Em 2024, eu disse que continuaria jogando futebol mesmo que
fosse com um pé só. Era uma frase de efeito bonita. Poética, até. Mas os exames
médicos — e o meu querido ortopedista — foram claros: perdi a cartilagem e
fraturei a parte interna dos dois joelhos. Foram quatro meses só para
desinflamar.
A sentença veio direta: eu teria que perder peso na academia
e, depois de eliminar uns seis quilos, talvez pudesse atuar como goleiro. Jogar
na linha, apenas com cirurgia.
Passou um ano. Não perdi peso. Frequentei a academia de
forma irregular. A depressão pegou.
Vale lembrar que, antes da pandemia, eu estava na melhor
forma da minha vida. Em 2019, fiz 45 gols. Em 2020, antes da paralisação, já
tinha marcado 21. Mas isso foi há cinco anos. De lá para cá, cheguei à pior
forma física que já tive. Dá para voltar? Ainda dá tempo?
Na semana passada, no último dia do ano, resolvi tentar de
novo. Não voltar como antes, mas voltar como fosse possível. Ser goleiro, ao
menos. Buscar um pouco de serotonina, adrenalina, vida.
O resultado animou — mas o joelho reclamou. Bastou uma
agachada para a dor aparecer inteira. Ainda assim, fui razoável para um goleiro
de pelada. Meu time ficou três jogos sem sofrer gols. Fiz boas defesas.
Insisti na semana seguinte, mas não fui à academia. Festas
de fim de ano, né?
Agora, voltei. Sem pular, sem agachar, tentando jogar mais
com a cabeça. Vieram alguns frangos, saídas de bola erradas. Mas o joelho
aprovou.
Em certo momento, estava tão cansado que esqueci a cor da
camisa do meu próprio time. Sim, dá para cansar muito mesmo no gol.
O joelho dói agora, como esperado. Mas dói menos que na
semana passada. Esta semana, vou tentar voltar à academia.
Aos 54 anos, sigo usando o futebol para combater a depressão
e enfrentar a inércia. Para esquecer 2025 — um ano em que plantei muito: dois
doutorados, um livro lançado. Ainda falta fazer mais lançamentos, divulgar, ver como ele vai se
sair na temporada de premiações.
Falta respirar fundo e voltar à luta. E, para isso, preciso
me mover. Preciso entrar em campo — nem que seja no gol.

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