sexta-feira, junho 19, 2026

Off Campus não é série só para mulheres

 

Divulgada como tendo sido feita para o público feminino, Off campus: amores improváveis tem muito para ensinar para machos

A última vez que ouvi que uma série literária era voltada para o público feminino foi com Cinquenta Tons de Cinza. Na época, comprei briga com muitas amigas porque, claro, li os livros. Assim como Crepúsculo, a série parecia feita para mulheres atraídas por homens que, fora da ficção, acumulam medidas protetivas, boletins de ocorrência e, eventualmente, uma nota de falecimento da parceira. A perfeição desses machos alfa se resumia a violência, dinheiro e dominação.

Em resumo, não havia diferença entre o conceito de “livros feito para mulheres” do que propagandas do Dia das Mães ou até o Dia da Mulher nos anos 70,80 e 90 que mostravam eletrodomésticos com destaque para lavadoras de roupas e ferros de passar.

Por recomendação de uma feminista, fui ver off campus. Ela me recomendou não como série para mulheres, mas como uma produção que fugia da masculinidade tóxica. Em nenhum momento ela disse que seria uma “série para mulheres”.

Para começar, eu sempre amei séries que se passam em Campus Universitários. Então, começou bem. Começamos acompanhando Hannah Wells (Ella Bright), uma estudante talentosa que perde uma bolsa de estudos e, como nos EUA a maior parte das Universidades são particulares, isso é um problemão.

E temos Garrett Graham (Belmonti Cameli) um astro do Hockey universitário que se recusa a recorrer às famosas facilitações que atletas têm nessas universidades e decide passar por méritos próprios em filosofia, matéria em que Hannah teve a nota mais alta.

Por um estranho motivo que vai fazer sentido na frente, Hanna não só é imune ao charme de Garrett, como também reluta em dar aulas particulares para ele, mesmo pagando.

Mas Garrett percebe que ela tem um crush em um outro rapaz que é músico e que ela não leva muito jeito para se aproximar do sujeito. Daí saí um acordo entre os dois: Garrett ajuda Hannah a conquistar o músico enquanto ela o ajuda a passar em filosofia.

A partir desta premissa, já temos um casal carismático por quem torcer. A química da amizade entre os dois é excelente. A torcida para que os dois “acabem juntos” é óbvia. Mas é nas entrelinhas e na profundidade não apenas do casal, mas também dos personagens secundários que reside a força da série.

O relacionamento de Garrett com o restante do time de Hockey é tão importante quanto sua relação com Hannah. Não, mesmo em tempos da geração Y, o Hockey continua a ser um jogo violento. Um dos poucos esportes coletivos em que brigas são ainda que parcialmente toleradas. As brigas dentro de fora de quadra são constantes. Mas temos sim um toque de modernidade quando a questão da masculinidade tóxica é abordada de forma orgânica, sem pausas para lacrações para indicar que ali está sendo ensinada uma lição.

A segurança e a confiança que Garrett passa ao lidar com sua aparência são uma grata surpresa em tempos em que ter uma boa autoestima parece algo proibido para a geração Y. O rapaz não tem medo de mulheres, gosta de mulheres, que por sinal, são representadas como pessoas falhas, cheias de dúvidas, mas empáticas.

E sim, os homens são empáticos tanto com as companheiras quanto para com os amigos. Aquela representação de “broderagem” estilo Top Gun, onde você não sabe se os caras vão sair no soco ou se vão se beijar, não tem lugar na série.

Então, sim. Off Campus tem algo a ser dito para homens e mulheres de várias gerações e mostra um mundo onde homens e mulheres podem conviver em harmonia e ainda assim serem felizes. Outra coisa que pode chocar a geração Y, é o sexo, que é mostrado como algo positivo que pode fazer bem para uma relação.

Talvez a maior qualidade de Off Campus seja justamente mostrar que respeito, empatia e vulnerabilidade não tornam ninguém menos masculino. Pelo contrário: tornam seus personagens mais interessantes, mais humanos e muito mais dignos de admiração do que os velhos estereótipos do macho alfa que dominaram a cultura pop durante décadas.

Se existe uma lição a tirar da série, é que relacionamentos saudáveis não são apenas um desejo feminino. São algo que homens também deveriam querer para si. E talvez seja por isso que uma produção vendida como entretenimento para mulheres tenha tanto a ensinar para muitos homens.

sábado, fevereiro 21, 2026

Diário de um peladeiro 2026 – Parte 2. O medo é o assassino da mente

 

“Eu não devo ter medo. Medo é o assassino da mente. Medo é a pequena morte que leva à aniquilação total. Eu enfrentarei meu medo. Permitirei que passe por cima e me atravesse. E, quando tiver passado, voltarei para ver seu rastro. Onde o medo não estiver mais, nada haverá. Somente eu permanecerei.” — Frank Herbert, Duna



Não vou mentir. 2025 não foi um ano fácil. E eu não gosto — na verdade, odeio — daquelas pessoas que tentam olhar tudo pelo copo meio cheio. Eu não quero copos meio cheios; quero taças de champanhe. Para ser mais honesto, uma garrafa de Coca-Cola bem gelada. Meio copo não mata a sede. Não para o que eu lutei em 2025.

Mas vamos olhar com frieza.

Praticamente tudo que eu tentei entre 2024 e 2025 deu muito errado. Mas, com muita boa vontade, percebo que, como dizia minha terapeuta, “houve um movimento”. Passei a fazer um doutorado, ainda que como disciplina isolada no primeiro semestre. Não satisfeito, resolvi fazer duas disciplinas de faculdades diferentes no segundo semestre.

Sem grana para pagar passagens e comida, dependendo de parentes, cursei as três disciplinas. Mas ainda não consegui uma bolsa. E, apesar da nota máxima em duas, reprovei na terceira por atrasar a entrega do artigo científico. Placar: 2x1.

Tudo bem. 2025 ainda teve o lançamento — com boas vendas e boas críticas — de Hegemonia: Vellanda, livro que demorei nada menos que 18 anos para terminar. Claro, acho que o livro ainda saiu incompleto. Não o achei perfeito. Mas, no final das contas, terminei o interminável e lancei. E as pessoas gostaram mais do que eu imaginava.

Fiquei semanas pensando qual era o saldo positivo disso. O que seria? A resposta veio apenas hoje: coragem.

Nos últimos meses, eu vinha duvidando da minha coragem. Sempre fiz questão de lutar contra o medo. Não o aceitava. Se sentia medo de alguma coisa, aquele medo virava uma meta a ser batida. Confesso que, nos últimos dois anos, achei que tinha perdido a coragem.

Mas o que diabos isso tem a ver com futebol?

Contra as indicações médicas, resolvi insistir em voltar ao futebol. Com os joelhos estraçalhados, resolvi jogar como goleiro. Comprei joelheiras e luvas. Nunca tinha comprado luvas de goleiro na vida. O motivo foi ter machucado o dedo médio na semana passada.

Hoje, assim que coloquei a luva, uma pessoa (ainda não gravei o nome de quase ninguém — que vergonha) chutou a bola por cima, levemente, e eu, também levemente, levantei a mão em direção à bola, que bateu exatamente na ponta do dedo médio, causando uma dor absurda.

O fato de o toque ter desviado a bola para a trave, francamente, não valeu o esforço.

O dedo está doendo, e assim vai continuar a semana toda.

E, durante todo o resto da pelada, a bola não voltou a acertar o dedo médio isoladamente nem uma vez. Ou seja, o azar de 2024 e 2025 ainda está presente.

Pelada normal. Falhei absurdamente com um passe errado na saída do gol. A bola não pegou velocidade suficiente. Caiu no pé do atacante, que só precisou escolher como ia chutar para o gol vazio.

Claro que não gostei de ter falhado. Mas o time não reclamou. Eu também não achei o fim do mundo, pois, afinal, tentei inventar. Isso faz parte. Tive coragem de tentar.

Mas o problema veio quando resolvi jogar na linha para ver se aguentava. Foi nesse momento, depois de uma troca de passes, que recebi a bola livre. Só eu e o goleiro, meu camarada João Vitor. Havia outro atacante do outro lado. Seria perfeito se ele viesse e eu tocasse para ele. Mas, quando ele se mexeu, o gol se abriu todo para mim.

Era só chutar.

 E foi aí que tive medo. Pois já tinha errado um chute, no caso um passe, antes. O João Vitor podia defender. A bola poderia ir para fora.

Por covardia eu dei o passe (ruim). Não chutei. Era só chutar. Era só ter coragem.

Mas foi aí que entendi.

A gente só entende o que é coragem quando sente realmente medo. Quando o medo vence. E ali o medo venceu. Deixei de fazer um gol por medo.

E é por conta disso — de um chute não dado por medo — que passei a valorizar minhas tentativas. Fazer três disciplinas sem certeza se teria dinheiro para ir e voltar. Se teria dinheiro para comer.

Não que meus parentes tenham me negado. Mas tive medo de que, um dia, meu pai ou meu irmão parassem de pagar passagens e um sanduíche com Coca-Cola toda semana. Afinal, não é obrigação deles me sustentar em meio a avalanche de entrevistas de emprego que não deram certo, concursos que não passei... Definitivamente, não é obrigação deles. Eu não tenho certeza de que vou compensar o sacrifício deles algum dia. E quando a gente tem um pouco de vergonha na cara, a gente pensa duas, três, quatro, dez vezes, antes de fazer uma conta para outra pessoa que você ama pagar.

Mesmo com medo, eu fiz. Eu enfrentei. Eu tive coragem.

Então, esse gol perdido por falta de um chute teve sua serventia. Senti o gosto da covardia e, através dele, passei a valorizar mais as vezes em que tive coragem de terminar e lançar um livro. Tive coragem de fazer três disciplinas.

Agora é o ano de 2026. Não sei se vou acertar os chutes. Não tenho garantia de nada. Mas o que fiz em um ano todo, no caso, em 2025, vou fazer neste primeiro semestre: três disciplinas em três faculdades diferentes.

Ficou curioso?

Literatura, comunicação e cinema.

Sim, na prática, estou fazendo três doutorados de uma só vez. Além disso, vou lançar Hegemonia: Vellanda no Rio de Janeiro, em Volta Redonda e na Bienal do Livro de SP.

Tem que ter coragem para isso.

 

 

 

Apesar de ter “—", este texto foi escrito sem ajuda de qualquer IA além do corretor do Word.

Clinton Davisson Fialho é jornalista, pós-graduado em cultura africana e indígena, mestre em Comunicação pela UFJF e autor de seis livros, sendo o último deles Hegemonia: Vellanda, sobre uma menina neurodivergente.

 

sábado, janeiro 03, 2026

Diário de um peladeiro, o retorno. Temporada 2026.

 


Em 2024, eu disse que continuaria jogando futebol mesmo que fosse com um pé só. Era uma frase de efeito bonita. Poética, até. Mas os exames médicos — e o meu querido ortopedista — foram claros: perdi a cartilagem e fraturei a parte interna dos dois joelhos. Foram quatro meses só para desinflamar.

A sentença veio direta: eu teria que perder peso na academia e, depois de eliminar uns seis quilos, talvez pudesse atuar como goleiro. Jogar na linha, apenas com cirurgia.

Passou um ano. Não perdi peso. Frequentei a academia de forma irregular. A depressão pegou.

Vale lembrar que, antes da pandemia, eu estava na melhor forma da minha vida. Em 2019, fiz 45 gols. Em 2020, antes da paralisação, já tinha marcado 21. Mas isso foi há cinco anos. De lá para cá, cheguei à pior forma física que já tive. Dá para voltar? Ainda dá tempo?

Na semana passada, no último dia do ano, resolvi tentar de novo. Não voltar como antes, mas voltar como fosse possível. Ser goleiro, ao menos. Buscar um pouco de serotonina, adrenalina, vida.

O resultado animou — mas o joelho reclamou. Bastou uma agachada para a dor aparecer inteira. Ainda assim, fui razoável para um goleiro de pelada. Meu time ficou três jogos sem sofrer gols. Fiz boas defesas.

Insisti na semana seguinte, mas não fui à academia. Festas de fim de ano, né?

Agora, voltei. Sem pular, sem agachar, tentando jogar mais com a cabeça. Vieram alguns frangos, saídas de bola erradas. Mas o joelho aprovou.

Em certo momento, estava tão cansado que esqueci a cor da camisa do meu próprio time. Sim, dá para cansar muito mesmo no gol.

O joelho dói agora, como esperado. Mas dói menos que na semana passada. Esta semana, vou tentar voltar à academia.

Aos 54 anos, sigo usando o futebol para combater a depressão e enfrentar a inércia. Para esquecer 2025 — um ano em que plantei muito: dois doutorados, um livro lançado. Ainda falta fazer mais lançamentos, divulgar, ver como ele vai se sair na temporada de premiações. 

Falta respirar fundo e voltar à luta. E, para isso, preciso me mover. Preciso entrar em campo — nem que seja no gol.

 

Clinton Davisson Fialho é jornalista, escritor, roteirista e autor de seis livros. Tem pós em cultura africana e indígena e mestrado em narrativa em novas tecnologias.