sábado, janeiro 03, 2026

Diário de um peladeiro, o retorno. Temporada 2026.

 


Em 2024, eu disse que continuaria jogando futebol mesmo que fosse com um pé só. Era uma frase de efeito bonita. Poética, até. Mas os exames médicos — e o meu querido ortopedista — foram claros: perdi a cartilagem e fraturei a parte interna dos dois joelhos. Foram quatro meses só para desinflamar.

A sentença veio direta: eu teria que perder peso na academia e, depois de eliminar uns seis quilos, talvez pudesse atuar como goleiro. Jogar na linha, apenas com cirurgia.

Passou um ano. Não perdi peso. Frequentei a academia de forma irregular. A depressão pegou.

Vale lembrar que, antes da pandemia, eu estava na melhor forma da minha vida. Em 2019, fiz 45 gols. Em 2020, antes da paralisação, já tinha marcado 21. Mas isso foi há cinco anos. De lá para cá, cheguei à pior forma física que já tive. Dá para voltar? Ainda dá tempo?

Na semana passada, no último dia do ano, resolvi tentar de novo. Não voltar como antes, mas voltar como fosse possível. Ser goleiro, ao menos. Buscar um pouco de serotonina, adrenalina, vida.

O resultado animou — mas o joelho reclamou. Bastou uma agachada para a dor aparecer inteira. Ainda assim, fui razoável para um goleiro de pelada. Meu time ficou três jogos sem sofrer gols. Fiz boas defesas.

Insisti na semana seguinte, mas não fui à academia. Festas de fim de ano, né?

Agora, voltei. Sem pular, sem agachar, tentando jogar mais com a cabeça. Vieram alguns frangos, saídas de bola erradas. Mas o joelho aprovou.

Em certo momento, estava tão cansado que esqueci a cor da camisa do meu próprio time. Sim, dá para cansar muito mesmo no gol.

O joelho dói agora, como esperado. Mas dói menos que na semana passada. Esta semana, vou tentar voltar à academia.

Aos 54 anos, sigo usando o futebol para combater a depressão e enfrentar a inércia. Para esquecer 2025 — um ano em que plantei muito: dois doutorados, um livro lançado. Ainda falta fazer mais lançamentos, divulgar, ver como ele vai se sair na temporada de premiações. 

Falta respirar fundo e voltar à luta. E, para isso, preciso me mover. Preciso entrar em campo — nem que seja no gol.

 

Clinton Davisson Fialho é jornalista, escritor, roteirista e autor de seis livros. Tem pós em cultura africana e indígena e mestrado em narrativa em novas tecnologias.

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