“Eu não devo ter medo. Medo é o assassino da mente. Medo é a
pequena morte que leva à aniquilação total. Eu enfrentarei meu medo. Permitirei
que passe por cima e me atravesse. E, quando tiver passado, voltarei para ver
seu rastro. Onde o medo não estiver mais, nada haverá. Somente eu
permanecerei.” — Frank Herbert, Duna
Não vou mentir. 2025 não foi um ano fácil. E eu não gosto —
na verdade, odeio — daquelas pessoas que tentam olhar tudo pelo copo meio
cheio. Eu não quero copos meio cheios; quero taças de champanhe. Para ser mais
honesto, uma garrafa de Coca-Cola bem gelada. Meio copo não mata a sede. Não
para o que eu lutei em 2025.
Mas vamos olhar com frieza.
Praticamente tudo que eu tentei entre 2024 e 2025 deu muito
errado. Mas, com muita boa vontade, percebo que, como dizia minha terapeuta,
“houve um movimento”. Passei a fazer um doutorado, ainda que como disciplina
isolada no primeiro semestre. Não satisfeito, resolvi fazer duas disciplinas de
faculdades diferentes no segundo semestre.
Sem grana para pagar passagens e comida, dependendo de
parentes, cursei as três disciplinas. Mas ainda não consegui uma bolsa. E,
apesar da nota máxima em duas, reprovei na terceira por atrasar a entrega do
artigo científico. Placar: 2x1.
Tudo bem. 2025 ainda teve o lançamento — com boas vendas e
boas críticas — de Hegemonia: Vellanda, livro que demorei nada menos que
18 anos para terminar. Claro, acho que o livro ainda saiu incompleto. Não o
achei perfeito. Mas, no final das contas, terminei o interminável e lancei. E
as pessoas gostaram mais do que eu imaginava.
Fiquei semanas pensando qual era o saldo positivo disso. O
que seria? A resposta veio apenas hoje: coragem.
Nos últimos meses, eu vinha duvidando da minha coragem.
Sempre fiz questão de lutar contra o medo. Não o aceitava. Se sentia medo de
alguma coisa, aquele medo virava uma meta a ser batida. Confesso que, nos
últimos dois anos, achei que tinha perdido a coragem.
Mas o que diabos isso tem a ver com futebol?
Contra as indicações médicas, resolvi insistir em voltar ao
futebol. Com os joelhos estraçalhados, resolvi jogar como goleiro. Comprei
joelheiras e luvas. Nunca tinha comprado luvas de goleiro na vida. O motivo foi
ter machucado o dedo médio na semana passada.
Hoje, assim que coloquei a luva, uma pessoa (ainda não
gravei o nome de quase ninguém — que vergonha) chutou a bola por cima,
levemente, e eu, também levemente, levantei a mão em direção à bola, que bateu
exatamente na ponta do dedo médio, causando uma dor absurda.
O fato de o toque ter desviado a bola para a trave,
francamente, não valeu o esforço.
O dedo está doendo, e assim vai continuar a semana toda.
E, durante todo o resto da pelada, a bola não voltou a
acertar o dedo médio isoladamente nem uma vez. Ou seja, o azar de 2024 e 2025
ainda está presente.
Pelada normal. Falhei absurdamente com um passe errado na
saída do gol. A bola não pegou velocidade suficiente. Caiu no pé do atacante,
que só precisou escolher como ia chutar para o gol vazio.
Claro que não gostei de ter falhado. Mas o time não
reclamou. Eu também não achei o fim do mundo, pois, afinal, tentei inventar.
Isso faz parte. Tive coragem de tentar.
Mas o problema veio quando resolvi jogar na linha para ver
se aguentava. Foi nesse momento, depois de uma troca de passes, que recebi a
bola livre. Só eu e o goleiro, meu camarada João Vitor. Havia outro atacante do
outro lado. Seria perfeito se ele viesse e eu tocasse para ele. Mas, quando ele
se mexeu, o gol se abriu todo para mim.
Era só chutar.
E foi aí que tive
medo. Pois já tinha errado um chute, no caso um passe, antes. O João Vitor podia
defender. A bola poderia ir para fora.
Por covardia eu dei o passe (ruim). Não chutei. Era só
chutar. Era só ter coragem.
Mas foi aí que entendi.
A gente só entende o que é coragem quando sente realmente
medo. Quando o medo vence. E ali o medo venceu. Deixei de fazer um gol por
medo.
E é por conta disso — de um chute não dado por medo — que
passei a valorizar minhas tentativas. Fazer três disciplinas sem certeza se
teria dinheiro para ir e voltar. Se teria dinheiro para comer.
Não que meus parentes tenham me negado. Mas tive medo de
que, um dia, meu pai ou meu irmão parassem de pagar passagens e um sanduíche
com Coca-Cola toda semana. Afinal, não é obrigação deles me sustentar em meio a
avalanche de entrevistas de emprego que não deram certo, concursos que não
passei... Definitivamente, não é obrigação deles. Eu não tenho certeza de que vou compensar o sacrifício deles algum dia. E quando a gente tem um pouco de vergonha na cara, a gente pensa duas, três, quatro, dez vezes, antes de fazer uma conta para outra pessoa que você ama pagar.
Mesmo com medo, eu fiz. Eu enfrentei. Eu tive coragem.
Então, esse gol perdido por falta de um chute teve sua
serventia. Senti o gosto da covardia e, através dele, passei a valorizar mais
as vezes em que tive coragem de terminar e lançar um livro. Tive coragem de
fazer três disciplinas.
Agora é o ano de 2026. Não sei se vou acertar os chutes. Não
tenho garantia de nada. Mas o que fiz em um ano todo, no caso, em 2025, vou
fazer neste primeiro semestre: três disciplinas em três faculdades diferentes.
Ficou curioso?
Literatura, comunicação e cinema.
Sim, na prática, estou fazendo três doutorados de uma só
vez. Além disso, vou lançar Hegemonia: Vellanda no Rio de Janeiro, em
Volta Redonda e na Bienal do Livro de SP.
Tem que ter coragem para isso.
Apesar de ter “—", este texto foi escrito sem ajuda de
qualquer IA além do corretor do Word.
Clinton Davisson Fialho é jornalista, pós-graduado em
cultura africana e indígena, mestre em Comunicação pela UFJF e autor de seis
livros, sendo o último deles Hegemonia: Vellanda, sobre uma menina
neurodivergente.
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