sexta-feira, junho 19, 2026

Off Campus não é série só para mulheres

 

Divulgada como tendo sido feita para o público feminino, Off campus: amores improváveis tem muito para ensinar para machos

A última vez que ouvi que uma série literária era voltada para o público feminino foi com Cinquenta Tons de Cinza. Na época, comprei briga com muitas amigas porque, claro, li os livros. Assim como Crepúsculo, a série parecia feita para mulheres atraídas por homens que, fora da ficção, acumulam medidas protetivas, boletins de ocorrência e, eventualmente, uma nota de falecimento da parceira. A perfeição desses machos alfa se resumia a violência, dinheiro e dominação.

Em resumo, não havia diferença entre o conceito de “livros feito para mulheres” do que propagandas do Dia das Mães ou até o Dia da Mulher nos anos 70,80 e 90 que mostravam eletrodomésticos com destaque para lavadoras de roupas e ferros de passar.

Por recomendação de uma feminista, fui ver off campus. Ela me recomendou não como série para mulheres, mas como uma produção que fugia da masculinidade tóxica. Em nenhum momento ela disse que seria uma “série para mulheres”.

Para começar, eu sempre amei séries que se passam em Campus Universitários. Então, começou bem. Começamos acompanhando Hannah Wells (Ella Bright), uma estudante talentosa que perde uma bolsa de estudos e, como nos EUA a maior parte das Universidades são particulares, isso é um problemão.

E temos Garrett Graham (Belmonti Cameli) um astro do Hockey universitário que se recusa a recorrer às famosas facilitações que atletas têm nessas universidades e decide passar por méritos próprios em filosofia, matéria em que Hannah teve a nota mais alta.

Por um estranho motivo que vai fazer sentido na frente, Hanna não só é imune ao charme de Garrett, como também reluta em dar aulas particulares para ele, mesmo pagando.

Mas Garrett percebe que ela tem um crush em um outro rapaz que é músico e que ela não leva muito jeito para se aproximar do sujeito. Daí saí um acordo entre os dois: Garrett ajuda Hannah a conquistar o músico enquanto ela o ajuda a passar em filosofia.

A partir desta premissa, já temos um casal carismático por quem torcer. A química da amizade entre os dois é excelente. A torcida para que os dois “acabem juntos” é óbvia. Mas é nas entrelinhas e na profundidade não apenas do casal, mas também dos personagens secundários que reside a força da série.

O relacionamento de Garrett com o restante do time de Hockey é tão importante quanto sua relação com Hannah. Não, mesmo em tempos da geração Y, o Hockey continua a ser um jogo violento. Um dos poucos esportes coletivos em que brigas são ainda que parcialmente toleradas. As brigas dentro de fora de quadra são constantes. Mas temos sim um toque de modernidade quando a questão da masculinidade tóxica é abordada de forma orgânica, sem pausas para lacrações para indicar que ali está sendo ensinada uma lição.

A segurança e a confiança que Garrett passa ao lidar com sua aparência são uma grata surpresa em tempos em que ter uma boa autoestima parece algo proibido para a geração Y. O rapaz não tem medo de mulheres, gosta de mulheres, que por sinal, são representadas como pessoas falhas, cheias de dúvidas, mas empáticas.

E sim, os homens são empáticos tanto com as companheiras quanto para com os amigos. Aquela representação de “broderagem” estilo Top Gun, onde você não sabe se os caras vão sair no soco ou se vão se beijar, não tem lugar na série.

Então, sim. Off Campus tem algo a ser dito para homens e mulheres de várias gerações e mostra um mundo onde homens e mulheres podem conviver em harmonia e ainda assim serem felizes. Outra coisa que pode chocar a geração Y, é o sexo, que é mostrado como algo positivo que pode fazer bem para uma relação.

Talvez a maior qualidade de Off Campus seja justamente mostrar que respeito, empatia e vulnerabilidade não tornam ninguém menos masculino. Pelo contrário: tornam seus personagens mais interessantes, mais humanos e muito mais dignos de admiração do que os velhos estereótipos do macho alfa que dominaram a cultura pop durante décadas.

Se existe uma lição a tirar da série, é que relacionamentos saudáveis não são apenas um desejo feminino. São algo que homens também deveriam querer para si. E talvez seja por isso que uma produção vendida como entretenimento para mulheres tenha tanto a ensinar para muitos homens.

sábado, fevereiro 21, 2026

Diário de um peladeiro 2026 – Parte 2. O medo é o assassino da mente

 

“Eu não devo ter medo. Medo é o assassino da mente. Medo é a pequena morte que leva à aniquilação total. Eu enfrentarei meu medo. Permitirei que passe por cima e me atravesse. E, quando tiver passado, voltarei para ver seu rastro. Onde o medo não estiver mais, nada haverá. Somente eu permanecerei.” — Frank Herbert, Duna



Não vou mentir. 2025 não foi um ano fácil. E eu não gosto — na verdade, odeio — daquelas pessoas que tentam olhar tudo pelo copo meio cheio. Eu não quero copos meio cheios; quero taças de champanhe. Para ser mais honesto, uma garrafa de Coca-Cola bem gelada. Meio copo não mata a sede. Não para o que eu lutei em 2025.

Mas vamos olhar com frieza.

Praticamente tudo que eu tentei entre 2024 e 2025 deu muito errado. Mas, com muita boa vontade, percebo que, como dizia minha terapeuta, “houve um movimento”. Passei a fazer um doutorado, ainda que como disciplina isolada no primeiro semestre. Não satisfeito, resolvi fazer duas disciplinas de faculdades diferentes no segundo semestre.

Sem grana para pagar passagens e comida, dependendo de parentes, cursei as três disciplinas. Mas ainda não consegui uma bolsa. E, apesar da nota máxima em duas, reprovei na terceira por atrasar a entrega do artigo científico. Placar: 2x1.

Tudo bem. 2025 ainda teve o lançamento — com boas vendas e boas críticas — de Hegemonia: Vellanda, livro que demorei nada menos que 18 anos para terminar. Claro, acho que o livro ainda saiu incompleto. Não o achei perfeito. Mas, no final das contas, terminei o interminável e lancei. E as pessoas gostaram mais do que eu imaginava.

Fiquei semanas pensando qual era o saldo positivo disso. O que seria? A resposta veio apenas hoje: coragem.

Nos últimos meses, eu vinha duvidando da minha coragem. Sempre fiz questão de lutar contra o medo. Não o aceitava. Se sentia medo de alguma coisa, aquele medo virava uma meta a ser batida. Confesso que, nos últimos dois anos, achei que tinha perdido a coragem.

Mas o que diabos isso tem a ver com futebol?

Contra as indicações médicas, resolvi insistir em voltar ao futebol. Com os joelhos estraçalhados, resolvi jogar como goleiro. Comprei joelheiras e luvas. Nunca tinha comprado luvas de goleiro na vida. O motivo foi ter machucado o dedo médio na semana passada.

Hoje, assim que coloquei a luva, uma pessoa (ainda não gravei o nome de quase ninguém — que vergonha) chutou a bola por cima, levemente, e eu, também levemente, levantei a mão em direção à bola, que bateu exatamente na ponta do dedo médio, causando uma dor absurda.

O fato de o toque ter desviado a bola para a trave, francamente, não valeu o esforço.

O dedo está doendo, e assim vai continuar a semana toda.

E, durante todo o resto da pelada, a bola não voltou a acertar o dedo médio isoladamente nem uma vez. Ou seja, o azar de 2024 e 2025 ainda está presente.

Pelada normal. Falhei absurdamente com um passe errado na saída do gol. A bola não pegou velocidade suficiente. Caiu no pé do atacante, que só precisou escolher como ia chutar para o gol vazio.

Claro que não gostei de ter falhado. Mas o time não reclamou. Eu também não achei o fim do mundo, pois, afinal, tentei inventar. Isso faz parte. Tive coragem de tentar.

Mas o problema veio quando resolvi jogar na linha para ver se aguentava. Foi nesse momento, depois de uma troca de passes, que recebi a bola livre. Só eu e o goleiro, meu camarada João Vitor. Havia outro atacante do outro lado. Seria perfeito se ele viesse e eu tocasse para ele. Mas, quando ele se mexeu, o gol se abriu todo para mim.

Era só chutar.

 E foi aí que tive medo. Pois já tinha errado um chute, no caso um passe, antes. O João Vitor podia defender. A bola poderia ir para fora.

Por covardia eu dei o passe (ruim). Não chutei. Era só chutar. Era só ter coragem.

Mas foi aí que entendi.

A gente só entende o que é coragem quando sente realmente medo. Quando o medo vence. E ali o medo venceu. Deixei de fazer um gol por medo.

E é por conta disso — de um chute não dado por medo — que passei a valorizar minhas tentativas. Fazer três disciplinas sem certeza se teria dinheiro para ir e voltar. Se teria dinheiro para comer.

Não que meus parentes tenham me negado. Mas tive medo de que, um dia, meu pai ou meu irmão parassem de pagar passagens e um sanduíche com Coca-Cola toda semana. Afinal, não é obrigação deles me sustentar em meio a avalanche de entrevistas de emprego que não deram certo, concursos que não passei... Definitivamente, não é obrigação deles. Eu não tenho certeza de que vou compensar o sacrifício deles algum dia. E quando a gente tem um pouco de vergonha na cara, a gente pensa duas, três, quatro, dez vezes, antes de fazer uma conta para outra pessoa que você ama pagar.

Mesmo com medo, eu fiz. Eu enfrentei. Eu tive coragem.

Então, esse gol perdido por falta de um chute teve sua serventia. Senti o gosto da covardia e, através dele, passei a valorizar mais as vezes em que tive coragem de terminar e lançar um livro. Tive coragem de fazer três disciplinas.

Agora é o ano de 2026. Não sei se vou acertar os chutes. Não tenho garantia de nada. Mas o que fiz em um ano todo, no caso, em 2025, vou fazer neste primeiro semestre: três disciplinas em três faculdades diferentes.

Ficou curioso?

Literatura, comunicação e cinema.

Sim, na prática, estou fazendo três doutorados de uma só vez. Além disso, vou lançar Hegemonia: Vellanda no Rio de Janeiro, em Volta Redonda e na Bienal do Livro de SP.

Tem que ter coragem para isso.

 

 

 

Apesar de ter “—", este texto foi escrito sem ajuda de qualquer IA além do corretor do Word.

Clinton Davisson Fialho é jornalista, pós-graduado em cultura africana e indígena, mestre em Comunicação pela UFJF e autor de seis livros, sendo o último deles Hegemonia: Vellanda, sobre uma menina neurodivergente.

 

sábado, janeiro 03, 2026

Diário de um peladeiro, o retorno. Temporada 2026.

 


Em 2024, eu disse que continuaria jogando futebol mesmo que fosse com um pé só. Era uma frase de efeito bonita. Poética, até. Mas os exames médicos — e o meu querido ortopedista — foram claros: perdi a cartilagem e fraturei a parte interna dos dois joelhos. Foram quatro meses só para desinflamar.

A sentença veio direta: eu teria que perder peso na academia e, depois de eliminar uns seis quilos, talvez pudesse atuar como goleiro. Jogar na linha, apenas com cirurgia.

Passou um ano. Não perdi peso. Frequentei a academia de forma irregular. A depressão pegou.

Vale lembrar que, antes da pandemia, eu estava na melhor forma da minha vida. Em 2019, fiz 45 gols. Em 2020, antes da paralisação, já tinha marcado 21. Mas isso foi há cinco anos. De lá para cá, cheguei à pior forma física que já tive. Dá para voltar? Ainda dá tempo?

Na semana passada, no último dia do ano, resolvi tentar de novo. Não voltar como antes, mas voltar como fosse possível. Ser goleiro, ao menos. Buscar um pouco de serotonina, adrenalina, vida.

O resultado animou — mas o joelho reclamou. Bastou uma agachada para a dor aparecer inteira. Ainda assim, fui razoável para um goleiro de pelada. Meu time ficou três jogos sem sofrer gols. Fiz boas defesas.

Insisti na semana seguinte, mas não fui à academia. Festas de fim de ano, né?

Agora, voltei. Sem pular, sem agachar, tentando jogar mais com a cabeça. Vieram alguns frangos, saídas de bola erradas. Mas o joelho aprovou.

Em certo momento, estava tão cansado que esqueci a cor da camisa do meu próprio time. Sim, dá para cansar muito mesmo no gol.

O joelho dói agora, como esperado. Mas dói menos que na semana passada. Esta semana, vou tentar voltar à academia.

Aos 54 anos, sigo usando o futebol para combater a depressão e enfrentar a inércia. Para esquecer 2025 — um ano em que plantei muito: dois doutorados, um livro lançado. Ainda falta fazer mais lançamentos, divulgar, ver como ele vai se sair na temporada de premiações. 

Falta respirar fundo e voltar à luta. E, para isso, preciso me mover. Preciso entrar em campo — nem que seja no gol.

 

Clinton Davisson Fialho é jornalista, escritor, roteirista e autor de seis livros. Tem pós em cultura africana e indígena e mestrado em narrativa em novas tecnologias.

quinta-feira, novembro 06, 2025

 

Neurodivergência, fantasia e ficção científica se encontram em “Hegemonia – Vellanda”

Autor de Volta Redonda lança seu 6º romance, que mistura gêneros e traz uma protagonista neurodivergente em jornada de transformação.

 

E se você bebesse uma poção mágica que lhe trouxesse todo o conhecimento do mundo? E mais! E se com esse conhecimento, você descobrisse que seu mundo é muito maior do que você jamais imaginou.

Essa é a premissa de Hegemonia – Vellanda, sexto livro do volta-redondense Clinton Davisson Fialho, que pela primeira vez vai lançar um livro em sua cidade natal. O evento acontece nesta próxima sexta-feira, dia 14 de novembro, às 16h, na Biblioteca Municipal Raul de Leoni.

A história traz Jun Vellanda, uma menina curiosa que faz parte de uma raça de marsupiais em um cenário quase medieval. Após beber acidentalmente uma poção mágica, ela acaba aumentando sua inteligência e seus conhecimentos.

Mas o despertar intelectual não é celebrado. Jun é punida, colocada em prisão domiciliar, vira um fardo para os pais e não consegue mais se encaixar nas expectativas de sua comunidade. A metáfora é clara: o livro é uma alegoria da neurodivergência — especialmente do autismo e das altas habilidades — e de como a diferença cognitiva, em vez de valorizada, é frequentemente vista como um problema.

 

Com forte influência de autores como China Miéville e George R. R. Martin, Vellanda teve também forte inspiração em animes, especialmente Candy,Candy e Dos Apeninos aos Andes, além de referências literárias de autores como Hector Malot, Origenes Lessa e Emily Brontë, a narrativa é construída com sensibilidade e inspiração. “Sempre quis escrever uma personagem que lembrasse essas histórias que me marcaram na infância”, revela o autor.

 

Hegemonia – Vellanda começa com tons de fantasia clássica, flerta com o horror e termina mergulhado em uma ficção científica densa e filosófica, o que torna a leitura imprevisível, mas coesa..

 

 

A trajetória da protagonista também é marcada por descobertas difíceis e por uma profunda transformação pessoal. “É, no fim das contas, uma história de superação de uma jovem neurodivergente.”, explica o autor.

 

Fruto de uma ideia que surgiu ainda em 2008, Vellanda amadureceu ao longo dos anos até encontrar seu tom definitivo. Com elementos que dialogam com o New Weird e uma atenção especial à construção do mundo, a saga Hegemonia se firma como uma das obras mais inventivas da literatura fantástica nacional.

 

 

O livro já está à venda no site da AVEC Editora:

https://aveceditora.com.br/produto/hegemonia-vellanda/

 

Sobre o autor

 

 

Clinton Davisson Fialho é jornalista formado pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), onde também concluiu o mestrado em Comunicação, na área de Cultura, Narrativas e Produção de Sentido, e onde atualmente realiza o doutorado em Estudos Literários. É ainda pós-graduado em Afrocartografia pela FeMASS. Autor de quatro romances e dois livros de contos, transita entre ficção científica, fantasia e terror.

Entre 2011 e 2019, presidiu o Clube de Leitores de Ficção Científica do Brasil, colaborando para a criação da Biblioteca Nacional de Ficção Científica, em parceria com a USP, e para o fortalecimento do Prêmio Argos de Literatura Fantástica.

domingo, agosto 31, 2025

Fragmentos da memória nas linhas do meu DNA

 



Não, não tem nenhum truque nas fotos. Ambas sou eu em fases distintas da minha vida. Essa foto, junto com meu exame de DNA, me trouxe muitas reflexões. 

Sempre soube que tinha ancestrais africanos e indígenas, e mesmo no século passado, quando isso era visto como um problema, eu sentia orgulho disso. A surpresa veio quando fiz um exame de DNA: não foram os 20% africanos, mas os apenas 5% indígenas, pois eu jurava que seria muito mais. Descobri também 20% de ascendência italiana, embora “Fialho”, apesar da sonoridade, seja um sobrenome 100% português. No restante, 39% ibérico, como era de se esperar.


No fundo, sou um típico caramelo brasileiro: fruto de misturas, encontros, tragédias e sobrevivências.


A ironia é que, nos séculos passados, a ciência europeia defendia a ideia de uma suposta “superioridade do sangue puro”. Hoje, precisamos ter cuidado ao discutir esse conceito, não para reforçar uma visão depreciativa de nós, “vira-latas”, mas porque existe uma verdade sedutora nisso: indivíduos com genética diversa muitas vezes são mais fortes, mais resistentes. Basta olhar nossos cães Caramelos, que vivem longos anos, necessitam de menos vacinas, menos visitas ao veterinário. Mas esse raciocínio nos leva a um terreno perigoso: a eugenia, que nunca esteve certa no passado e não vai estar agora.


A grande lição que tiro disso tudo é que devemos valorizar o que nos faz únicos. “Superioridade” é um conceito subjetivo e ilusório. O que me fascina é imaginar a vida dos meus ancestrais:

A ansiedade de quem deixou a Itália em busca de um novo mundo.

O terror de quem foi arrancado da África e lançado em um navio negreiro.

As mortes que atravessaram essas linhas do tempo, e os que as causaram.

As dores, as paixões, os pequenos momentos de alegria.


Há séculos de histórias escondidas nos nossos genes. Uma sequência interminável de acasos, escolhas, violências e esperanças que culminaram na pessoa que sou. Gosto de acreditar que todos eles estão vivos em mim, em algum lugar. E que são eles que, silenciosamente, me movem.


#afrodescendencia #ancestralidade #identidade #origens #orgulhoancestral #historiafamiliar #diversidadecultural #autoconhecimento #povosindigenas #diadeafirmacao #memoriaancestral #herancacultural

domingo, outubro 13, 2024

Diário de um peladeiro 2024, parte 4 – Issac Newton e os joelhos de Nietzsche


O empoderamento da dor, ou a valorização do sofrimento como parte essencial do crescimento humano, é um tema central na obra de Friedrich Nietzsche, especialmente em Assim Falou Zaratustra e A Genealogia da Moral. E já que estamos citando Nietzsche, vale também citar Newton: O enunciado da Terceira Lei de Newton (Princípio da Ação e Reação) é descrito da seguinte forma: “A toda ação há sempre uma reação oposta e de igual intensidade: as ações mútuas de dois corpos um sobre o outro são sempre iguais e dirigidas em sentidos opostos.”

Pois é, os três gols da semana passada cobraram um preço. Os joelhos carregando 99kg durante uma pelada de uma hora de duração em futebol de salão não ficaram exatamente contentes. Se toda ação tem uma reação, a minha consequência é que meus joelhos doeram a semana toda. Inclusive na academia. Passei a fazer só 15 minutos de esteira, os outros 15 de bicicleta para poupar os joelhos, mas a dor continuou.

Chegou sábado, eu evitei fazer qualquer movimento mais elaborado. Corri, acho que até chutei a gol, mas não lembro de ter dado um passe para gol, sequer. Gol então, nem pensar. Acho que ao invés de jogar futebol, eu fiz um spining elaborado na quadra. Mesmo assim, cheguei em casa com os joelhos estalando do dor.

Hoje, domingo, 13 de outubro, teve a entrega do manto sagrado do Furabola FC, nosso querido Mustela. Dei dois passes para gol, um eu lembro que foi para o Renan, que, aliás, acreditem, tem 15 anos, contra meus 53, é como usar um Uno (eu) disputando contra um Fórmula 1(ele).  Gostei também de ter armado ao menos três jogadas que terminaram em gol. Fiz um gol com um passe açucarado do Ramon, só precisei escolher o canto do gol e chutar de chapa à direita. E um de rebote, também de direita. O Gabriel jura que fiz um gol chutando de fora da área, sim, foi um chute lindo de Trivela, mas que eu me lembre, essa bola foi para fora. Gabriel que hoje fez 4 gols, um deles de cabeça quando eu estava de goleiro. Aliás, tomei mais gols hoje que o Julho Cézar na Copa de 2014, dois deles com falhas grotescas minhas ao sair a bola de foram errada, mas vida que segue.

 Forma física

Já entendi que eu preciso me aquecer antes. No começo da pelada eu fico sem fôlego, a cabeça não processa nada. A ansiedade tenta me tirar a concentração, mas é para isso que a gente insiste em jogar futebol, porque é o melhor meio de controlar a ansiedade. Desacostumado com o salão, a bola corre muito. O domínio de bola é diferente. Mas vai chegando no final, tá todo mundo cansado e eu tô lá ligado no 220v. Se eu tivesse uns cinco quilinhos mais magro, dava para arriscar mais. De semana passada para cá, perdi 2kg, o que é bom, mas correr com 97kg, sendo que 15 deles na barriga, não é nada bom. Só é pior que ficar em casa depressivo. A escolha então é fácil.

Mas é isso. Amanhã vou ao médico para resolver como fazer as pazes com o joelho e continuar emagrecendo. Porque se parar de jogar, é pior. Prefiro mil vezes a dor no joelho à depressão. Assim como Nietzsche via no empoderamento do sofrimento como o caminho para a transcendência pessoal, o autor deste diário vê no futebol o meio para manter sua saúde mental e espiritual, mesmo que isso venha ao custo de dores físicas. É essa relação com a dor que o fortalece, fazendo com que, ao final, ele sinta que a superação é não só possível, mas necessária.

 

 

 

Saldo 2024  

 

7 jogos

10 gols

9 assistências

 

Clinton Davisson Fialho é jornalista, com pós em cultura africana e indígena e mestrado em novas tecnologias de comunicação. Autor de cinco livros dos gêneros ficção científica e terror, vai lançar o sexto ainda este ano, intitulado Hegemonia I – Vellanda.

sábado, outubro 05, 2024

Diário de um Peladeiro 2024 – parte 3 - Dois em um.

 Esse texto é mais longo porque abrange duas peladas. Mas vamos lá.

No ápice de uma semana de bosta. Perdi a data da inscrição no doutorado da Facom (eu queria mesmo o de cinema, mas este era obrigatório não esquecer, mas eu sou uma droga de um autista com TDAH e com um pico de depressão), porque eles resolveram adiantar em dois meses a data da inscrição. Resta o Doutorado de cinema em Juiz de Fora e de Comunicação na UENF. Briguei com os gêmeos também por causa da depressão, agora são três filhos que não falam comigo. Perfeito! A cereja no bolo foi que eu tinha planejado um pequeno curta metragem para filmar semana passada, arrumei equipe, equipamento, roteiro pronto, dava para filmar as cenas em um dia, mas a atriz ficou doente. O tempo que eu tinha era só aquela semana. Filmar alguma coisa agora só ano que vem. Enfim, semana de fezes, para usar um termo mais polido.


E foi com este espírito que fui ao jogo do dia 28 de setembro, sábado passado. Fui me arrastando. Realmente estava muito deprimido e chateado. Mas fiz este esforço porque ficar em casa é pior. Corri meio desajeitado como sempre, mas dei dois bons passes para gol. Chutei duas vezes com perigo, mas não rolou nenhum gol. Voltei mais desanimado do que quando fui. A única coisa boa é que a bola que eu comprei lá em Brasília, quando ainda era rico, passou a ser usada na pelada.

Mas o planeta gira, né?


Ao contrário da semana passada que teve uma série de acontecimentos lamentáveis, esta semana começou bem.  Segunda-feira fui à médica levar alguns exames e apesar da gordura no coração, ela falou que o risco de infartar em campo é zero. Que eu tinha que me preocupar mesmo com o fígado. Este sim, tem gordura demais. Peguei firme na academia. Fui 4 dias seguidos. Perdi 2kg. Ainda não abri mão da Coca-Cola. Não tá na hora ainda. Além da academia, peguei firme no projeto de doutorado, tanto de cinema, quanto para a UENF, interrompi apenas porque chegou a reta final de mandar o livro novo para a editora. E posso dizer que suei mais nesta reta final do livro do que na academia. O livro final tinha um total de 97 mil palavras. Algo que há dez anos atrás seria bom, mas que hoje, com o preço do papel muito exacerbado, não é bom negócio. As pessoas pagam R$ 50 felizes por um combo no McDonalds, que fica pronto em cinco minutos (dependendo da filial do McDonalds que você vai), mas reclamam de pagar R$ 50 em um livro que demorou 12 anos para ser escrito. E me refiro ao livro anterior, o premiadíssimo Baluartes. Imagina o de agora, um drama de hiperfantasia e ficção científica hard, sobre uma menina autista com TDAH? E sabendo que o livro não deve sair por menos de R$ 60? Não adianta falar que este eu demorei nada mais nada menos que 16 anos para escrever. O tempo que o Tolkien demorou para escrever O Senhor dos Anéis, mas a comparação é injusta porque eu abandonei este livro por anos e depois voltava e abandonava de novo. Então, não, não sou Tolkien.

Mas enfim, peguei pesado esta semana para terminar o livro conforme orientação da editora, que por sinal, é a mais profissional com a qual já lidei. E a primeira que tem um profissional para atuar como editor de verdade. Ele me aconselhou entre outras coisas deixar com no máximo 90 mil palavras. Ou seja, eu tinha que sumir com 7 mil palavras. Apontou onde exatamente eu poderia cortar. Eu pensei por meia hora, fui lá e cortei. Depois fiquei uma semana enxugando a história e, ao mesmo tempo, revendo se havia ficado buracos. As cenas de batalha final, estavam grandes e confusas. Não sei os outros escritores, mas eu quando escrevo uma cena de batalha, parece que estou lá dentro, vendo tudo com minha câmera e tentando registrar e escrever o que vejo. Foi preciso me distanciar um pouco e reescrever. Deixar as coisas mais claras. Resultado, mesmo acrescentando coisas e mais o prefácio, o livro ficou com 10 mil palavras a menos. Total 87 mil palavras, com direito a um dicionário de uma língua que inventei para os dragões (não sou Tolkien, mas também crio idiomas).

Com isso, livro terminado e entregue, academia em dia, carteirinha de autista chegando pelo e-mail (será que vou andar de ônibus de graça?), e o remédio novo para depressão finalmente fazendo efeito, parti hoje, sábado, 5 de outubro de 2024, em direção ao futebol com a certeza de que iria chegar lá igual o Thor chegou a Wakanda em Vingadores - Guerra Infinita.

Ah, ledo engano. No começo eu me senti mais cansado do que antes. A musculação demora a fazer efeito e na prática, meus músculos estavam eram mais duros. A agilidade estava pior que antes, que já era ruim. Puxava o ar e ele não vinha. Cheguei a pensar em ir embora. Mas aí, algo aconteceu. Eu comecei a me sentir melhor, a respirar melhor e a correr mais. Acho que tive umas 10 chances de gol, bem diferente da semana passada quando tive umas duas que não aproveitei. O primeiro gol veio de um rebote que peguei uma bomba de esquerda, o goleiro não conseguiu segurar. Se fosse meu amigo, Igor Sardinha, iria ter calma de mirar onde o goleiro não estava. Mas ele é craque, eu não sou. Meti uma bomba de esquerda. Golaço.

O segundo veio de um passe perfeito da direita. Novamente peguei de esquerda, lindo gol, mais pelo passe. Eu só tive o trabalho de escorar. O terceiro não foi bem um passe, acho que foi um chute mal dado para a esquerda do goleiro que já ia caindo para aquele lado, eu desviei a bola com a ponta do pé (direito) para o lado oposto. Bola de um lado, goleiro de outro.

Sim, hoje bati o recorde, fiz três gols e vou pedir música no Fantástico. Não quer dizer que foi uma atuação de gala. Ainda não me reacostumei com o futebol de salão, apesar de ter passado muitos anos jogando, tanto em Barra Mansa (a gente jogava com bola de campo), quanto em Juiz de Fora no saudoso Guanabara no Alto dos Passos. Mas meu joelho reclama.

Como eu disse, não foi atuação de gala. Eu tentei mais coisas justamente para me testar. Por isso mesmo errei muito mais. O equilíbrio ainda tá horrível. E quanto tentei acompanhar um jogador na corrida que tinha 30 anos a menos que eu, foi um desastre. Mas só vou ter uma noção real de como estou realmente depois que voltar aos 85 kg. E faltam 15 kg ainda para chegar lá.

Enfim, uma semana realmente boa. Aniversário da filha, consegui escrever uma coisa legal para ela que voltou a falar comigo. Livro terminado. Três gols. Falta agora terminar o projeto de doutorado. Vai ser uma semana muito difícil. Já tenho todos os livros que preciso ler e mais alguns. O tema está quase definido, mas sinto que preciso estudar mais a linha de pesquisa dos orientadores. Então é isso, vamos para cima!

 

Saldo de 2024

5 jogos

8 gols

6 assistências

 

Clinton Davisson Fialho é jornalista, com pós em cultura africana e indígena e mestrado em novas tecnologias de comunicação. Autor de cinco livros dos gêneros ficção científica e terror, vai lançar o sexto ainda este ano, intitulado Hegemonia I – Vellanda.