quarta-feira, novembro 13, 2019

Diário de um peladeiro XXXIII – A água, a galinha e três gols


Entrevistei Leonardo Boff uma vez em 2004. Muita gente pensa que foi ele que inventou essa história, mas a primeira vez que se falou de uma águia criada como galinha no mundo ocidental foi no início do século XX, através do pesquisador africano, James Emman Kwegyir Aggrey. A história é basicamente sobre um fazendeiro que pegou uma águia ainda filhote e botou no galinheiro. Com o tempo, a águia cresceu e um pesquisador que ficou intrigado com aquele fenômeno. Houve um embate argumentativo entre os dois para resolver se a águia ainda era uma águia, ou se ela tinha se transformado em uma galinha. No fim, o pesquisador convenceu o fazendeiro a soltar a águia e o bicho voou e nunca mais voltou. Afinal, por mais que crescesse entre as galinhas, seu coração era de águia, seu corpo também, sua natureza era de águia.
É uma metáfora da condição humana diante da mediocridade. A águia nasceu para reinar, é a rainha de todas as aves. Não foi feita para ficar num galinheiro ciscando por minhocas e ração. Encaixa com a teoria de Friedrich Nietzsche e seu Übermensch, o super-homem, que foi deturbada para servir base para as ideologias nazistas, mas que, sim, tem um contexto científico forte: o homem é um ser em evolução e em um futuro não muito distante vai ser suplantado por uma espécie superior. Sim, era o que os nazistas pensavam e sim, é o que vai acontecer. O problema é que o nazismo cometeu uma série de erros de interpretação, que embora a irmã de Nietzsche, Elisabeth, detentora da obra do irmão, apoiasse o nazismo de corpo e alma, Friedrich Nietzsche não era santo, mas falava de outra coisa. Falava de um ser moralmente superior, mas no sentido da ética. Com a morte de Deus, deveríamos agora buscar fazer o certo através da ética, porque é a coisa correta a ser feita e não porque estamos sendo julgados por um ser imaginário que nos daria prêmios ou castigos. Para Nietzsche, com a morte de Deus não haveria mais quem culpar, ou a quem recorrer. Cabia ao homem arcar com as consequências e responsabilidades referentes ao bem e ao mal.
Mas sim, Nietzsche pregava que alguns merecem mais que os outros. Que existem realmente na sociedade águias e galinhas. Eu tenho uma visão diferente. Acho que todos nós somos águias para algumas coisas e galinhas para outras. O problema é que está cheio de águia querendo se encaixar no galinheiro e muita galinha tentando voar.
De certa forma, sim, eu sempre me achei uma galinha no futebol tentando jogar com as águias. E se tem uma coisa que aprendi com esse diário é que a decisão já foi tomada. No fundo, eu sempre me recusei a ser uma galinha no futebol. Vou ser águia ou vou morrer tentando. E a coisa vai dando resultado.
Última pelada marquei três gols e ainda perdi um quarto que doeu muito não ter feito. Estou correndo muito, mesmo não tendo ido a academia. Mas volto amanhã com toda força.
O primeiro gol foi com a ponta do pé, desviando o suficiente para enganar o goleiro. O segundo foi um chute rasteiro que passou debaixo do goleiro e o terceiro foi um chute forte de fora da área. Mas corri, driblei, dei bons passes. Mas também errei alguns passes que não podia errar. Estive bem na marcação, fui e voltei no campo com velocidade. O fôlego vai muito bem, obrigado. Está sendo gostoso correr e não cansar. Mas sim, é uma coisa típica minha, ficar choramingando justamente o quarto gol que acabei perdendo. A bola veio em um passe preciso e toquei firme na bola com o lado interno do pé. Sem firula, preciso. Mas a bola foi para fora, apesar do gol vazio. É estranho porque eu fiz tudo certinho e a bola foi para o lado errado. Se tivesse parado a bola e chutado, talvez desse tempo para o goleiro se recuperar. Enfim, coisas do futebol. Em uma semana de grandes decisões na vida, resolvo que essa insistência com o futebol é uma metáfora para algumas decisões que precisavam ser tomadas há muito tempo na vida.
Nessa fábula do James Aggrey, eu sempre imaginei que, se a águia continuasse morando no galinheiro, acabaria morrendo. Talvez até matasse algumas galinhas, devorasse outras, reproduzisse com muitas, mas no final, a águia morreria cedo e morreria infeliz.
Uma águia num galinheiro da vida, pode ser uma criatura extremamente desajeitada, desengonçada e com uma facilidade enorme para irritar as galinhas. Mesmo quando as galinhas querem proteger e até amam a águia, entendo que é difícil manter uma criatura que sempre dá mais despesas do que uma galinha; sempre chama mais atenção; incomoda mais; sempre cria uma expectativa maior. O problema é que, mesmo as galinhas que amam a águia, não entendem que aquela criatura não foi feita para viver em um galinheiro, não foi feita para ter emprego de galinha, para ganhar salário de galinha e definitivamente, não foi feita para se encaixar naquele mundinho medíocre das galinhas. De fato, a águia tem uma natureza que assusta as galinhas, ela exala desprezo pelo galinheiro e quando vê uma galinha, não vê um ser igual, vê uma presa. Porque a águia é um maldito predador. A águia é o Übermensch de Nietzsche. Vi esse olhar de medo no meu primeiro emprego como jornalista quase 20 anos atrás. A editora do jornal quis me mandar embora porque morria de medo de mim. Um mês depois eu peguei o emprego dela. Tinha apenas três meses de formado. Talvez a insistência no futebol tenha a ver com tentar entender também como é ser uma galinha e tentar ter compaixão. Nietzsche não acreditava em compaixão. Talvez ele estivesse com razão de um certo ponto de vista. Compaixão consigo mesmo, é sinal que a águia está abandonando sua própria natureza para se acomodar à vida de galinha. Quando se conforma em não ser mais águia, é sinal que o predador já está morrendo. E isso está fora de questão.
Por essas e outras, talvez a única solução para a águia seja abandonar de vez as galinhas que ama para parar de dar prejuízo a elas. Dar prejuízo para quem te ama também está fora de questão. E como na metáfora de Aggrey e depois imortalizada por Boff, a águia tem que levantar voo e, a partir de janeiro, a águia levanta voo. Talvez esse voo termine com a águia se espatifando no chão, mas é melhor que morrer aos poucos. Enfim, essa decisão está tomada. Já neguei demais minha natureza. Viver como galinha não é vida e a vida é para ser vivida e não suportada.

Saldo de 2019:
44 jogos
34 gols

Clinton Davisson é jornalista, mestre em comunicação, pesquisador, roteirista e escritor. Autor da série de livros Hegemonia, Baluartes e Fáfia – A Copa do Mundo de 2022.

sábado, novembro 09, 2019

Diário de um peladeiro XXXII – Entre O Senhor dos Anéis e a escolha de Matrix


Em O Senhor dos Anéis há uma frase que sempre me faz refletir: “Todo mal caminha para Mordor”. Significa, entre outras coisas, que todos os seres ruins, tem alguma ligação com a terra de Mordor ou que quando as coisas começam a dar errado, é sinal que vão continuar dando errado. Não importa o que você faça, todo mal caminha para Mordor.
Uma vez quando eu tinha lá meus 19 anos, eu estava tentando estacionar o carro quando um cara de caminhão chegou bem perto de propósito porque considerava que a vaga era dele. Acabei arranhando levemente a lataria da Christine, era nome que dei para meu lindo Monza vermelho na época. Fiquei pau da vida, não rolou briga porque apareceu um guarda de trânsito na hora H. Já fiquei muito irritado a partir dali. Depois, fui com meu pai buscar um estande para a livraria que a gente tinha na época. Quando voltávamos, um carro bateu por trás com toda a força na bunda da Christine que ficou toda a amassada. O motorista veio com uma conversa mole de “cada um paga o seu”, eu deixei meu pai resolver para não perder a linha com o cara. Fui consolar o filho do cara que devia ter uns oito anos e estava chorando no banco de trás do carro. Acho até que o imbecil do cara achou que eu estava tentando intimidar o menino. Sei lá. Gente burra e covarde tende a achar que todo mundo é burro e covarde.
No final, o cara concordou em pagar e fomos até a casa do sogro dele, que pagou o prejuízo. Mas foram momentos tensos. O cara ainda tentou chamar uns amigos para tentar intimidar. Eu juro que estava com pensamentos de carnificina na hora. Eu detesto gente covarde. Sempre detestei. Acho que burrice e covardia andam juntas. Mas tudo resolvido. Entretanto, foi um dia tenso. Eu praticamente não lembro de outros dias na vida em que tive tanta raiva junta. Pois, tentei engolir o primeiro arranhão no carro, dizendo para mim, mesmo, “deixa disso, calma que a vida vai melhorar”, quando vem um amassado enorme depois. Parece que, quanto está ruim, as coisas só pioram. Parece que todo mal caminha para Mordor.
Estas duas últimas semanas foram assim. Tive uma notícia muito ruim na segunda-feira passada em relação a um projeto que mandei para a Lei Murilo Mendes na Funalfa. Não foi aprovada por um detalhe burocrático que poderia ser facilmente resolvido se eu estivesse atento olhando o bendito site da Funalfa todo santo dia. Mas não olhei. Depois veio notícias ruins sobre o Doutorado. Também problema de falta de atenção. Eu tenho inveja daquelas pessoas que conseguem botar a culpa de tudo nos outros, no governo, nos pais, nos amigos, na sorte... Infelizmente, eu não tenho essa habilidade. E vamos combinar, a culpa nos dois casos foi minha. Claro, tem um desconto da bendita depressão e do maldito estresse pós-traumático que ataca justamente a questão do foco, motivação e da atenção. Mas e aí? Mas e daí? O fato é que vou ter que lidar com isso. Esse é o mundo adulto e, no mundo adulto, todo mal caminha para Mordor.
Dito e feito. Apareceu um trabalho de artes gráficas, mas claro, já passou mais de duas semanas e nada de me pagarem. Tive que pedir dinheiro emprestado para poder deixar os boletos em dia. Se tem uma coisa que equivale a minha Criptonita, é ficar sem receber. É meu calcanhar de Aquiles.
E a cereja do bolo veio com meu tio, irmão do meu pai, que está num estado de saúde muito grave em Volta Redonda. A conexão que eu tenho com este tio e meus primos, filhos dele, é muito grande. Quando pequenos, minha prima morou durante muito tempo com a gente. É o mais próximo que tenho de uma irmã de verdade. Não pude ir lá visitar meu tio. O que me deixou ainda mais frustrado.
(atualização) Meu tio morreu nesta manhã de domingo, 10 de novembro de 2019. 

Enfim, final de outubro e começo de novembro, foi realmente o pior período do ano. Eu literalmente caminhei por Mordor.
O resultado é que nem fui na academia de tão desaminado com esse conjunto da obra. Aí, não teve jeito. A depressão voltou bonita, poderosa, absoluta. Parecia que eu dividia o quarto com um dementador do Harry Potter. Não era só ficar nadando naquela piscina de autopiedade. Era tentar fazer as coisas e simplesmente não conseguir. Mal conseguia sair da cama. A dieta também foi para o espaço. Dane-se. Não conseguia sentir nem raiva.
Nem queria ir no futebol. Mas sei que é a minha principal arma contra depressão. Fiz um esforço. Mas só agora, quatro jogos depois, é que estou tentando retomar o meu diário de peladeiro.
Nestes quatro jogos, só fiz um gol. Acho até que estou jogando bem. Estou correndo, chutando muito, dei chapéu de calcanhar, dei passe de calcanhar, driblei, fiz jogadas muito boas. Claro, que meu joelho inchou e minha coluna deslocou e doeu sem parar por uns três dias seguidos. Afinal, todo mal caminha para Mordor.

Nos dois últimos jogos então a coisa pegou. Deu para sentir a depressão dentro do campo, como os dementadores invadindo o estádio de Quadribol do Harry Potter enquanto ele jogava. Não saiu nenhum gol e hoje, quando terminou o jogo, tive que usar aquela máscara de alegria, contando piadas e fazendo todo mundo rir. Melhor maneira de disfarçar que você está tendo uma crise de ansiedade e está louco para chorar copiosamente. Não por não ter feito gol, ou por ter jogado mal, mas porque a vida é uma bosta, a existência não tem sentido, tudo está dando errado e porque todo mal caminha para Mordor.
Paradoxalmente, sim, o futebol ainda funciona para deixar a depressão menos depressiva. Presumo que se tivesse ficado em casa dando saltos ornamentais na minha piscina de autopiedade, estaria muito pior.
Enfim, juro que, ao começar a escrever este texto, não tinha intenção de deixar uma mensagem positiva. Porque na vida a gente tem que estar preparado para entender que nem todo dia a gente vai ganhar, nem todo dia aquela menina linda que você conheceu vai querer te beijar, nem sempre você vai fazer gol, ou vai ganhar dinheiro, ou vai receber um simples abraço de alguém que você até então confiava muito. Tem dias que a derrota vem e fica, não vai embora. Eu não sou coach, não é este o objetivo aqui. Otimismo, luta e perseverança não garantem absolutamente nada. Como eu disse neste Blog em outro texto, todo cadáver no Everest já foi um dia uma pessoa extremamente motivada e fora da zona de conforto.
Mas aí, sou obrigado a lembrar que teve coisas boas este mês também. Teve a amiga e companheira de aventuras, Gabi Bowen. Sim, ter uma bonitona de 1,80 te dizendo coisas bonitas o tempo todo e como tudo vai dar certo no final, é uma grande arma para destruir os argumentos da depressão. E pela primeira vez no ano, não foi o futebol, nem academia, que me incentivava a continuar lutando, mas o fato de estar fazendo algo em que acredito. No caso, terminando um curta metragem e me preparando para fazer outro. Deste ponto de partida, lembro dos amigos que me ajudaram e ainda ajudam. Lembro da família se desdobrando para me dar condições de luta. Não dá para deixar o desânimo ofuscar essas pessoas.
Isso tudo me leva a outro paradoxo interessante. Por mais que eu esteja abatido, nocauteado pelos ocorridos recentes, me sinto mais otimista. Aliás, há muito tempo que não tenho tanta confiança que as coisas vão dar certo. E isso é muito esquisito já que um monte de coisa está dando muito errado. Mas algo mudou em mim por dentro e acho que este otimismo é irreversível. Não sei explicar o Porquê. O projeto rejeitado pela Funalfa, agora vai para o Catarse e pronto. Vida que segue.
Então, muito a contragosto, a mensagem final deste texto é de otimismo. Sim, as coisas não deram certo, sim, deu tudo errado. Mas aí, eu deixo Mordor e O Senhor dos Anéis para trás e lembro do diálogo final entre Agente Smith e Neo no final de Matrix Revolutions:
“Por que, Sr. Anderson? Por que, por quê? Por que faz isso? Por que se levantar? Por que continuar lutando? Acredita que está lutando por algo mais do que sua sobrevivência? Pode me dizer o quê? Será que sabe? Será por liberdade? Verdade? Talvez paz! Será que é por amor? Ilusões, Sr. Anderson. Defeitos da percepção. Criações temporárias de um fraco intelecto humano tentando desesperadamente justificar uma existência sem sentido ou meta! E todas elas são tão artificiais quanto a própria Matrix. Embora só a mente humana pudesse criar algo tão insosso quanto o amor. Deve ser capaz de enxergar, de saber, a esta altura que não pode vencer! É inútil continuar lutando! Por que, Sr. Anderson? Por que persiste"?
E Thomas Anderson, ou melhor, Neo, responde com a simplicidade inabalável dos heróis: “Porque foi isso que eu escolhi”.



Saldo de 2019:
43 jogos
31 gols

Clinton Davisson é jornalista, mestre em comunicação, pesquisador, roteirista e escritor. Autor da série de livros Hegemonia e Fáfia – A Copa do Mundo de 2022.



sábado, outubro 26, 2019

Diário de um peladeiro XXXI – Quando a derrota é a maior vitória


Existe uma falsa crença de que a ansiedade e a depressão são sinais de fraqueza e de incapacidade diante da vida. Mas não, uma pessoa com ansiedade, depressão ou sintomas mistos NÃO está louca e nem tem uma personalidade fraca ou inferior aos outros.
É triste e esgotador lutar contra isso. Pensar em "salvar o mundo", se realizar profissionalmente, ser mais produtivo, e ao mesmo tempo, não ter ânimo e não conseguir fazer nada. Pouco tempo depois, pensar em desistir de tudo, não enxergar sentido na vida e achar que aquilo nunca vai passar. Ter medo de tudo que vai fazer e, na maioria das vezes, pensar no pior. Pessoas que têm transtorno de ansiedade sabem bem como é isso.
Por isso, dado que a depressão e a ansiedade não são contempladas como feridas que precisam de atenção, é comum ouvir discursos circulares com argumentos do tipo “relaxe”, “não é para tanto”, “comece a se mexer, a vida não é isso”, “você não tem razões para chorar”, “comece a amadurecer” “Vou me afastar de você até você melhorar”, “Mas você está sempre assim?” , etc.
Em alguns casos, a pessoa não sente vontade de se relacionar, nem cumprir atividades simples e acha que todos estão contra ela. Muitas vezes, trata-se da depressão que, se não tratada, faz com que a pessoa sinta vontade de cometer o suicídio.
Uma reação comum nesses casos, para fugir da autopiedade, da entrega, do fantasma do suicídio, a gente apela para um processo parecido com a de uma pessoa se afogando. A gente se debate e sobra porrada para todo mundo. Principalmente para quem está perto. A gente encontra culpados, reclama, briga, mas acreditem, isso é uma coisa positiva de um certo ponto de vista. É melhor brigar com pessoas legais (e escrotas) que se entregar a depressão. Porque se a pessoa é realmente uma “pessoa legal”, ela acaba entendendo. Se não é, um peso morto a menos para te puxar para baixo.
Há exatamente um ano atrás, eu estava numa das piores crises de depressão que já tive. Entre outros, descontei no grupo da pelada do Sábado, organizado pelo Ricardo Beghini que é o cara mais gentleman que conheço. Não fiz nada de grandioso ou histérico. Apenas cheguei à conclusão que futebol não era para mim e sai do grupo. Estava chateado comigo e com o mundo. Me sentia atrapalhando os outros e não era só em campo, era na vida. Futebol para mim (sim estou sendo repetitivo de propósito) é uma metáfora para a vida, sempre foi.
Ao contrário do que aconteceu com meus casamentos/namoros em relação à depressão, a reação ali foi de extrema solidariedade e carinho em relação aos amigos. Houve bronca também, uma bronca proveitosa, apenas de um amigo mais chegado, meu quase irmão Gustavo Paraviso. Mas no geral foi um momento marcante, o famoso divisor de águas. Pois, acredite ou não, naquela altura do campeonato da vida, saber que existem pessoas que se importam contigo faz uma grande diferença. Pois o deprimido não enxerga muita coisa além de dor e horror. É preciso escancarar na cara dele que há coisas boas no mundo.
Talvez hoje isso pareça palavras bonitas escolhidas para causar impacto. Talvez porque seja difícil mensurar ou classificar em palavras a importância que aquele episódio teve na minha vida. Não foi instantâneo. Não foi como naqueles filmes em que a pessoa tem um epifania e sai gritando pelas ruas que ama a vida; não é como o Rocky Balboa que se levanta e parte para massacrar o adversário de uma hora para outra. Na verdade, os resultados do que foi plantado ali, em 23 de outubro de 2018, só começaram a ser colhidos lá pelo mês passado. E teve participação de várias pessoas que ajudaram, desde amigos e amigas daqui e do Rio de Janeiro, alguns de São Paulo, até o apoio da família. E teve outra parte também, que foi me afastar de pessoas ruins, as famosas pessoas tóxicas que só te puxam para baixo. Mas leva tempo, não é como nos filmes...
Mas por coincidência, hoje foi um daqueles dias ruins. Apesar de bem fisicamente, ainda falta muita coisa. Acertei duas bolas lindas na trave, mas trave não é gol. E dei um passe tão ruim, mas tão ruim para o Baiano hoje, que fiquei deprimido dentro de campo. Estou falando de um passe de um metro de distância que consegui errar. Aí, o adversário pegou e fez o gol.
Perdi todas, repito, todas as partidas de hoje. Foi realmente um dia de bosta. Teve o mesmo tipo de confusão de um ano atrás. Novamente envolvendo a discussão “quem vai ficar com o perna de pau ali no time?” e ninguém queria. A confusão se estendeu por quase cinco minutos.
 Saí triste de campo, chateado, decepcionado, arrasado..., mas aí que vi como as coisas mudaram de um ano para cá.
Primeiro que, ao contrário do ano passado, eu confio nesses amigos. Eu sei que são meus amigos. Eu sei que tenho amigos. Depois, é que eu aceito meus limites. Aceito que posso errar, que o erro faz parte do jogo. Aceito também que tenho o meu direito sagrado de ficar chateado com meus erros. Aceito que vou ter que conviver com a dor de uma coluna lesionada para o resto da vida, mas que não vou deixá-la ditar os meus limites. Aceitar os meus limites é uma coisa, parar de desafiá-los é outra.
Outra coisa que mudou é que a autoestima é outra. E não me senti ofendido ou menosprezado ou chateado pela confusão. A decepção foi apenas de mim para mim mesmo.
Até então, acho que só vinha revezando entre dias muito bons e dias razoáveis. Esse talvez tenha sido o verdadeiro teste para saber se a depressão havia realmente sido vencida. Não dá para saber só com dias felizes. É preciso um dia de bosta para realmente testar sua autoestima.
Enfim, dizem que há males que vem para bem. A maioria vem para o mal, mesmo. Mas hoje, esse dia ruim serviu para me mostrar por A e B que eu estou bem por dentro. Pode ser até que o futebol ainda não esteja lá estas coisas. Talvez nunca chegue o dia em que eu apresente um futebol satisfatório. O objetivo nunca foi esse. O objetivo é lidar com a depressão e principalmente com a ansiedade. Neste ponto, foi um dia muito bom. Talvez o melhor do ano.

Saldo de 2019:
40 jogos
30 gols

Clinton Davisson é jornalista, mestre em comunicação, pesquisador, roteirista e escritor. Autor da série de livros Hegemonia e Fáfia – A Copa do Mundo de 2022.

quinta-feira, outubro 24, 2019

Diário de um peladeiro XXX – Chegamos a 30 gols em 2019


Entrei neste esquema maluco de três peladas por semana. Claro que não dá para comparar com os tempos de infância e tempos do Moinho de Vento. Mas é um bom desafio e financeiramente vai dar para manter ao menos este mês, depois volto ao normal com apenas duas.
Juro que não foi nada premeditado. As peladas do Sábado estavam inconstantes e existe o benefício de jogar sem pagar para quem leva os coletes para lavar. Claro que eu virei um lavador de coletes. As peladas de quinta, saem mais em conta se você paga por mês. E aí, apareceu esta pelada de terça, que tem vários amigos jornalistas de Juiz de Fora e companheiros da faculdade. Honestamente, não resisti.
Terça-feira, então, lá fui eu. Agora cheio de preparo físico, mais equilíbrio e... Na primeira dividida dei uma pisada no pé do Wendel, antigo colega de faculdade. A coisa fez um som tão horrível que achei que tinha quebrado alguma coisa no pé dele. Mas acho que foi só o barulho da borracha na chuteira. Me senti péssimo, mas ele nem ligou.
Duas oportunidades de gols perdidas por falta de treino. Uma a bola veio do alto e tentei mergulhar de cabeça e fazer o famoso gol de peixinho. Fiz muito isso nos tempos do Moinho de Vento. Você literalmente vai para a bola em um salto mortal. O problema novamente foi a mira e, com o gol vazio, eu cabeceei para a lateral. Péssimo...
Depois a bola sobrou sem goleiro e fiz um inacreditável futebol clube, chutando por cima.
E foi isso. Joguei bem, muito bem. Fiz ótimas jogadas e em uma delas tirei do goleiro com a esquerda e chutei de direita. A bola bateu na trave e depois na linha. Sim, em cima da linha. Por sorte, um jogador do meu time conseguiu completar para o gol. Ainda dei outros três passes para o gol e iniciei várias jogadas. Faltou só mesmo eu marcar o bendito gol.
Aí, veio quinta-feira. Acordei com um torcicolo monstro. Quase não fui a Academia. Me enchi de remédios e tentei repousar enquanto estudava francês e tentava terminar o roteiro do projeto que estou fazendo.
Só lá pelas três horas da tarde que resolvi arriscar e fui para a academia com torcicolo e tudo. Peguei pesado. Não doeu. Agora, enquanto escrevo este texto, o torcicolo ainda está lá, mas quase totalmente sumido.
Entre a academia e o futebol, comi um ovo mexido e um suco de laranja. Isso cerca de uma hora antes do jogo. Ainda assim, fiquei arrotando laranja metade do jogo. Fiz dois gols muito rápido. No primeiro num rebote do goleiro e o segundo acho que foi o mais bonito do ano até agora. Recebi um passe na entrada da área, à direta do goleiro e toquei que letra, com o calcanhar. A bola entrou forte no canto direito do gol, rente a trave.
Achei que ia ser um festival de gols, mas parou por aí. De certa forma, cansei. De outra forma, acho que o esquema em que o time estava jogando não ajudou muito. Volta aquela coisa que falei lá na primeira página do diário: o contraste entre o carioca e o mineiro. Abaixar a cabeça e sair driblando, sem tocar para ninguém, é pecado mortal no Rio de Janeiro, mesmo em peladas. Aqui em Minas Gerais é regra. Isso é extremamente irritante. Até porque 90% das vezes que alguém tenta fazer isso, não dá certo e a bola vai de presente para o adversário. Tive a impressão que, por várias vezes, ao invés de tocar a bola para mim, livre e desmarcado, preferiram chutar em cima do adversário, que pegou a bola e foi trocando passes até o gol.
Por isso tem funcionado mais eu criar coragem e ir até o meio de campo buscar a bola e começar as jogadas. Fazer isso é melhor, mas cansa dobrado e cinco vezes mais arriscado. Será que eu aguento fazer isso o tempo todo? Não precisa nem dizer que é isso que eu quero e devo fazer. Me aguardem!
Enfim, cheguei a 30 gols. O peso estabilizou em 89kg e percebo que estou emagrecendo em geral, mas, como cansei de ouvir, a última coisa que emagrece é a barriga. Mas falta pouco. Agora vou entrar num regime ainda mais radical e a academia agora é todo dia. Inclusive domingo.

Saldo de 2019:
39 jogos
30 gols
Clinton Davisson é jornalista, mestre em comunicação, pesquisador, roteirista e escritor. Autor da série de livros Hegemonia e Fáfia – A Copa do Mundo de 2022.

Diário de um Peladeiro III


Cheguei a terceira partida do ano.
Estou errando ainda muitos passes. E engordei demais. Quero voltar a correr, mas ainda estou com muita dor no calcanhar. Vou ao ortopedista semana que vem.
3ª pelada
jejum de duas peladas sem marcar
Chutes para o gol 5. Obriguei o goleiro a fazer duas boas defesas.
Assistências: nenhuma
Falha grave: uma péssima ao sair a bola errada quando estava catando.
Desempenho: não foi a pior do ano, mas errei muitos passes.
Saldo até agora:
3 peladas - 1 gol.

Diário de um peladeiro I - O primeiro gol do ano foi de cabeça

Estava tentando resgatar os textos que publicava em todo lugar menos aqui. Finalmente achei o primeiro diário de um peladeiro de 2019. Acho que tem um resumo de 2018. Mas preciso encontrar.


A primeira pelada foi no campo do Tupi no dia 9 de janeiro de 2019.
Demos sorte, porque teve um problema no campo pequeno e acabamos jogando pelo mesmo preço no grande.
A bola veio num escanteio e cabeceei forte e para baixo. O goleiro não pegou. 


Saldo:
1 gol de cabeça
1 assistência
1 bola na trave
9 finalizações - 5 no gol
Desempenho aceitável mas poderia ser melhor
 

Dário de um Peladeiro Parte VI

(essa parte do diário está fora de ordem porque inicialmente eu não publicava aqui no Blogger, está é a parte VI que estava faltando. Ainda não achei a bendita parte I de 2019)

Essa coisa de atleta de final de semana não está dando certo.
Passei a semana toda praticamente deitado com um livro na mão. Li três livros para o doutorado e quando chega sábado vou lá tentar acompanhar gente com menos da metade da minha idade.
Me senti meio exausto, tonto e terrivelmente abatido.
Não sei se foi o pior desempenho em peladas do ano, mas acho que foi.
Fui mal no gol, perdi uns 5 gols feitos, não lembro de ter dado uma assistência.
Duas cabeçadas para fora. Um chute a queima a roupa que o goleiro pegou com uma cara de tédio humilhante.

Mas a luta continua. O bom é que corri e me diverti com os amigos.

O bom foi depois da pelada, sair com os amigos para tomar uma cerveja. Primeira de 2019.
Aí, sim, consegui desestressar da semana de estudo. Cerveja só, como são as coisas, né?

Saldo: 6 jogos 4 gols
 — com Lucas ScafutoRicardo BeghiniLuís Fernando Oliveira e Victor Lamas.

segunda-feira, outubro 21, 2019

Diário de um peladeiro XXIX –Dois jogos, dois gols


Para quem não sabe ou não lembra, esse blog começou com um objetivo claro: me ajudar a fazer do futebol uma arma contra a depressão e ansiedade. Porque a coisa estava brava em 2019. O resultado foi tão positivo que já me deram duas dicas importantes: transformar isso em um livro e em um podcast. Uma coisa que mexeu muito comigo foi uma frase da minha querida amiga, Priscila Lhacer, da editora Presságio e que é uma batalhadora pela diversidade. Ao ler alguns dos textos do blog, ela afirmou que falta exatamente isso no mercado: homens héteros escrevendo para homens héteros sobre fragilidades de homens héteros. Normalmente a mídia e a sociedade nos trata como brutamontes que não podem ter sentimentos, vulnerabilidades e fraquezas. Ironicamente parece que a depressão da mulher é mais socialmente aceita que a do homem. Não sei se isso é verdade, mas sei o que senti na pele e, se venci essa doença, foi com a ajuda desse blog, com a ajuda do futebol e, principalmente, com a ajuda de amigos, dentro e fora do campo.
Dito isso, vamos aos jogos e esta semana foram três dias de futebol. O de terça-feira, já falei na crônica passada. Vamos falar dos jogos de quinta e sábado.
Bom, equilibrar condicionamento, preparo físico, alimentação enquanto faz doutorado, tudo isso depois dos 40 anos, é um troço complicado. Mas acho que está funcionando, ainda que aos trancos e barrancos.
Esta semana não passei bem. Tive mal-estar, indisposição e enjoo. Isso atrapalhou um pouco a academia. Acho que junta nervosismo dos estudos e projetos (estou fazendo um curta metragem e mandando roteiro para editais), estresse, ansiedade e, sobretudo saudade dos filhos (agora estou longe de todos os três). Mas sim, o saldo foi positivo dentro e fora de campo.
A pelada de quinta, que costuma ser a mais puxada fisicamente, foi a mais fácil. Estou aguentando correr e correr muito. Toda hora tenho que me lembrar que posso correr e não mais ficar me poupando. Uma hora de jogo passou a ser pouco. Os novos exercícios da academia estão me dando um equilíbrio corporal que eu não tinha. Mas falta pontaria. Muita pontaria.
Quinta fiz dois gols no coitado do Léo, que estava de goleiro. Teria feito pelo menos mais dois se eu ainda estivesse meio lerdo nas decisões. O primeiro foi em uma disputa de bola em que acabei caindo e tocando para o gol ainda deitado. E o segundo foi novamente o chute de longe de direita funcionando. Agora teve uns 5 chutes que foram para o lado errado. Lembro do goleiro fazendo algumas defesas também. Mas a pontaria, principalmente da perna esquerda, precisa melhorar muito. E tem um lance que o Léo (ele de novo) chamou a atenção: ser mais firme na hora de dar o passe. Estou com uma mania terrível de, quando preciso decidir entre dois companheiros de time para tocar, passo a bola no meio, entre os dois. Ou seja, não decido, finjo que decido. Isso é horrível.
E ainda teve um lance que matei a bola na barriga, de frente para o gol e, ao invés de emendar de primeira, tentar dominar. Mas o fato é que me senti tão confortável, coisa rara nos jogos de quinta-feira, que chutei várias vezes para o gol de posições diferentes. Chutes bons, chutes bonitos. Mas a pontaria...
Depois veio a pelada de sábado, a qual normalmente é mais tranquila porque o campo é maior. Para minha surpresa, foi uma pelada corrida, com poucas chances de gol. Acho que a “fomiagem” de fazer gol, me impediu de ficar mais na defesa e tentar organizar melhor o time. Chutei várias vezes, mas sempre com pouca pontaria.
A melhor chance foi numa sobra depois da defesa do goleiro. Era o caso de ter frieza para matar a bola e tocar para o gol. Decidi tentar pegar de primeira e até que foi uma jogada bonita, quase um voleio estilo Bebeto. Mas foi para fora. Novamente faltou pontaria.
Mas é isso aí. Não senti dores, sobrou fôlego, estou usando mais a “ginga” e acho que se melhorar a pontaria a coisa toda melhora muito. Com 28 gols, estou ainda a quatro gols de alcançar o Gabigol na temporada. Mas estou à frente do Mbappe (PSG – França) – 25 gols, Ibrahimovic (LA Galaxy – EUA) – 27 gols, Cristiano Ronaldo (Juventus – Itália) – 15 gols. Mais dois e eu igualo o Messi, com 30...kkkkk
Mas o objetivo é superar eu mesmo e fazer mais gols do que jogos. Nesse ponto, ainda preciso suar um bocado a camisa.

Saldo de 2019:
37 jogos
28 gols
Clinton Davisson é jornalista, mestre em comunicação, pesquisador, roteirista e escritor. Autor da série de livros Hegemonia e Fáfia – A Copa do Mundo de 2022.



quarta-feira, outubro 16, 2019

Diário de um peladeiro XXVIII – O dilema do carregador de piano


Desde que foi fundado no início dos anos 70 que o Clube Campestre Moinho de Vento de Barra Mansa-RJ realizava jogos contra times de fora. Já veio uma espécie Seleção de Masters – lembro que o Nunes ex-flamengo estava lá – jogar contra o nosso time adulto. Era um dos melhores e mais bem cuidados campos de futebol da região. Praticamente todo jogador que se preze nascido na região sul fluminense e que chegou a ter destaque no futebol nacional naqueles tempos jogou ali: Cláudio Adão, Deley, Darci, Lugão... Além de jogadores, passaram prefeitos, deputados, todo mundo jogou ali. Estranhamente o Clube perdeu força depois que mudei de Volta Redonda. Nunca ouvi falar que Felipe Melo, nascido em Volta Redonda, tenha aparecido por lá. Nem meu primo, Rafael (ex-Flamengo e São Cristóvão) deve ter aparecido por lá.
Mas nos bons tempos, o nosso time “das crianças” também jogava contra vários adversários, uma vez enfrentamos o juvenil do Flamengo, aquele oficial, mesmo, da Gávea.
Naquela época eu era o famoso carregador de piano. Aquele cara que corria por todo o time. Jogava de zagueiro ou lateral direito, dependendo de quem aparecia. Não era de arriscar muito e dificilmente subia para o ataque. Gostava de descobrir quem era o melhor jogador do time, aquele que armava as jogadas e pronto. Ia lá anular o cara. Nunca fui de bater, só por falta de coordenação motora talvez... Às vezes, o armador era um cara que vinha de trás. Como um líbero e só assim eu ia para o ataque, para marcar o armador.
Às vezes, dava umas arrancadas, apenas para dar passes para o gol, roubava bolas no meio de campo para acionar contra-ataques, mas fazer gol que é bom, nada. Não me sentia obrigado, não me cobrava isso.
Eu curtia jogar para o time. Puxar a marcação para dar espaço para o atacante marcar, atrapalhar o time adversário até a bola sobrar, roubar uma bola e armar um contra-ataque. Achava isso uma virtude até pouco tempo atrás. Mas quando a gente faz aquela coisa que eu adoro: usar o futebol como metáfora para a vida, isso tem um Porém muito grave. Às vezes, em um ambiente de trabalho, se você é um carregador de piano, você depende do reconhecimento do time, ou, no caso, as pessoas que trabalham com você.
Quando em um determinado caso em que você é demitido e mais cinco jornalistas pedem demissão como sinal de reconhecimento... A gente se sente muito bem. Mas tem horas que tem muito mal caráter na equipe. E aí, você pode se decepcionar. Principalmente quando seu chefe tem o hábito de ser um completo idiota.
 E sim, os amigos do Moinho de Vento, mesmo sendo os melhores amigos que eu já tive até hoje, eram crianças entre 12 e 16 anos. E eles me zoavam porque o carregador de piano não fazia gol.
Pois bem, em determinado momento, percebi que, apesar de nas peladas eu marcar gols frequentemente, em jogos oficiais, eu tinha nada menos que o saldo de um gol a favor e dois contra. Números são números. E eu não gostava daqueles números. Passei então a jogar só de lateral direito, inspirado em 99% no Jorgindo, mas com boas referências como o Ayupe, Luiz Carlos Wink, Carlos Alberto Torres e Mazinho que era esquerdo, mas jogou uma Copa América inteira de Lateral Direito. Eu ia ao ataque, driblava, voltava correndo na defesa e cortava, depois vinha com a bola armando jogadas. Eu era agora o carregador de piano que fazia gols. Eu era o Mestre do Universo, mais que isso, eu era o Jorginho do Moinho de Vento.
No primeiro jogo  em que tomei essa iniciativa, já virei o placar fazendo dois gols. Um de pênalti e outro de fora da área. Depois foram muitos e muitos, mas confesso que essa ideia de contar gols só me ocorreu agora depois de velho. Não tenho a mínima ideia de quantos eu fiz em jogos “oficiais”. Mas foram muitos.
Hoje não saiu gol, mas tive essa sensação de carregador de piano. Por incrível que pareça, eu gostei. Talvez porque voltei a ter fôlego para fazer esse papel, talvez porque estivesse entre gente que eu sabia não ser mau caráter. Na verdade, encontrei velhos amigos da faculdade hoje e foi muito legal.
Tive uma ideia ótima. Deixei para ir para academia às 19h30 e saí as 21h direto para o futebol. Cheguei lá literalmente superaquecido. Gostei de jogar na defesa e tive oportunidades de gol, só que, para variar, faltou a ginga e desta vez pontaria. Acontece. Mas a ginga vai chegar. Preciso perder mais peso ainda. Estacionei em 88kg. Era para ter perdido mais 1kg ou pelo menos 1/2 esta semana, mas saí da dieta bonito. Não foi de graça: passei muito mal desde sexta-feira e só fui melhorar hoje.
Mas a luta continua. A matemática é simples, menos peso = menos dor = mais gols. Então, continuamos com o projeto tanquinho. Embora ainda tenha que carregar essa máquina de lavar roupa na barriga.

Saldo de 2019:
36 jogos
26 gols
Clinton Davisson é jornalista, mestre em comunicação, pesquisador, roteirista e escritor. Autor da série de livros Hegemonia e Fáfia – A Copa do Mundo de 2022.



quinta-feira, outubro 10, 2019

Diário de um peladeiro XXVII – Gol do Clintogol



Uma das vantagens de ser perna de pau assumido é justamente que as pessoas não esperam muita coisa de você. Isso é ótimo quando você está com o corpo todo dolorido. E hoje doeu tudo. Voltou a doer virilha, coluna não para de doer há uns 5 dias e ainda estou com os dedos doendo, provavelmente isso tudo é resultado da reta final do projeto de doutorado que me obrigou a ficar três dias seguidos no computador parando só para comer, dormir e ir ao banheiro (mijar, cagar e tomar banho).
Esta semana trocou de série na academia, para quem não sabe, eles mudam os exercícios que você se acostumou a fazer para outros que mexem com outros músculos, o que fez tudo doer mais ainda. Aí, você está lá, se perguntando: o que é que estou fazendo aqui?
Mas essa galera das peladas é tão simpática e acolhedora que a gente fica motivado. Faz parte do processo iniciado desde 2018 de me afastar de gente chata que te bota para baixo e me aproximar de pessoas que tem uma vibe positiva. Levei isso tão a sério que parei de cobrar dois maus caráteres que me deviam muito dinheiro só pela compensação de não ter mais o contato com eles. Valeu cada centavo!
Claro, a balança só descendo o peso mostrando que você está emagrecendo também empolga. Hoje fui na Faculdade de comunicação, fazia umas três semanas que eu não ia e quando entrei no elevador e olhei para o espelho fiquei perplexo com a ausência daquele barrigão da grávida. Entraram umas meninas no elevador entre o 1º e 3º andar e eu nem precisei encolher a barriga para não passar vergonha.
Hoje, aliás, foi um dia engraçado. Para um projeto que estou fazendo no canal, consegui um apoio cultural do Barbeiro Moicano, da barbearia Poderoso Chefão no Santa Cruz Shopping, que fez uma mudança radical no meu visual. Vou precisar disso para a gravação do próximo domingo. Pedi uma coisa estilo Diego do Flamengo, mas me sugeriram Gabigol. Para dar um toque mais cinematográfico ainda, o Moicano ainda pintou meu cabelo de verde. Me senti o Coringa do Joaquim Fênix... Então, lá fui eu, jogar futebol de cabelo verde e barba de Gabigol...
Eu já estou podendo correr e acompanhar todo mundo, já tenho fôlego para isso. O problema é que eu esqueço disso toda hora e fico lá me poupando, economizando energias, coisa que não preciso mais. É difícil lembrar que você tem fôlego agora. Mas eu aprendo. Paciência... Preciso ter paciência... Uma hora as coisas vão entrar nos eixos...
Perdi um monte de gol. Um deles foi no estilo inacreditável futebol clube com o gol vazio e eu chutando por cima. Eu contei pelo menos uns cinco gols feitos por pessoas que supostamente eu deveria estar marcando, mas não marquei. Culpa dessa ilusão de que eu ainda não consigo correr junto. Como falei na outra crônica, preciso aprender a mudar a realidade de dentro para fora. Paciência... Paciência... Paciência...
Ainda falta confiança, ainda falta agilidade e sobra ansiedade. Mas tenho que ter paciência. A convergência entre a zona de conforto em que eu me encontrava e lugar aonde eu quero chegar é complicada, é gradual. A academia mexe com seu corpo, a perna inicialmente endurece e só depois a gente consegue unir a resistência com a tal habilidade.
Mas teve gol do Clintogol sim. Consegui receber uma bola na entrada da área, fingir que ia chutar de esquerda para depois driblar o goleiro e fazer um belo gol. Nunca tinha feio um gol de cabelo verde na vida. Minha singela homenagem ao Coringa e ao Joaquim Fênix.


 Saldo de 2019:
35 jogos
26 gols
Clinton Davisson é jornalista, mestre em comunicação, pesquisador, roteirista e escritor. Autor da série de livros Hegemonia e Fáfia – A Copa do Mundo de 2022.



sábado, outubro 05, 2019

Diário de um peladeiro XXVI – Duas peladas sem marcar. Estava bom demais para ser verdade





Eu confesso. Achei que depois do sucesso da pelada de retorno com quatro gols, tudo seria só alegria: gols em profusão, mulheres se oferecendo na saída do jogo, contratos de patrocínio, Real e Barcelona brigando pelo meu passe. Mas a vida... Esta sim é uma caixinha de surpresas. E foram duas peladas seguidas sem marcar gol. E apesar de me sentir muito, mas muito melhor fisicamente por causa da malhação, não virei nenhum atleta de triátlon por causa de apenas um mês de academia. Que surpresa!

Claro que eu saí da droga da dieta durante a semana, dormi mal, estresse bravo porque tive que entregar o projeto da Funalfa e o do Doutorado. Mas não sei se essas são as desculpas apropriadas. Acho que não necessariamente precisa de uma desculpa. Joguei melhor, corri melhor, um dia é do caçador, mas tem dia que o mamute foge.
Mas analisando profundamente – e minha profissão é analisar coisas profundamente, fazer o que? -, ainda tem o fator do efeito Pigmaleão a ser vencido.
Eu explico: para quem não sabe, a culpa maior do racismo ter sobrevivido forte no mundo “civilizado” nos últimos 300 anos tem mais a ver com um erro da própria ciência, que acreditava realmente que a cor de pele e as etnias influenciavam na capacidade mental e do caráter da pessoa.
Mas a vantagem da ciência é que ela demora, mas acaba se corrigindo. Um dos golpes de misericórdia que baniu o racismo do meio científico foi só em 1963, com um estudo dos psicólogos norte-americanos, Robert Rosenthal e Lenore Jacobson. Eles demonstraram o que resolveram batizar de Efeito Pigmaleão. Inspirada no escultor grego, Pigmaleão que se apaixonou por sua própria escultura, Galatea, e pediu a deusa Vênus para dar vida... Tem a ver com o efeito de nossas expectativas e percepção da realidade na maneira como nos relacionamos com ela, como se realinhássemos a realidade de acordo com as nossas expectativas em relação a ela.
Eles fizeram um teste falso de inteligência com um grupo de crianças escolhidas aleatoriamente e MENTIRAM para os professores e para elas apontando um grupo que teria ido muito bem no teste e outro grupo que teria ido mal.
Assim, havia um grupo do qual se esperava muito e outro do qual se esperava pouco. Um ano depois fizeram um teste de verdade e as crianças apontadas aleatoriamente como as mais inteligentes realmente foram melhores nos testes. Isso provou que os professores, achando que aquelas crianças eram “melhores”, dedicaram-se mais a elas, deram mais atenção e incentivo. E as crianças, por sua vez, ganharam confiança porque receberam rótulos de “melhores” na testa. Logicamente quem foi rotulado de pior, acabou indo mal, pois era o que todos esperavam dele.
Isso provou que tratar negros como marginais ou mais propícios ao esporte e trabalhos braçais e brancos como seres mais inteligentes, mais propensos ao serviço intelectual acabava influenciando no comportamento e no destino destes indivíduos.
Enfim, para quem não sabe, ou não lembra, eu parei em 2003 porque machuquei a coluna e só voltei em 2015. Como com os problemas físicos, somados a falta de preparo, é normal que, mesmo melhorando um pouco, os colegas ainda pensem duas, três, quatro, cinco, quarenta e sete vezes, antes de tocarem a bola, mesmo que eu esteja só eu e o gol. Não é culpa deles, eu fiz as contas e a estatística é que eu acertava um a cada 5 chutes ao gol. Então, sim, eu sou do grupo de baixas expectativas no gramado.
Então, agora que o preparo físico está melhor, tenho que arriscar mais e melhorar na parte técnica para fugir do efeito Pigmaleão.
A notícia boa é que não tem nada doendo, estou correndo mais e cansando menos. Eu cansei mais hoje provavelmente porque dormi mal. Mas li três artigos científicos entre meia noite e quatro horas da manhã. Chupa insônia!
Sobre os jogos, até que não fui ruim. Quinta dei até passe de calcanhar cheio de estilo e hoje mandei uma bola na trave e fiz um corta luz bonito em um chute de longe que enganou o goleiro. Não vou reivindicar co-autoria do gol porque, ao contrário do Bahiano semana passada, eu nem encostei na bola. Mas foi uma participação direta.
Então é isso. Futebol continua sendo meu termômetro para ansiedade e sobre como eu me vejo, vejo a minha realidade e minhas expectativas. Talvez esta semana as minhas Galateas tenham sido os projetos para a Funalfa e o Doutorado. Talvez eu tenha gasto tanta energia neles que não sobrou muito para o futebol e este se tornou apenas um ponto de apoio, um ponto para abrandar o estresse e não um objetivo pelo qual eu devesse gastar energia. Sim, na verdade o futebol carrega em seu pacote a alegria de praticar esporte com pessoas legais e neste ponto eu dou muita sorte de estar sempre em boas companhias. Isso é meu combustível, meu agente antiestresse para dar força para outros projetos. Se a deusa Vênus transformar minhas Galateas em realidade já terá valido muito a pena.


 Saldo de 2019:
34 jogos
25 gols
Clinton Davisson é jornalista, mestre em comunicação, pesquisador, roteirista e escritor. Autor da série de livros Hegemonia e Fáfia – A Copa do Mundo de 2022.


sábado, setembro 28, 2019

Diário de um peladeiro XXV - hat-trick na melhor pelada de 2019

Polêmica! Eu fiz 3 ou 4 gols hoje? Eu explico. O quarto gol saiu de uma sobra de dentro da área. O goleiro rebateu e a bola veio lindinha para meu pé direito. Bati de primeira em direção ao gol e o meu comparsa de ataque, o Bahiano (Vitor), ainda tocou nela praticamente em cima da linha e de letra para ficar ainda mais bonito. A torcida – Sim, hoje teve até torcida – falou que o gol era mais meu do que dele. Brincamos então que iríamos esperar a súmula do juiz para ver para quem ele daria o gol. Como quem escreve a bendita crônica aqui sou eu, isso me torna tecnicamente o responsável pela súmula. Então, no melhor estilo Sérgio Moro, vou mandar a imparcialidade para o saco e apitar descaradamente a meu favor. Se o Sérgio Moro pode, eu também posso. Então, sim, foram quatro gols. E vamos combinar, pelas minhas contas o Bahiano deve ter feitos uns 437 gols hoje, além de me dar um belíssimo passe para meu segundo gol. Então, a gente divide. Quatro para mim e 438 para ele. De qualquer forma, pela primeira vez em 2019 que fiz um hat-trick. A primeira vez que me deparei com o termo hat-trick foi em um jogo do Super-nintendo, o International Super star Soccer. Quando um jogador fazia três gols numa partida, aparecia esse hat-trick na tela. Etimologicamente falando, o termo Hat-Trick, ou truque do chapéu, vem dos mágicos que faziam o famoso truque de tirar um coelho da cartola. Na era vitoriana, era comum o mágico tirar três coelhos da cartola e em 1858, o termo foi usado por um jornal num jogo de cricket para descrever a atuação de um jogador que tinha feito muitos pontos. O resto é história. Eu não tinha feito mais de dois gols na mesma pelada este ano ainda. Ano passado foram três peladas em que fiz três gols. Todas no Tupi. Mas quatro acho que não faço desde setembro de 2013. Naquele dia eu fiz cinco e era futebol de salão. Neste período de setembro no qual fiquei sem jogar por conta do departamento médico, entrei para uma academia e tomei um monte de remédio para resolver a questão da dor no púbis, doravante batizada de lesão da virilha. Verifiquei e o termo correto é lesão no púbis, mas toda vez que falo em inflamação no púbis parece que eu sou o feliz proprietário de uma vagina inchada. Então púbis fica sendo virilha. Depois das primeiras duas semanas de adaptação na academia, eu resolvi dar um passo adiante e fiquei a terceira semana sem comer pão e tomar refrigerante. No total, perdi 4 kg em um mês. Na prática, eu perdi o que havia ganho entre junho e agosto. Votei para 89 kg. Eu preciso chegar a 84, mas vou fazer isso com calma. Ainda sem refrigerante e sem pão, mas sem exageros na esteira. Sobre o jogo, foi a minha melhor partida de 2019. Posso citar dois ou três passes errados, mas, tirando isso, foi só alegria. O primeiro gol foi um chute forte cruzado de fora da área, peguei bem na bola e ela fez uma curva linda, voando e pousando no chão, bem longe do goleiro. Depois foi o passe perfeito do Bahiano. O passei veio tão açucarado que fiquei com medo de pegar diabetes, mas peguei foi a bola na corrida no meio de três que chegaram atrasados. O goleiro ainda tocou nela, mas foi em vão. O terceiro foi outra bola que recebi na intermediária, ameacei tocar, mas chutei cruzado. O goleiro nem reagiu. E o quarto foi o polêmico que já mencionei e que vou dividir com o Bahiano. Deu para dar uns dribles, coisa que eu já havia até esquecido como era. Disputar e ganhar algumas bolas no meio de campo, dar passes para pelo menos dois gols e iniciar a jogada de mais uns três. Ganhei até aplausos da torcida que, vamos deixar bem claro, era composta pelo Victor Lamas e mais quase seis pessoas. Consegui correr bem, mas por vários momentos o cansaço pegou e agora com a academia as pernas doem de um jeito diferente. Futebol é uma coisa, esteira é outra. Vai demorar para pegar um bom ritmo de jogo. Mas não tem comparação, não tem coisa melhor que terminar o jogo sem aquela sensação que fui atropelado por um caminhão e depois estuprado por um mastodonte. Ainda mandei uma bola na trave quase do meio de campo. Em determinado momento do jogo veio uma bola pelo alto, lenta e precisa, na entrada da área. Eu estava sozinho, eu com a camisa 14 do Arrascaeta (comprei no Camelô) na entrada da área, de costas para o gol. Logicamente, me veio a vontade de tentar uma bela bicicleta. Estava tudo lá, a posição certa, o vento a favor, a conjunção dos astros alinhada, mas eu tive tempo de pensar e lembrei que mesmo se acertasse a bicicleta e fizesse o gol mais bonito da minha vida, eu teria que saltar, me atirar no ar com as pernas para cima e quando minha bunda aterrissasse novamente em solo brasileiro, haveria 90% de chances de todo o peso do meu corpo cair exatamente no local da minha lesão da coluna. Achei melhor não. Mas dei um belo passe que resultou em quatro ou cinco chutes consecutivos que não acabaram em gol. Melhor assim. Se eu chegar aos 84 kg talvez eu esteja mais disposto a inventar moda. Talvez a melhor lição disso tudo é que valeu a pena o sacrifício de largar pão e refrigerante. Valeu as horas na academia. Quer dizer que sacrifícios valem a pena? Essa é a pergunta que mais me fiz nos últimos anos. É como se rezasse ou orasse para o universo, para controlador da Matrix, talvez até para um deus, seja ele o Jeová dos cristãos, o Olódùmarè dos Yorubás, Brahma dos hindus, Odin dos meus antepassados nórdicos, ou Zeus dos gregos. Perguntei isso em voz alta semana passada imaginando se alguém, alguns deles, me responderia. Não sei quem respondeu, mas não há dúvidas que houve uma resposta clara: um grande “Sim”. E para não haver dúvidas, responderam quatro vezes, sim! Obrigado então, a todos os deuses pela resposta, estejam vocês onde estiverem. Saldo de 2019: 31 jogos 25 gols Clinton Davisson é jornalista, mestre em comunicação, pesquisador, roteirista e escritor. Autor de quatro livros, sendo um deles “Fáfia – A Copa do Mundo de 2022”, que será relançado este ano.