardia, às vezes, tenho a impressão que nem sempre ela é correspondida. Mas o fato é que foi jogando bola que descobri coisas como amizade, companheirismo, trabalho em equipe... Acho que descobri quem eu realmente era. Descobri a mim mesmo.

Eu tinha 12 anos e quem me ensinou foi um moleque de 10. Sim, um garoto que usava uma bermuda muito engraçada, feita pela mãe. Parecia a roupa do Chaves. Mas ele fazia igual a um treinador de verdade. Me ensinava a chutar com toda a paciência do mundo. Ensinou a matar no peito, a cabecear... Aprendi muito com ele. Mas tinha um outro, um lourinho encapetado que jogava muito, mas muito, mesmo. Vivia brigando comigo, me provocando porque eu era mais velho e não sabia jogar futebol. E quando digo brigando, falo nas vias de fato. Socos e pontapés. Assim, eu ficava lá: o aprendiz de 12 anos de dois moleques de 10. Deu certo. Aprendi, eu acho.
Entre uma briga e outra, o louro encapetado foi se tornando meu amigo também. Os anos se passaram e ele com 14 foi fazer teste em São Januário no poderoso Vasco da Gama. Era certo que entraria. Ele era muito bom. Sempre achei que ele acabaria na Seleção. Me chamou para fazer companhia. Fomos eu, ele e o pai dele de carro para São Januário. Lembro que no carro tocava uma fita do Engenheiros do Hawaii, acho que escutamos a música “Tribos e Tribunais” umas dez vezes entre Volta Redonda e o Rio de Janeiro.
Chegando lá, o pai dele cismou que eu também deveria fazer o teste. Falei que não levei chuteira. Um cara arrumou para mim. Entrei num ônibus e fomos para um lugar ali próximo. Era uma bagunça. Tudo misturado. Um campo de terra sem um tufo sequer de grama. Sem grama e sem responsabilidade, eu joguei leve, feliz. Corri o campo todo e num escanteio fiz um gol de cabeça.
No final, saí contente. Fui perguntar para meu amigo como foi. Ele não tinha passado. Mas conseguiu agendar um outro teste para a próxima semana. Mesmo assim, mesmo tentando disfarçar, vi que ele estava chorando. Aquilo era realmente importante para ele.
Quando fui devolver as chuteiras, o técnico me chamou. “Você aí, grandão. Fica aí. Fala com teu pai que você vai ficar”. Entendi que tinha passado na peneira do Vasco da Gama. Logo eu, que no começo odiava futebol, que comecei a jogar com 12 anos. O cara ainda emendou: “Golaço de cabeça! Tu tem raça e sabe se posicionar na defesa”.
Eu falei que não fui eu quem fez o gol. Eu não sei quem era o tal técnico. Nunca mais vi. Mas ele era esperto. Ele entendeu. “Eu vim só para acompanhar”, falei baixinho para que o meu amigo não percebesse. Ser jogador de futebol era o sonho dele, não o meu. Ao menos não naquela época. Naquela época eu tinha a ingênua ilusão que estudar no Brasil me levaria a algum lugar. “Você é amigo, mesmo”, disse o técnico. “Mas pensa direito. Qualquer coisa, volta semana que vem”. Nunca mais voltei.
Quando o amigo veio e perguntou o que houve, eu disse que o cara ficou puto que estraguei a chuteira... Ele não falou nada. Nunca perguntei depois se ele acreditou na mentira ou não.
Pois é... Deixando para trás a década de 80 e voltamos à pelada de hoje, sábado, último dia de agosto, de 2019, foi para fazer uma despedida decente. Vou ficar apenas um mês sem jogar futebol. Ficarei tomando anti-inflamatório e tentarei não engordar. Mas a última pelada foi tão ruim que resolvi transformá-la em penúltima. Assim sendo, resolvi fazer um jogo de despedida que fosse decente. E foi!
Continuo correndo bem. Fiz boas jogadas. Teve um momento que entendi que não dava para ficar indo e voltando na defesa e para o ataque, então revezava. Hora ficava na frente, hora defendia. O gol foi o famoso gol de videogame com uma boa troca de passes iniciada pelo meu eterno garçon, Bruno Kaehler. Só tive o trabalho de tocar para a rede. Ainda chutei duas vezes, mas o goleiro defendeu. Numa delas, dei um corte seco para dentro, limpei e chutei. Se tivesse mais um segundo para mirar, teria sido gol.
Claro que nunca mais vou ter 16 anos. Mas me pergunto o quanto posso melhorar, me aproximar do sol e sair da sombra daquele Tato que jogava com a camisa 14 do Moinho de Vento?
Porque às vezes, fica claro que há um abismo entre o Tato que parou de jogar em 2003 com o Clinton que voltou aos “gramados” em 2015. Não que eu chegasse a ser um grande craque, mas tinha meus dias... Ninguém aliás, me chama mais de Tato, agora é só Clinton.
A pergunta se responde quando a gente joga novamente com a metáfora: futebol x vida. Às vezes, penso que tudo que aconteceu nos últimos anos, tantas cosias ruins que não valem a pena serem postadas. Na verdade, o segredo é justamente esquecer as coisas ruins. Esquecer as bolas na trave da vida e lembrar dos golaços. Mesmo aqueles que a gente teve que dizer que não fez porque era a atitude mais correta naquele dia. Em outras situações, enfrentamos pessoas que que insistem em dizer que não fizemos gol algum, ou que o gol não valeu. E tem uma situação ainda mais crítica: quando as pessoas que não querem nos dar crédito somos nós mesmos. Assim, quando paramos de dar crédito às nossas próprias vitórias, de certa forma, paramos também de viver.
Na metáfora futebol x vida, entendo que o meu gol mais bonito não foi aquele com 14 anos, no campo do lago, driblando todo o time do Flamengo, inclusive o goleiro. Aquele que meu pai invadiu o campo para me abraçar. Nem aquela bola no ângulo no treino do Voltaço. Muito menos aquele gol que eu não fiz em São Januário. O gol mais bonito foram três. Uma menininha de olhos muito claros que me olhou pela primeira vez nos braços da enfermeira em 1992. Parecia um sorvetinho e que hoje é uma bela psicóloga trabalhando em São Paulo. E dois meninos que nasceram juntos em 2007. Nasceram lindos como a mãe, mas muito doentes, a enfermeira os chamava de “bebês graves” e que tive que esperar um mês para poder abraçá-los. Hoje sinto os três longe de mim tanto fisicamente quanto fraternalmente. E isso acontece há tanto tempo que sinto que estou perdendo a autoria deles. Sinto que estou perdendo o direito de me dizer pai destas três pessoas. Com eles, percebo que também perco a mim, mesmo. Deixo de ser o Tato, deixo de ser o Clinton e me transformo em um não ser.
 Às vezes, os gols mais bonitos são aqueles que comemoramos sozinhos, sem alarde, em silêncio e de longe. Costuma-se dizer que, quando criança, choramos bem alto para chamar a atenção. Na vida adulta aprendemos a chorar em silêncio, à noite, no escuro, não por gols perdidos, mas com saudade dos golaços que já fizemos e mantemos a esperança de que voltem a fazer parte da nossa vida.
Talvez essa seja a grande motivação em relação ao futebol: uma necessidade intrínseca de novamente encontrar a mim mesmo dentro do gramado. Foi lá que me encontrei da primeira vez. Talvez eu ainda esteja ali. Quem sabe?
  
Saldo de 2019:
30 jogos
21 gols
Clinton Davisson é jornalista, mestre em comunicação, pesquisador, roteirista e escritor. Autor de quatro livros, sendo um deles “Fáfia – A Copa do Mundo de 2022”, que será relançado este ano.



segunda-feira, agosto 26, 2019

Diário de um peladeiro XXII – Duas peladas nenhum gol e hora de tirar 30 dias de férias do futebol



Acho que 2019 é um daqueles anos de superação. Digo isso porque 2018 o pior ano da minha vida. Sem sombra de dúvidas. Estas crônicas de peladeiro representam muito o meu lema para 2019, roubado descaradamente de “Procurando Nemo”, ou seja, “Continue a nadar”, no meu caso, continue também a jogar. Entretanto, tem horas que a gente tem que dar um passo para trás para poder seguir mais firme para frente. A dor no púbis finge que melhora e depois piora. Confesso que não fui ao médico (de novo) especificamente para tratar sobre isso porque não me acostumo com os serviços do SUS. É muito constrangedor ir ao médico e ele te olhar com uma cara como se eu estivesse cometendo um pecado terrível ao tomar o tempo dele com meu púbis inflamado por futebol enquanto ele poderia estar salvando um bombeiro que caiu da escada ao salvar um gato, um policial que fraturou o fêmur perseguindo um terrorista, ou mesmo um tumor cerebral no secretário da ONU que deverá fazer um discurso que impedirá a terceira guerra mundial (Para quem não sabe, este é parte do plot dos filmes Viagem Fantástica e de Fuga de Nova Iorque).
Durante meus “anos de glória do futebol” havia o Eduardo, um português dono de uma rede de padarias em Barra Mansa. Uma simpatia de pessoa. Me contava com orgulho que foi patrão do Zinho, ex-Flamengo, Palmeiras e Seleção Brasileira.
Apesar de simpático, Dudu era terrível com a bola nos pés. Mas até nisso ele era simpático, porque reconhecia suas limitações. Ficava praticamente debaixo da trave a espera de uma bola para chutar ao gol. Não sentia nenhum constrangimento com isso. Estava de boa com a gente e a gente estava de boa com ele.
Sempre admirei aquela capacidade de aceitar os próprios limites, de estar ali pelo prazer de estar. Hoje, muitas lesões depois, cá estou eu, renegado a função do Dudu nas peladas de quinta. É engrado pensar em aceitar os limites. É exatamente o que preciso fazer, mas, já diria o sábio Jedi, Obi Wan Kenobi, tudo é uma questão de ponto de vista. Afinal, eu acho que minha limitação ainda não é ter que ficar embaixo da trave, esperando uma bola sobrar. Minha limitação talvez seja não ter ainda humildade suficiente para me relegar a posição do nobre português. Assim, depois de um tempo, parei de fazer a bendita posição. Saí debaixo da trave e fui buscar jogo. Deu certo.
Não posso dizer que foi exatamente um dia bom. Meus chutes teimaram em ir sempre para o lado errado. Sempre pegando errado na bola. Inclusive, houve o momento em que a bola sobrou para mim debaixo da trave e caprichei no chute, peguei errado. Eu estava a um metro e meio do gol, que estava vazio, e a bola foi para fora. Acertei alguns passes e dei assistências. Principalmente depois que vim buscar a bola. Corri muito, o que foi o mais importante.
Bom, isso foi na quinta. Aí, veio o sábado. Outra pelada. Essa deu quase tudo errado. Um amigo esqueceu de levar a bola e os coletes. Fui buscar uma bola e uma bomba de encher na secretaria da Faefid. A bola não enchia, a bomba estava com defeito. Sem coletes, em um dos dias mais frios do ano, dividimos corajosamente os times em “com camisa” x “sem camisa”.
Com todos os problemas, a Pelada começou com 20 minutos de atraso. Ainda tivemos duas paradas longas por contusão. Ao menos não fui eu quem se machucou, se é que isso serve de consolo. Duas pessoas se machucaram em choques. Na segunda vez, um rapaz se contundiu numa disputa de bola e ficou deitado uns 5 minutos no gramado sintético. Em um daqueles eventos surreais que teimam em acontecer na minha vida, enquanto observava de longe o contundido, escutei gritos atrás de mim. Ouvi: “Massagem! Ele precisa de massagem! Quem quer massagem?”.  Me virei e vejo dois homens negros de aproximadamente 1,80 de altura entrando com camisas de vôlei no gramado sintético e correndo em direção ao rapaz contundido. Percebi que eram carecas e lembravam o Sebastian Soul, garoto propaganda da C&A. Se não eram gays, faziam uma perfeita imitação. Eu ri alto. Fiquei perplexo, pois não sabia se estavam apenas se divertindo com a situação, se estavam tirando onda com a nossa cara, se eram realmente entendidos em massagem, talvez estudantes de ortopedia querendo ajudar, se eram atores. Ficamos realmente sem saber. Até porque eles deram meia volta e saíram rindo.
Provavelmente estavam apenas se divertindo com nossa cara.
Passado o momento surreal, voltamos ao futebol e no curto período de tempo que se seguiu, eu continuei chutando para fora. Fui no meio buscar jogadas e acertei a maioria dos passes. Mas os chutes foram sempre para fora. Percebi que minha chuteira está rasgada, mas não posso culpá-la pelas bolas mal direcionadas. Fui para o gol e até que fui bem, apesar de fazer uma jogada esquisita na qual eu abaixei para pegar a bola e ela passou debaixo da minha perna, isso acabou tirando completamente o jogador adversário da jogada. Um drible perfeito. Totalmente involuntário, mas perfeito.
Vale o registro do chute do Pedro, que acredito eu, ser estudante de medicina. Ele estava com a sagrada camisa do Flamengo e talvez já antecipando as bençãos de São Arrascaeta, chutou uma bola que foi exatamente no ângulo. Em outros tempos eu saltaria para trás e tentaria fazer a defesa de mão trocada. Acho que não adiantaria, mesmo assim. A bola entrou lindamente na “gaveta”. Foi o gol mais bonito que já tomei...
E assim, resolvi que é hora de parar um pouco para tratar a lesão no púbis. Não apenas porque em menos de dois meses levei um lençol mais lindo que já tomei e agora o gol mais bonito, mas porque a lesão não para de doer e pelo que me informei a respeito, a tendência, caso eu não trate isso, é piorar. Vou ficar pelo menos um mês em repouso, tomando anti-inflamatório e depois academia. Só depois eu volto ao meu querido mundo do futebol. Só espero não engordar de novo. Vou ficar muito pau da vida se isso acontecer. Só de escrever isso, já bate saudade do futebol.


Saldo de 2019:
29 jogos
20 gols
Clinton Davisson é jornalista, mestre em comunicação, pesquisador, roteirista e escritor. Autor de quatro livros, sendo um deles “Fáfia – A Copa do Mundo de 2022”, que será relançado este ano.


domingo, agosto 18, 2019

Diário de um peladeiro XXII – 5 jogos e 5 gols





Estava ficando repetitivo demais. Sempre falando da preocupação com a minha 6ª vértebra lombar. Sempre falando da pubalgia que não sara nunca. E finalmente, da falta de fôlego e de como fazia falta a bendita academia.
Mas na verdade, eu só parei mesmo com essas crônicas porque desanimei, mesmo. Desanimei de escrever, não de jogar.
Mas enfim, agora estou jogando duas vezes por semana. Uma vez no Aerosoccer (antigo Botafogo), nas quintas-feiras, e uma vez na Faefid da UFJF nos sábados. Se a grana desse, continuaria jogando com o pessoal do ICH no Granbery na segunda. A galera parece legal e como um jornalista e escritor pode deixar passar impune a oportunidade de jogar bola com a galera do Instituto de Ciências Humanas? Me aguardem!
Acho que só não desisti porque havia até uma cobrança dos amigos boleiros pela que os textos continuassem.
 Passados cinco jogos. Foram cinco gols. Teve gol de perna esquerda, de perna direita, gol dentro da área, fora da área. Só faltou o de cabeça, que continua sendo só um este ano. Mas os dois que mais gostei foram chutes de longe. Ambos foram da mesma posição a direita do meio campo. Um foi na quinta-feira, chutei forte, meio de peito de pé, meio de chapa, de direita e a bola não foi tão forte mas pegou um efeito interessante. Foi exatamente no ângulo batendo na trave a minha direita e depois no chão. O goleiro nem esboçou reação. Foi certamente o gol mais bonito deste ano. O outro foi o último. Chutei do mesmo lugar, no campo da Faefid que é maior. Só que a bola não foi pelo alto, ela foi forte, rasteira e, digamos assim, cheia de veneno. O goleiro tentou parar ela com o pé, mas ela passou por debaixo do pé dele. Foi um frango legítimo. Mas quem liga? Gol é gol...
Nesse meio tempo também teve momentos engraçados. Levei um chapéu também bonito, aliás, lindo, no Aerosoccer. Tanto que esqueci que estava como adversário e torci para que se transformasse em gol. Deu “serto”. Foi gol. Depois fiquei fazendo aquilo que mais provoca risos na minha terapeuta. Fiquei filosofando sobre futebol. Porque a capacidade de apreciar um lance bonito pode transcender o fato de estar jogando e que minha função ali era evitar o bendito gol. Acho que fiz errado, claro. Porque se tentasse evitar e ele conseguisse fazer o gol mesmo assim, valorizaria a jogada. Ficar assistindo, é falta de respeito com o seu time e com o adversário. Em se tratando de uma pelada, isso é perdoável, claro. Mas agora que o fôlego voltou, acredito que não se repetirá, mais.
Como sempre reparo, o futebol, assim como vários esportes, são metáforas da vida. Às vezes, somos tentados a ser meros expectadores da nossa vida e ficar assistindo outras pessoas fazerem jogadas bonitas. E por que não? Nada impede de você tirar um tempo, admirar e até incentivar as conquistas dos outros. Mas por mais que isso seja verdade, não pode ser regra. A vida da gente só funciona quando assumimos o nosso protagonismo. Não é errado aplaudir um drible que levamos. Trata-se até de uma virtude. Mas não podemos parar por aí. Temos que fazer também nossos dribles, nossos gols, nossas jogadas de craque. Lembrei disso na última pelada na Faefid. Teve um jogador que ainda não aprendi o nome. É um baixinho e gordinho. Ele tem uma vontade contagiante que acaba incentivando o time a correr mais e a lutar mais. Mas estava no time adversário. Ele deu três belos chutes para gol, mas por acaso, o goleiro naquele momento era eu. Defendi tudo e meu time venceu. Juro que pelo menos dois chutes mereciam entrar. Mas a minha função era não deixar entrar. Cumpri com honras. Minha maneira de honrar o futebol e a vontade daquele jogador foi defender seus chutes. Assim é o futebol. Assim é a vida.
Também dei meus dribles, dei muitos passes para gols. Como já disse, fiz umas ótimas defesas no gol, com direito a ponte, braço trocado e defesas de reflexo. Mas o que mais gostei foi poder voltar a correr o campo todo. Ter fôlego. Um segredo foi uma solução simples do meu querido otorrino, ex-vereador e ex-secretário de saúde de Macaé, Pedro Reis, que aconselhou a usar soro fisiológico regularmente. Isso deu uma diminuída de 80% na minha alergia e agora quando respiro, o tal do oxigênio entra nos meus pulmões. Enfim, não era só a idade. Graças aos deuses e a ciência.

Saldo de 2019:
28 jogos
20 gols
Clinton Davisson é jornalista, mestre em comunicação, pesquisador, roteirista e escritor. Autor de quatro livros, sendo um deles “Fáfia – A Copa do Mundo de 2022”, que será relançado este ano.

terça-feira, julho 30, 2019

Diário de um peladeiro XXI


Pelada foi boa. Com muito dificuldade estou conseguindo segurar mais a bola para poder criar jogadas ao invés de ficar parado embaixo da trave esperando passes perfeitos. Algo me diz que, por causa da dor no púbis, eu não deveria estar jogando. Mas se eu parar, é pior.
Fiz um gol exatamente debaixo da trave depois de um passe perfeito. Achei engraçado que até gente do time adversário comemorou. Fiquei com a impressão que eles leem o meu diário e torcem por mim.

Saldo de 2019:
21 jogos
15 gols
Clinton Davisson é jornalista, mestre em comunicação, pesquisador, roteirista e escritor. Autor de quatro livros, sendo um deles “Fáfia – A Copa do Mundo de 2022”, que será relançado este ano.

quarta-feira, julho 24, 2019

Morre Rutger Hauer


Um dos ícones dos anos 80, ator holandês morreu no dia 19 de julho


Morre um dos ícones dos anos 80. O ator Rutger Hauer estava com 75 anos e morreu em sua casa na Holanda. Sua morte foi comunicada pela família e pelo empresário como causada por uma “breve doença” não especificada.
Rutger Hauer era holandês e fez vários filmes marcantes, embora nenhum verdadeiro campeão de bilheteria. Foi o vilão de Falcões da Noite (1981), excelente triller policial com Silvester Stallone e Billy De Willians. O Casal Osterman (1983), baseado no livro de Robert Ludlum. Conquista Sangrenta (1985), A Morte Pede Carona (1986) e os mais conhecidos no Brasil: Blade Runner (1982) e O Feitiço de Aquila (1985). Uma curiosidade é que o belo filme de Richard Donner, o mesmo feliz criador de Máquina Mortífera, Goonies e do primeiro Superman, foi um fracasso de bilheteria mundial. Entretanto, no Brasil, o filme é cultuado, graças a Sessão da Tarde. Não é difícil encontrar no Brasil mulheres chamadas Ethienne em função do personagem interpretado por Hauer.
Seu talento foi reconhecido com o Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante em filme para a tevê em 1987 pelo filme Fuga de Subibor.
Já na década de 90, Hauer continuou na ativa, mas sem papéis de destaque em filmes do primeiro escalão de Hollywood. Ainda assim, Hauer protagonizou um episódio marcante em 1993 quando se deu início à produção de Entrevista com o Vampiro, de Neil Jordan. Recheada de grandes astros da época como Tom Cruise, Brad Pitt e Antônio Banderas, a produção foi abalada por declarações de Anne Rice, autora do livro, que berrava aos quatro ventos que não concordava em ter Tom Cruise como o endiabrado vampiro Lestat.  Rice afirmava, para quem quisesse ouvir, que se inspirava na figura de Rutger Hauer para criar Lestat e ele é quem deveria viver o vampiro no cinema. Os produtores, infelizmente, não atenderam ao pedido da autora alegando que Hauer, na época com 49 anos, estaria velho demais para o papel.
No século XXI, o ator era figura presente como coadjuvante de luxo em filmes como Batman Begins e Sin City. Um sinal claro do reconhecimento do talento inegável deste ator.
Em 2007, o ator lançou sua autobiografia " All Those Moments: Stories of Heroes, Villains, Replicants, and Blade Runners". Em 2013 foi nomeado Cavaleiro da Ordem do Leão Neerlandês por serviços prestados à dramaturgia.
Ator e diretor, Rutger Hauer também era ambientalista, sendo um dos patrocinadores do Greenpeace e criador de uma ONG chamada Rutger Hauer Starfish Association, dedicada a esclarecer dúvidas e quebrar tabus sobre doenças sexualmente transmissíveis.
No clássico Blade Runner, ele interpreta Roy Batty, seu personagem mais emblemático. Um replicante, um androide que foge para procurar seu criador em busca da cura para uma doença chamada morte. Ele queria mais tempo de vida que os quatro anos padrão para os androides do filme.
Roy, assim como Rutger Hauer morreu em 2019. Suas últimas palavras foram improvisadas num monologo do ator e se tornou uma das cenas icônicas do cinema:

“Eu vi coisas que vocês não imaginariam. Naves de ataque em chamas ao largo de Órion. Eu vi raios-c brilharem na escuridão próximos ao Portal de Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer”.

sábado, julho 13, 2019

Diário de um peladeiro XX – O mico veio receber, mas não paguei




13 de julho de 2019. Veio a pelada de sábado e eu me excluí desde quinta porque estava gripado. Deixei de ir ao cinema porque estava até com dor nas costas, imagina jogar futebol com o pulmão virtualmente quebrado. Nada mais racional e coerente que esperar mais uma semana até estar recuperado, correto? Eu posso ser racional, mas coerente... Como diria meu amigo escritor, o Carlos Cardoso, o negócio é ser contraditório.
Como havia pouca gente e a opção era ficar em casa jogando “Alien – Isolation” no computador, resolvi, então, me aventurar apenas como goleiro; para ver se aguentava. Cheguei lá, arrisquei a ir na linha e, para surpresa geral, eu estava com um fôlego melhor que quando não estava doente. Não entendi nada. Parece que o mundo é assim, sem lógica, sem coerência, sem racionalidade. Quem sou eu para reclamar? Fui jogar e enquanto aguentava correr, corri. O fato é que acabou a pelada e eu ainda não estava cansado. Nem parece a pessoa que não aguentava falar na terça-feira.
Lógico que não forcei, não corri tanto. Na verdade não corri quase nada. Arrisquei poucos dribles. Errei um monte de passe. Mas se não tive a melhor atuação do ano foi mais por conta da coluna que pela gripe. Por falar em coluna, hoje ela me irritou. É como jogar futebol fantasiado com aquelas roupas de mascote. Medo absurdo de fazer qualquer movimento que lembrasse a famosa “ginga” do filme do Pelé. Medo de gingar e a coluna se partir. Acho que no fundo eu sei que isso vai acontecer cedo ou tarde e adeus futebol. Então, permaneço o verdadeiro homem de lata com a bola nos pés.
Arrisquei 4 chutes. Um foi gol, outro bateu na trave, outro foi uma bela jogada de troca de passes que o zagueiro bloqueou em cima e finalmente um o goleiro defendeu.
Saí feliz. O gol foi uma jogada linda do amigo Vitão que só tive o trabalho de chutar no canto longe do goleiro.
No final, fui recebido por dois macaquinhos da UFJF, os miquinhos, conhecidos por Callithrix penicillata, sagui-de-tufos-pretos, mico-estrela ou simplesmente sagui. Espécie que habita as matas que cercam Juiz de Fora e principalmente o Campus da UFJF. Os miquinhos estranhamente vieram para meu lado, como se cobrassem alguma coisa. Foi aí que percebi. Ao contrário do esperado, mesmo sem estar totalmente recuperado da gripe, eu não paguei nenhum mico. Melhor assim.

Saldo de 2019:
20 jogos
14 gols
Clinton Davisson é jornalista, mestre em comunicação, pesquisador, roteirista e escritor. Autor de quatro livros, sendo um deles “Fáfia – A Copa do Mundo de 2022”, que será relançado este ano.

terça-feira, julho 02, 2019

Diário de um peladeiro – Parte XIX – Sobre foco, motivação e os cadáveres do Everest

Se não me engano, foi o cara do “Dicas do He-Man” que escreveu lá pelos idos de 2017: “Lembre-se. Todo cadáver no Everest já foi alguém extremamente motivado”. Este ano, alguém teve a sacada de colocar um adendo para dar uma alfinetada, talvez uma flechada, na modinha dos Coachs. Assim, ficou: “Dica anti-coach – Lembre-se que todo cadáver no Everest já foi uma pessoa extremamente motivada e fora da zona de conforto”.
Esse “espírito de coach” me acompanha desde meu primeiro emprego em Juiz de Fora, como vendedor de cursos de inglês. Estavam na moda alguns gurus do entusiasmo como Lair Ribeiro, Paulo Coelho, James Redfield e Richard Bach outros “trocentos” autores que se especializaram em criar maneiras mais coloridas de nos dizer que há esperança. Pessoalmente, nunca levei muito a sério estes autores, mas gosto de como abordam a questão da esperança. De quando afirmam que vivemos em um mundo onde ter esperança e ser otimista pode fazer a diferença para alcançar um resultado. Na prática, claro, a coisa não é bem assim. Nos acostumamos a ver casos de sucesso de um Neymar, Usain Bolt, Pelé, Mohammed Ali, como se fossem a regra quando, na verdade, são raras, muito raras exceções. Para cada Romário na Vila da Penha, tem mil moleques que morreram e não é figura de linguagem. Mas é justamente aí é que está a beleza dos livros de autoajuda. Quando nos fazem perceber que temos sempre uma escolha. Um dia, certamente, todos nós vamos morrer. Mas podemos ser aquele cadáver no Everest ou aquela pessoa que morreu com bala perdida dentro de casa. Se for para cair, escolho cair atirando. Simples assim. 
O grande erro destes entusiastas da autoajuda para mim está na simplificação. O mundo não é feito de vencedores e perdedores. Este conceito é subjetivo, pois a vitória pode estar apenas na persistência e grandes vitoriosos como Elvis Presley ou Michael Jackson me dão a impressão de uma vida terrivelmente infeliz, talvez eu trocasse minha conta bancária com a do Rei do Pop, mas não trocaria de vida com ele. Mas até nisso, os livros de autoajuda são úteis, pois foi o próprio Lair Ribeiro que definiu que há uma diferença grande entre sucesso e felicidade. Sucesso é conseguir o que você quer. Já a felicidade é um estado interno. Para ser feliz, basta gostar do que você tem. Quantos pobres miseráveis conhecemos e temos a impressão que são pessoas felizes? Enquanto há pessoas bem sucedidas que estão em estado contínuo de infelicidade. O contrário certamente também acontece. Mas este é o ponto. A felicidade não depende do sucesso, muito menos dos Coachs.
Enfim, a ideia deste blog não é contar uma história de sucesso normal, mas simplesmente de uma luta para não ficar parado. Dificilmente alguém no Fantástico vai querer entrevistar um blogleiro que sai feliz apenas por ter estado em mais uma pelada. Mesmo que não faça gols. Digo isso porque, eu também não saio feliz quando não faço gol. Acho que o gol carrega uma simbologia maravilhosa. Gol vem do inglês “goal”, ou seja “Objetivo”.
Dito isso, na 19ª pelada do ano, eu não fiz gol. Havia uns cinco jogos que isso não acontecia. Foi a chamada incompetência, sim, mas houve muitas chances. Apesar de estar bem mais gordo a cada semana, parece que meu corpo se acostumou. Chutei ao gol umas quatro vezes. Em duas o goleiro defendeu.
Também catei no gol. O povo elogiou e fiz boas defesas. Teria feito mais se não fosse o medo de saltar na bola e separar o tronco do resto do corpo. Fora isso, foi uma pelada legal. Com a galera nova que veio da pelada de segunda. Povo bom de bola e simpático. Deu um pouco de confusão por ter muita gente e fiquei com medo deles terem uma impressão ruim da pelada. Mas é um troço esquisito. Na última vez deu gente de menos. Agora, deu gente de mais. Para quem cresceu em times certos e escolinhas, acho que nunca vou acostumar com falta de gente para jogar futebol. Coisas de Minas Gerais que nós do Rio não entendemos.
Dei passes para uns 5 gols, coisa que não costuma acontecer. Pelé dizia que dar o passe, às vezes, é tão importante quanto fazer o gol em si. “Às vezes, só tem o trabalho de tocar na bola, entende?”. 
No final, fiquei feliz, mesmo, por estar ali, por ter vindo, por ter participado, por ter feito este movimento de resistir à inércia de ficar em casa. Mas o objetivo... Este não foi cumprido. Talvez tenha jogado até melhor. Mas na vida a gente tem que ter foco. Ano passado, neste mesmo dia, eu já estava com uns 9 gols a mais e uns 10 quilos a menos. Bora correr. Bora caminhar.
Para piorar, peguei uma gripe domingo e estou com ela até hoje, terça-feira. Por isso que o texto não saiu antes. Enfim, quando as coisas dão erradas também faz parte do jogo. Os cadáveres do Everest estão aí para provar. Eu sempre imagino que morreram felizes, porque morreram tentando. Porque caíram atirando.
Saldo de 2019:
19 jogos
13 gols
Clinton Davisson é jornalista, mestre em comunicação, pesquisador, roteirista e escritor. Ao contrário da maioria dos brasileiros, ele nunca foi a Harvard, mas publicou quatro livros, sendo um de futebol. É perna de pau assumido, mas não se importa com isso.



Diário de um peladeiro – Parte XVIII – Roberto Carlos e O Senhor dos Anéis

25 de junho de 2019
Composição de Roberto e Erasmo Carlos, Detalhes, enfatiza em seus versos que “detalhes tão pequenos de nós dois são coisas muito grandes para esquecer”. Quem fez o link desta lição filosófica musical com o futebol foi meu amigo Marcelo Alvez Pereira. Nos distantes anos 80, ele me viu chutando a bola no campinho no Moinho de Vento, em Barra Mansa-RJ, e observou que eu não tinha o hábito de mirar. 
- Por que não chuta no gol? – perguntou. 
Respondi que tentava chutar o mais forte possível e não estava preocupado com para onde a bola ia. Tentava apenas imprimir força e acertar o muro. O gol era um detalhe.
- Mira no gol! – insistiu. – Assim, quando você estiver num jogo, vai ter mais chance de mirar corretamente.
- Mas isso é um mero detalhe – repliquei irritado.
Marcelinho cantou exatamente o trecho da música. “Detalhes tão pequenos de nós dois. São coisas muito grandes para esquecer”.
Eu ri daquilo, mas passei a mirar apenas porque ele estava enchendo o saco. Com o tempo, esse detalhe realmente fez a diferença na minha breve carreira futebolística.
Marcelo estava lá em casa quando eu e meu irmão tivemos nosso primeiro contato com o mundo mágico de J.R.R. Tolkien, vimos o trailer de O Senhor dos Anéis. Mas não era o de Peter Jackson. Isso aconteceu muito antes. Tratava-se da fantástica animação de Ralph Bakshi de 1978. Provavelmente assistimos em 1986. Tratava-se da mesma produção que apresentou Tolkien a Peter Jackson. Vimos o desenho em casa e depois disso eu procurei os livros para comprar. Das milhares de coisas que me saltaram os olhos naquela epopeia fantástica, estava as relações de amizade e lealdade entre os personagens. Nos apêndices da história, hobbit, Peregrin Took, batiza seu filho de Faramir, homenageando um humano, antigo companheiro de batalha.
Na pelada de hoje, 24 de junho, voltei a jogar futebol de salão depois de muitos anos. A última vez foi em setembro de 2013. Quase seis anos. Exatos 13 quilos atrás. Na época, fiz seis gols numa única partida. Até hoje, um dos gols mais bonitos. Uma bomba no ângulo do meio de campo da qual provavelmente voltarei a falar muito nesta coluna pseudofutebolística, pseudofilosófica e verdadeiramente autorreflexiva.
A noite não estava tão fria quanto nos outros dias. Joguei com uma turma do ICHL - Instituto de Ciências Humanas e Letras da UFJF. O que me leva a automaticamente a simpatizar com todo mundo ali. Eram, afinal, companheiros de balbúrdia.
Fiz a coisa certinha de novo, subindo um morro a pé para aquecer antes. Falar que meu preparo físico melhorou, mas ainda está uma droga, virou lugar comum nesta coluna literária. A novidade é que, desta vez, a região lombar da coluna voltou a doer. Acho que foi a primeira vez no ano. O futebol de salão te cobra mais “ginga” aquela versão da “força” de Star Wars que, segundo o filme do Pelé, todo brasileiro tem. Sim, nós somos os Jedi do futebol. Claro, que, se você quebra sua coluna na sexta vértebra lombar, você perde a ginga. Então, estou há 12 anos tentando aprender o jeito alemão cintura dura de jogar. 
Até que não fui mal. O fôlego está voltando. O time estava com um problema sério de posicionamento, mas quem liga? A ideia é correr, chutar a bola, esquecer dos problemas e, no meu caso, entender como anda a minha ansiedade. E é aí que veio a melhor notícia. Só encontrei resquícios dela. Praticamente foi embora. Algo interessante de se perceber num grupo em que eu não sabia o nome de ninguém e vice-versa.
Fiz um gol, chutando de primeira no meio das pernas do goleiro e dei passe para outro. Devo ter dado uns cinco chutes. Me lembro que em um deles, eu estava livre, na meia direita. Deu tempo de escolher como iria chutar. Como era salão, escolhi de bico, forte. Tentei mirar como o Marcelo ensinou. Mas os detalhes, sempre os detalhes... o bico não pegou como deveria na bola e o chute saiu mascado. 
Em outro momento, na prova definitiva que minha ansiedade está de malas prontas para voltar para o inferno, é que me julguei digno de roubar uma bola no meio de campo, driblar dois adversários e o goleiro. O que dá 85% do time. No último drible, porém, veio o detalhe. A bola foi um pouquinho forte demais e eu rápido de menos. Perdi o ângulo e junto com ele o que seria meu gol mais bonito de 2019. Tudo por detalhes tão pequenos de nós dois: eu e a bola. 
Sério, me senti como o Gollum perdendo seu precioso anel nas cavernas. Pensei todos os “ses” que poderiam ter me levado a conseguir fazer aquele gol: “Se eu tivesse colocado um pouco menos de força ao driblar o goleiro”, “se eu tivesse um pouco mais de agilidade”, “se eu tivesse uns 20 anos a menos”, “se tivesse voltado para a academia”, “se minha coluna não estivesse se quebrado 16 anos atrás”.
O futebol é como a vida. Os erros e os acertos estão nos detalhes. Marcelo estava certo. Claro que estava. A gente segue nesta jornada tentando resgatar o futebol perdido depois de 12 anos parado. “Você pode encontrar as coisas que perdeu, mas nunca as que abandonou.”, escreveu Tolkien em O Senhor dos Anéis. Eu nunca abandonei o futebol. Apenas achei que havia perdido junto com a coluna em 2003.
Marcelo morreu em decorrência de um enfarte em 2005. Foi um dos grandes amigos e companheiros de batalha que encontrei na vida. Seguindo a tradição de O Senhor dos Anéis, botei o nome do meu filho de Marcelo. E eu sempre miro no gol quando vou chutar. Embora nem sempre a bola vai para onde a gente aponta.
Saldo de 2019:
18 jogos
13 gols
Clinton Davisson é jornalista, mestre em comunicação, pesquisador, roteirista e escritor. Ao contrário da maioria dos brasileiros, ele nunca foi a Harvard, mas publicou quatro livros, sendo um de futebol. É perna de pau assumido, mas não se importa com isso.


Diário de um peladeiro – Parte XVII – Vai Romário

21 de junho de 2019
O mundo é redondo, logo é uma bola. Tudo indica que o universo também. E determinadas pesquisas apontam que o universo não é apenas redondo, mas feito de gomos em forma de pentágonos como as bolas antigas. Mais que o jogo da vida, é o jogo do Cosmos.
Este sábado eu já estava com um fôlego melhor. Mas faltou gente para a pelada e foi aquela coisa de ficar em campo direto durante uma hora. Para quem jogava sábado de 8h às 22h quando era criança, não é nada. Mas a idade chega, a barriga cresce e o universo vai te avisando o seu tempo está passando.
O plano de subir a pé o morro entre o bairro Teixeiras, até a Faculdade de Educação Física da UFJF é ótimo para aquecer. São apenas três míseros quilômetros. Mas subimos 98 metros de altura. Se fosse da minha casa, seriam quatro quilômetros e 200 metros de altura para “escalar”. Ainda chego lá.
A pelada ocorreu sem maiores problemas. Ainda sem fôlego para pensar. Perdi novamente aquele montão de gol. Algumas oportunidades ótimas perdidas. Mas tentei fazer o “mais certo” possível. Digo entre aspas porque o futebol não tem certo. A gente tenta, faz o melhor que pode e espera que a bola entre no gol.
O meu gol foi bonito, peguei fora da área, na corrida e de esquerda. Sem olhar muito nem para a bola e nem para o goleiro. Peguei “gostoso” na bola e ela fez o resto. Um curva suave para longe do goleiro. Saí comemorando de braços abertos. Como Romário costumava fazer. Aquela sensação de estar voando. Como se estivesse em comunhão com o universo, com o Cosmos. Talvez essa seja a magia do futebol. Fazer um perna de pau ter 10 segundos a sensação de ser o Romário reencarnado. Não tem preço.
Um prêmio de persistência.
Chutei antes e depois de todas as maneiras possíveis e a bola não entrava. Ou ia para fora, ou o goleiro pegava.
Catei também no gol por um tempo, para recuperar o fôlego. Fiz algumas defesas legais, difíceis e tomei os devidos frangos. Enfim, foi um jogo normal, sujeito a altos e baixos. Bons momentos, maus momentos, momentos incríveis e medíocres. Assim é o futebol, assim é o Cosmos.
Saldo de 2019:
17 jogos
12 gols
Clinton Davisson é jornalista, mestre em comunicação, pesquisador, roteirista e escritor. Ao contrário da maioria dos brasileiros, ele nunca foi a Harvard, mas publicou quatro livros, sendo um de futebol.

Diário de um peladeiro – Parte XVI – Não é como andar de bicicleta


Dizem que certas coisas na vida são como andar de bicicleta: a gente aprende uma vez e não esquece mais. Nem sempre, porém, isso é verdade...
Uma vez no final da década de 80, mais precisamente novembro de 1988, vi um jogo entre Flamengo e Sport Recife. O jogo entre os Campeões Brasileiros de 1987. Vitória, claro, do Campeão legítimo, o Flamengo, com o time que seria a base - junto com o Vasco daquele ano - da Seleção Brasileira das próximas duas Copas do Mundo, inclusive a Campeã de 94.
O jogo terminou 2x1 para o Flamengo, que, aliás, não sei se já mencionei, foi o único e verdadeiro e legítimo Campeão Brasileiro de 1987. Título doado por caridade e compaixão ao Sport Recife. Quem dá aos pobres empresta a deus...
Mas como eu ia dizendo, um dos gols mais impressionantes que vi na vida, foi naquele ano, neste jogo. Mas não foi do Flamengo. Foi gol de empate de Robertinho, ex-Flamengo, que marcou pelo Sport. Ele, de costas para área, matou no peito e virou, chutando de primeira. Saiu um míssil que foi no ângulo do hoje saudoso Zé Carlos. Sem chances de defesa.
Aquela jogada me impressionou tanto que tratei de treinar aquilo por vários dias. Receber a bola de costas para o gol e chutar de virada. Treinava sozinho ou pedia para um amigo mandar a bola. Treinei matar no peito, matar na coxa, no chão... Mas sempre virando e chutando.
Acertei isso em várias peladas, mas queria fazer em jogo “oficial”. Finalmente, em dezembro de 1988, teve um jogo pelo time do Moinho de Vento. O adversário era o Colégio Volta Redonda. 
Criamos uma jogada em que eu saía da minha querida lateral direita e aparecia como homem surpresa, mas sempre de costas para a área. 
A primeira jogada já deu certo. A bola veio, mas não pelo alto, não como para Roberto Oliveira Gonçalves do Carmo. Para mim ela veio rápida e baixa. Quicando. Eu matei na mesma posição, na entrada da grande área, e girei. O chute saiu forte e no alto. Entrou no ângulo encobrindo o goleiro. Sim, tive o meu dia de Robertinho.
Lembrei disso na pelada de hoje porque, até pela falta de preparo físico, fico fazendo essa posição de pivô. Por três vezes hoje, eu recebi a bola de uma maneira que era só fazer aquele giro e chutar. Não fiz nenhuma das vezes. Afinal, pensei: “E se a coluna quebrar no meio do processo?”. Pois é, amarelei. Não é como andar de bicicleta.
Mas vocês vão ver. Vou treinar de novo esse movimento e voltarei a ter meu dia de Robertinho.
Perdi um monte de gol. Falta de frieza. Excesso de ansiedade. Todas as vezes que matei a bola, a marcação chegou. Na vez que resolvi chutar com mais agilidade... Bom, era a vez errada. 
Enfim, é para isso que o futebol serve para mim. Confesso que não é só para manter a forma. Mas para eu entender melhor minha ansiedade. Entender como ela se processa no meu belíssimo cérebro e, quem sabe, controlar e destruí-la um belo dia. Não existe nada mais perfeito para se testar a ansiedade do que ter uma bola nos pés e saber que tem poucos segundos para resolver o que fazer com ela. Futebol é o jogo da vida, amigos!
Acabei fazendo um gol no final. Um passe cirúrgico dentro da área. Consegui colocar a bola lá no canto, bem longe do goleiro de novo. O passe foi 90% do gol. Mas quem liga? Já são quatro peladas seguidas sem deixar de marcar. Eu agradeci e estou oficialmente autorizado a ficar otimista.
Saldo de 2019:
16 jogos
11 gols
Clinton Davisson é jornalista, mestre em comunicação, pesquisador, roteirista e escritor. Ao contrário da maioria dos brasileiros, ele nunca foi a Harvard, mas publicou quatro livros, inclusive a série de ficção científica Hegemonia que vai ser relançada em outubro de 2019.

Diário de um peladeiro – Parte XV – Juntos e shallow now


Chegamos à 15ª pelada de 2019 ainda com condições físicas questionáveis. É engraçado que o objetivo deste “blog” era mostrar minha evolução no futebol. E sim, estamos evoluindo.
Mas sempre caio na mesma coisa. Por mais que tenha caminhado desta vez, ainda morro de saudades da academia. Mas não dá para voltar ainda. Enfim, esse correr atrás do próprio rabo está me irritando. É como se soubesse o que precisa ser feito, mas não faço. Fica uma coisa incompleta, vazia, rasa (shallow). Então fica eu e a bola, juntos e shallow now...
Sobre a pelada, novamente no Aeroporto de Juiz de Fora. Desta vez foi uma pelada inteira. Aqueci antes e até fiz gol. 
Dei uns 5 chutes a gol. O goleiro fez três defesas, um foi gol e o último chutei para fora. Tentei fazer estilo Bebeto de voleio, mas a bola subiu demais. Ao menos eu tentei.
O gol foi num rebote do goleiro.
Saldo de 2019:
15 jogos
10 gols

Diário de um peladeiro – Parte XIV – Nada de pagar mico


Mais uma pelada no ano. Esta semana eu andei passando mal. Com a mudança brusca de temperatura, meu sistema imunológico fica bugado. Na terça-feira e na quarta-feira eu caí de cama. O corpo todo doendo. Quando foi na quinta-feira, já estava bem e resolvi tentar jogar. Foi um desastre. Eu puxava o ar e ele não vinha. O corpo todo duro, estranho. Não consegui passar da primeira pelada. Com 10 minutos, a coisa estava tão feia, mas tão feia, que meus braços começaram a formigar, como seu fosse ter um enfarto ou coisa parecida.
Pensei, olha que oportunidade de ouro! É só eu continuar correndo que vou realizar meu sonho de morrer jogando futebol. Mas este sonho era e continua sendo para daqui a uns 40 anos. Então, fiz como manda o Capitão Roberto Nascimento e pedi para sair. Nada de pelada na quinta. Deixa para próxima.
Hoje, sábado. Foi a próxima.
Fui de teimoso. Pensei, se estou dando piripaque, quero ter certeza. Porque, pouparia o tempo do médico e do meu. Subi na universidade e dei uma corrida para aquecer antes. No caminho, encontrei esses micos. Pensei, tomara que eu não pague mico hoje.
O resultado foi ótimo. Não senti nenhum cansaço, nada formigando, nada errado. Quando acabou a pelada, eu ainda queria mais.
Com o fôlego de volta, as coisas ficam mais fáceis. Começo a me preocupar com coisas mais produtivas que apenas em conseguir correr e dominar a bola. Fiz um gol que demandou a frieza de fazer o básico: recebi, levantei a cabeça e escolhi o canto. Aquele canto longe do goleiro. Gol. 
Infelizmente, eu preciso levantar a cabeça mais durante o jogo. Taí, uma das coisas que eu fazia direito antes da coluna quebrar e andava esquecendo. Poderia ter dado umas cinco assistências para o gol se fizesse isso, mas fiz duas. Já achei legal. Um passo de cada vez. 
Agora, volta o que eu falo sempre. Falta arrumar tempo e disposição para ao menos caminhar durante a semana. Como faz falta uma bendita academia.
Saldo de 2019:
14 jogos
9 gols

Diário de um Peladeiro – Parte XIII – Bola na trave não altera o placar


Acho que a jogada mais bonita da minha vida terminou com uma bola na trave. Foi no final da década de 80. Foi lindo, foi maravilhoso, porque foi com meu pai. Ao contrário de mim, meu pai sempre foi um craque reconhecido. Seus dribles e jogadas espetaculares lhe valeram o apelido de Jacozinho, em homenagem ao mítico craque alagoano que fez sucesso entre 1985 e 1986.
Em 1989 eu dei um passe perfeito para meu pai na entrada da área. A bola veio por cima e toquei pelo alto, como se fosse Futevôlei. Foram todos os marcadores para meu pai, que só precisava cabecear para o gol. Mas ele me devolveu o passe de cabeça, de primeira. Isso já tinha matado e enterrado o goleiro e a defesa do time. Que descansem em paz. E quanto a mim, eu só precisava chutar a bola para o gol. Peguei de primeira, no ar, sem deixar cair. Com força. A bola explodiu no travessão.
Foi uma jogada tão bonita que todos aplaudiram. Eu só não achei perfeito no dia, porque não foi gol. Hoje, penso que foi uma tabela perfeita. Porque foi com meu pai. 
Como diria um amigo, a maturidade faz com que mudemos o passado. Aquela bola na trave é hoje minha segunda melhor recordação do futebol. A primeira, para você não ficar curioso, foi um jogo do Moinho de Vento contra o Flamenguinho de Barra Mansa, quando peguei a bola do meio de campo e driblei o time todo, goleiro inclusive, e fiz o gol. Era um jogo “oficial”. Eu tinha 14 anos e um torcedor invadiu o campo para me abraçar. Era meu pai...
Chega de lembrar do passado...
Na 13ª pelada do ano, eu também recebi um passe perfeito. Toquei de primeira para as redes, tirando do goleiro, mas a bola caprichosamente bateu na trave e voltou para as mãos do goleiro.
Acontece. Não achei bonito desta vez. Mas o erro faz parte da essência do futebol e do esporte. No final das contas é um jogo. Fiquei feliz pela jogada. Fiquei feliz por estar ali, ao invés de em casa com a cara enfiada em livros.
Tive mais umas cinco oportunidades de gol. Desta vez acertei uma bendita cabeçada. O goleiro teve que se esforçar para defender. Mas até o final do mês ainda vou fazer o segundo gol de cabeça do ano. Me aguardem!
No geral, estou voltando a ter um ritmo de jogo digno. Desta vez corri mais. Me movimentei mais. Fiz boas jogadas e executei com certa competência a função de pivô que adoro.
A coluna não doeu nem um pouco. Nem depois. Mas o púbis voltou a doer com força. Estou aplicando gelo agora. Parece que está funcionando. Espero recuperar um pouco do ritmo de jogo até o final de maio. Amanhã vou pesar para ver se emagreci.
A luta continua...
Saldo de 2019:
13 jogos
8 gols