domingo, agosto 29, 2021

Reflexões da insônia

 


Quando eu era criança, eu tinha medo de fantasmas. Passei o ensino fundamental todo praticamente sem entrar no banheiro da escola com medo da loura do banheiro. Até em casa eu obrigava meu irmão mais novo a ir ao banheiro comigo com medo de alguma coisa terrível que poderia aparecer. Ia ao banheiro de porta aberta, mas com medo dela se fechar de repente e aquela coisa me pegar.

Hoje na vida adulta eu tenho saudade daqueles fantasmas. Sinto falta deles. Porque ao menos com a presença de um adulto, o fantasma não aparecia. E eles não me atormentavam o dia inteiro, só quando eu ia ao banheiro. Quando adultos os nossos medos são piores e os pesadelos acontecem quando estamos acordados. E as inseguranças nunca, nunca vão embora.

Os medos são diferentes e muito mais assustadores. Medo de não ser bom o suficiente. Medo de não conseguir proteger as pessoas que amamos. Medo de decepcionar as pessoas que amamos. Mas o maior medo é de decepcionar aquela criança que nós fomos algum dia e muitos anos atrás tinha medo de fantasmas, mas acreditava que teria no futuro, uma vida feliz, que seria uma boa pessoa e que mudaria o mundo.

Reflexões da insônia - Rio das Ostras, 30/08/021


Clinton Davisson é jornalista, professor e mestre em Comunicação. Autor de quatro romances, entre eles o sucesso Hegemonia - O Herdeiro de Basten.

 

quarta-feira, março 24, 2021

O Franco Atirador (The Deer Hunter), 1978



25 de dezembro de 1979 / 3h 03min / Drama, Guerra

Direção: Michael Cimino

Elenco: Robert De Niro, Christopher Walken, Meryl Streep e Jo
hn Cazales. 

Título original The Deer Hunter


Um grupo de amigos de uma cidade pequena fazem uma festa de casamento cheia de tensões emocionais, mas com muita alegria e inocência. Dos quatro rapazes presentes, três estão para partir para a Guerra do Vietnã sem ter a menor noção do inferno que os aguarda. Quando voltam todos estão de alguma forma marcados para sempre no corpo e na alma pelo conflito, mesmo quem não foi, não sairá ileso.

Talvez tenham sido as quase três horas de meia de duração que explicam por que nunca vi O Franco Atirador do começo ao fim. Sua montagem costuma dar saltos e a narrativa foge de modelos convencionais o que torna fácil você se perder sobre o que está acontecendo no filme quando você é aquele espectador que passa de vez em quando na sala se o filme está na tevê. Trata-se, enfim, de um filme para ver focado, para se prestar atenção nos detalhes. E se manter focado por três horas e meia é complicado quando se é adolescente. Tenho quase certeza de ter visto o filme com amigos em VHS, mas se vi, eu não tinha estrutura ainda para digerir.

Para mim, sempre foi o “Filme da roleta russa”, porque suas cenas de mais tensão envolvem este mórbido jogo onde se coloca uma bala no tambor de um revólver para depois girar e atirar na própria cabeça para ver se você tem sorte ou se vai morrer.

De fato, o filme influenciou toda uma “moda” que percorreu os anos 80. Eu lembro de notícias de pessoas no Brasil e de fora que morreram “praticando este esporte” na época. E realmente em certo momento O Franco Atirador parece girar em torno de como este jogo afeta os personagens que são obrigados a praticá-lo no campo de prisioneiros no Vietnã como forma de tortura, mas que depois, ao menos um deles, parece desenvolver certo fetiche pela prática.

É um daqueles casos em que nos perguntamos: este filme seria cancelado nos dias de hoje? Resposta: não sei. Não importa.

Mas ontem, finalmente, depois de uma queda de duas horas na internet, resolvi que já era hora de encarar e ver o que este filme tinha de tão bom. Devo confessar que, tanto o tempo de filme, quanto a intensidade das cenas, fazem de O Franco Atirador, um dos filmes de guerra mais imersivos e densos já feitos. Mas o diretor Michael Cimino parece manter a câmara afastada dos atores dando às vezes um ar documental ao filme. Os personagens não exalam nenhuma qualidade ou simpatia que nos faz torcer por eles. São gente comum, mas esquisita o suficiente para mantermos certa distância empática. Como se assistíssemos a um documentário intenso, sobre pessoas reais, mas não há um buraco confortável como um Harry Potter ou um Luke Skywalker do qual podemos assistir ao filme. O fio condutor é Michael, personagem de Robert De Niro, mas ele não é nenhum mar de simpatia. Não é alguém com quem gostaríamos de cruzar o caminho, não é um personagem confortável. E se, só vamos realmente compartilhar seus sentimentos e seu desespero nos minutos finais, isso é parte da genialidade do filme, do roteiro, do diretor e do tremendo ator que é Robert De Niro.

O título original é um caso a parte. Já que O Caçador de Veados causaria certa confusão com os títulos das pornochanchadas brasileiras da década de 70. Piadas a parte, o correto seria o Caçador de Alces, ou O Caçador de Cervos. É bom lembrar que, ao diferente do que acontece no Brasil, os americanos não veem no veado nenhuma conotação homofóbica. Ao contrário, é um dos símbolos mais poderosos de virilidade, sendo sua caça um esporte praticado por nobres e sua carne muito apreciada.

O animal em questão é usado em diversas metáforas na narrativa. Os amigos se reúnem para caçar antes de ir para guerra e logo depois do casamento. E ali, continuamos a entender melhor a personalidade de cada um.  Eles voltam com um alce morto por Michael (Robert De Niro) amarrado na parte da frente do carro. Mais tarde, Michael coloca o Steve ferido também na parte da frente de um carro no meio da guerra. Quando volta a caçar depois da Guerra, Michael se recusa a abater o alce. Como se agora houvesse uma identificação do caçador com a caça, ou porque atirar em outro ser, mesmo que para se alimentar, tenha ganhado outro significado agora.

 A história é centrada em Michael (Robert De Niro) e sua relação com os amigos Stan (John Cazale), Steven (John Savage), Nick (Christopher Walken) e Linda (Maryl Streep). Todos com atuações impecáveis e densas que conseguem nos fazer entender os personagens ao mesmo tempo que nos deixam sempre com uma dúvida do que realmente está acontecendo na cabeça deles.

Ficamos com uma sensação de imprevisibilidade e confusão. No começo, são sonhadores, imaturos e inconsequentes. Logo depois, são jogados na guerra em uma situação de realismo e violência visceral. Em um corte abruto, já estamos no meio da guerra, com atrocidades acontecendo para lá e para cá. Novo corte e Michael, Nick e Steven dividem uma cela de bambu mergulhada em um rio sujo, entre ratos e cadáveres. É quando chegamos a nossa famosa sequência de Roleta Russa que é usada como forma de tortura psicológica pelos vietcongs para com seus prisioneiros.

Michael e Nick conseguem se empoderar daquela tortura de tal maneira a usá-la como forma de escapar do campo de prisioneiros e resgatar Steven. Entretanto, este empoderamento cobra seu preço. Mesmo as balas que o revolver não dispara em suas cabeças, parecem penetrar fundo no seu subconsciente e rasgar suas almas.

Durante a fuga, um helicóptero americano consegue resgatar Nick, mas Michael e Steven caem do veículo o que acaba deixando Steven paraplégico.

Michael volta para casa e reencontra Linda. Mas tem dificuldades de se adaptar a antiga vida. Os dois tentam manter um romance, mas Michael não esquece a guerra e quer saber onde estão os amigos. Ele parece ter se tornado a personificação do veterano de guerra totalmente desprovido de emoções ou ilusões em relação a guerra. Mesmo assim, ele vai a todos os lugares vestindo seu uniforme e exibindo suas medalhas, provas concretas e palpáveis de um orgulho que ele mesmo não parece sentir. Como se elas camuflassem todos os horrores e traumas que passou.

Michael vai buscar Steven que se recusa a voltar agora sem pernas, preferindo ficar no hospital. Mas descobrem que uma grande quantidade de dinheiro chega regularmente para ele vindo de algum lugar do Vietnã. Michael, então, deduz que o dinheiro vem de Nick e volta ao Vietnã para buscá-lo. O desfecho é brutal, com Nick se “profissionalizando” como um “atleta” da Roleta Russa. Ele não consegue reconhecer Michael apesar de seus apelos e em uma tentativa desesperada, Michael aceita jogar mais uma vez com Nick na esperança de tirá-lo daquele transe e trazer ele de volta para casa.

Dedo na ferida

Além de um filme poderoso, O Franco Atirador foi lançado em 1978, apenas três anos após o fim da Guerra do Vietnã. Chegando na hora certa de mostrar os estragos psicológicos e físicos que a guerra havia causado na sociedade norte-americana, algo que, hoje, em 2021 ainda dói no imaginário coletivo desta sociedade. Até então, os filmes de guerra celebravam a bravura, o heroísmo e o triunfo daquela sociedade. A guerra do Vietnã já era criticada duramente na mídia em outras obras, como M.a.s.h (filme e série de tevê que se passavam na guerra da Guerra da Coreia, mas claramente faziam alusões ao Vietnã). Mas a crueza visceral de O Franco Atirador abriu caminhos para obras que se permitiram ser mais violentas e perturbadoras. Até então, morrer e perder a perna por seu país era retratado no cinema como uma grande honra. Veteranos eram heróis. Agora, se questionava: o que a nação havia feito por aqueles heróis? Fora o grande conflito travado em campos midiáticos na época questionando a legitimidade daquela guerra e o tratamento dado aos veteranos.

Mais do que questionador, O Franco Atirador é um soco no estômago que funciona tanto como estudo de personagem, filme político, ação e, claro, filme de guerra. As atuações também não ficam atrás. Vemos Robert De Niro, Christopher Walken e Maryl Streep no melhor de sua forma.

Não é à toa ganhou os Oscar de melhor filme, diretor, edição, som e melhor ator coadjuvante para Christopher Walken numa das melhores atuações da sua vida.

Digno de nota, foi o último filme de John Cazale, então marido de Maryl Streep, que estava com câncer terminal durante as filmagens, portanto suas cenas foram filmadas antes. Robert DeNiro – reza a lenda – peitou os produtores que queriam tirar o moribundo ator do filme. Alguns dizem que pagou o cachê de Cazales do próprio bolso. De Niro, nega. Cazales morreu antes do filme estourar como grande sucesso. Ao todo, o ator fez pouco mais de 5 filmes, mas todos indicados a mais de 42 prêmios. Todos indicados ao Oscar, sendo três deles vendedores.

Sim, até nos bastidores, O Franco Atirador é visceral.

Talvez por isso, eu não tenha digerido o filme nas dezenas de tentativas de ver na adolescência. Talvez tenha visto, mas não tenha digerido completamente. Me faltava ter passado por experiências semelhantes aos dos personagens. Eu ainda estava no paraíso e pouco, ou nada, sabia do que era o inferno. Ainda não tinha tido uma arma apontada para a minha cabeça, muito menos visto gente morrendo... (sou jornalista, só para esclarecer).

Assim, temos um filme sobre seres humanos que saem do paraíso para terem seus corpos e almas dilacerados no inferno para, depois, descobrir que voltaram para uma espécie de purgatório desconfortável e ao qual precisam se readapatar. 

O fato é que na vida todos nós temos um pouco daqueles caçadores de alce. Começamos a vida cheia de ilusões, desejos e nos sentimos invencíveis. E em algum momento, a vida nos rasga, nos dilacera e temos que passar o resto dos nossos dias carregando e tentando superar essas marcas no nosso corpo e em nossas almas.

Uma obra que andava esquecida, mas que merece estar no patamar de outros clássicos que precisam ser vistos e revistos várias vezes. Fica a dica! Mas se prepare, porque machuca.

 

Clinton Davisson Fialho é jornalista, escritor, roteirista e vai voltar para a academia depois da pandemia. É formado em jornalismo, tem pós em cultura africana e indígena e mestrado em narrativa em novas tecnologias. Publicou quatro livros mas o quinto está no forno.

 

 

 

 

 

quinta-feira, janeiro 14, 2021

Antes que ela vá, 2017 de Matheus Benites

Drama juvenil minimalista passeia pelas ansiedades do amor

 

Um casal adolescente típico da Barra da Tijuca, região nobre do Rio de Janeiro, vive um namoro tranquilo até que ela anuncia que em seis meses irá se mudar para a França. Diante do conflito e das inseguranças que envolvem a situação, eles tentam levar a coisa da maneira mais saudável possível, mas ninguém é perfeito.



Que pensou em white people problems, está certo. São jovens brancos héteros, bonitos e com situação financeira confortável. Entretanto, apesar da saudável e necessária abertura que o cinema mundial e principalmente o Hollywoodiano vem dando a filmes que abordam problemas de minorias, é sempre bom saber que há espaço para todos. O Brasil não é só miséria, fome e violência. O rótulo de “filme de um casalzinho adolescente burguês” pode até se encaixar perfeitamente no filme de Matheus Benites, mas não o desqualifica como obra e nem ofusca seus méritos que são muitos.

O jovem diretor realizou a produção juntando R$ 12 mil com campanhas de Financiamento coletivo e fez um filme sensível, com ótimos diálogos, boas interpretações e que aborda um tema universal: a natureza dos relacionamentos humanos.

Embora os protagonistas interpretados por Gabriel Antunes e Maria Clara Parente sejam adolescentes, a natureza dos temas abordados: ciúmes, fidelidade, inseguranças, sexualidade, preocupação com o futuro, são inerentes a pessoas de todas as idades. Quem pensa o contrário deveria furar a bolha e prestar atenção em relacionamentos de idosos por exemplo. Vai por mim, meus pais fizeram Bodas de Ouro ano passado...

O filme lembra um pouco a trilogia Before de Richard Linklater, que mostra o relacionamento de um casal durante fases distintas separados por nove anos, sendo que cada filme foi produzido nove anos depois do outro. Fica aí a sugestão para o diretor de juntar o casal de atores daqui a dois ou três anos, quem sabe?

Com apenas dois atores em cena na sua uma hora e dez minutos de duração, o filme se sustenta nos diálogos naturalistas e na química do casal de atores. Sabemos que, ao se mudar para a França, a relação deles fatalmente irá se alterar e, provavelmente, vai acabar. Cada um deles está lidando com isso internamente e transmite para o outro o que seria a ponta do iceberg de seus dilemas, suas angústias e suas resoluções.

Com diálogos aparentemente banais, vamos entendendo a visão de mundo de cada um. As semelhanças e diferenças vão aparecendo. A química do jovem casal é impressionante. Gabriel Antunes e Maria Clara Parente fazem uma interpretação naturalista e provavelmente trouxeram para o texto experiências pessoais, tanto que estão ambos creditados no roteiro, algo muito semelhante ao trabalho de Linklater na trilogia Before.

O filme não é livre de problemas. A pobreza da produção pode ser vista principalmente na fraca captação de som que torna difícil, às vezes, entender o que os atores estão falando, principalmente na cena de abertura na praia. Ficamos sentindo uma falta de um desfecho mais consistente no terceiro ato. A impressão que se tem é que cenas importantes foram perdidas e a edição teve que se virar nos trinta depois.

Em compensação a fotografia é sempre criativa, tem ideias sempre inventivas para não deixar um filme de diálogos algo totalmente estativo e maçante.

O resultado é um filme sobre adolescentes que sai do lugar comum e nos convida a conhecer quase em tempo real, algumas horas de dois personagens com os quais nos identificamos e nos envolvemos.  “Antes que ela vá” consegue nos passar um pouco da angústia de quem sabe que seu romance tem data marcada para acabar. Aprendemos com eles que aquilo não é o fim do mundo e que eles devem aproveitar aquilo de bom que sua relação tem enquanto podem. Assim, através de dois adolescentes, entendemos que todos os romances de certa forma também são assim, a vida é assim. Não posso dizer com certeza se esta era a intenção do diretor, mas fica a dica de um filme que consegue nos passar uma mensagem profunda sem soberba, sem pretensões e de maneira leve. Agora é torcer para que o casal aproveite o tempo que vão ter juntos. É o mesmo que todos nós deveríamos fazer.

 

Clinton Davisson é jornalista e escritor, pós-graduado em educação e mestre em comunicação e doutorando em comunicação. Autor de quatro livros, entre eles, a premiado Hegemonia – O Herdeiro de Basten.