Divulgada como tendo sido feita para o público feminino,
Off campus: amores improváveis tem muito para ensinar para machos
A última vez que ouvi que uma
série literária era voltada para o público feminino foi com Cinquenta Tons
de Cinza. Na época, comprei briga com muitas amigas porque, claro, li os
livros. Assim como Crepúsculo, a série parecia feita para mulheres
atraídas por homens que, fora da ficção, acumulam medidas protetivas, boletins
de ocorrência e, eventualmente, uma nota de falecimento da parceira. A
perfeição desses machos alfa se resumia a violência, dinheiro e dominação.
Em resumo, não havia diferença
entre o conceito de “livros feito para mulheres” do que propagandas do Dia das
Mães ou até o Dia da Mulher nos anos 70,80 e 90 que mostravam eletrodomésticos com
destaque para lavadoras de roupas e ferros de passar.
Por recomendação de uma
feminista, fui ver off campus. Ela me recomendou não como série para mulheres,
mas como uma produção que fugia da masculinidade tóxica. Em nenhum momento ela
disse que seria uma “série para mulheres”.
Para começar, eu sempre amei
séries que se passam em Campus Universitários. Então, começou bem. Começamos
acompanhando Hannah Wells (Ella Bright), uma estudante talentosa que perde uma
bolsa de estudos e, como nos EUA a maior parte das Universidades são
particulares, isso é um problemão.
E temos Garrett Graham (Belmonti
Cameli) um astro do Hockey universitário que se recusa a recorrer às famosas
facilitações que atletas têm nessas universidades e decide passar por méritos
próprios em filosofia, matéria em que Hannah teve a nota mais alta.
Por um estranho motivo que vai fazer
sentido na frente, Hanna não só é imune ao charme de Garrett, como também
reluta em dar aulas particulares para ele, mesmo pagando.
Mas Garrett percebe que ela tem
um crush em um outro rapaz que é músico e que ela não leva muito jeito para se
aproximar do sujeito. Daí saí um acordo entre os dois: Garrett ajuda Hannah a
conquistar o músico enquanto ela o ajuda a passar em filosofia.
A partir desta premissa, já temos
um casal carismático por quem torcer. A química da amizade entre os dois é
excelente. A torcida para que os dois “acabem juntos” é óbvia. Mas é nas
entrelinhas e na profundidade não apenas do casal, mas também dos personagens secundários
que reside a força da série.
O relacionamento de Garrett com o
restante do time de Hockey é tão importante quanto sua relação com Hannah. Não,
mesmo em tempos da geração Y, o Hockey continua a ser um jogo violento. Um dos
poucos esportes coletivos em que brigas são ainda que parcialmente toleradas.
As brigas dentro de fora de quadra são constantes. Mas temos sim um toque de
modernidade quando a questão da masculinidade tóxica é abordada de forma
orgânica, sem pausas para lacrações para indicar que ali está sendo ensinada
uma lição.
A segurança e a confiança que
Garrett passa ao lidar com sua aparência são uma grata surpresa em tempos em
que ter uma boa autoestima parece algo proibido para a geração Y. O rapaz não
tem medo de mulheres, gosta de mulheres, que por sinal, são representadas como
pessoas falhas, cheias de dúvidas, mas empáticas.
E sim, os homens são empáticos
tanto com as companheiras quanto para com os amigos. Aquela representação de “broderagem”
estilo Top Gun, onde você não sabe se os caras vão sair no soco ou se vão se beijar,
não tem lugar na série.
Então, sim. Off Campus tem algo a
ser dito para homens e mulheres de várias gerações e mostra um mundo onde
homens e mulheres podem conviver em harmonia e ainda assim serem felizes. Outra
coisa que pode chocar a geração Y, é o sexo, que é mostrado como algo positivo
que pode fazer bem para uma relação.
Talvez a maior qualidade de Off
Campus seja justamente mostrar que respeito, empatia e vulnerabilidade não
tornam ninguém menos masculino. Pelo contrário: tornam seus personagens mais
interessantes, mais humanos e muito mais dignos de admiração do que os velhos
estereótipos do macho alfa que dominaram a cultura pop durante décadas.
Se existe uma lição a tirar da
série, é que relacionamentos saudáveis não são apenas um desejo feminino. São
algo que homens também deveriam querer para si. E talvez seja por isso que uma
produção vendida como entretenimento para mulheres tenha tanto a ensinar para
muitos homens.
