domingo, agosto 31, 2025

Fragmentos da memória nas linhas do meu DNA

 



Não, não tem nenhum truque nas fotos. Ambas sou eu em fases distintas da minha vida. Essa foto, junto com meu exame de DNA, me trouxe muitas reflexões. 

Sempre soube que tinha ancestrais africanos e indígenas, e mesmo no século passado, quando isso era visto como um problema, eu sentia orgulho disso. A surpresa veio quando fiz um exame de DNA: não foram os 20% africanos, mas os apenas 5% indígenas, pois eu jurava que seria muito mais. Descobri também 20% de ascendência italiana, embora “Fialho”, apesar da sonoridade, seja um sobrenome 100% português. No restante, 39% ibérico, como era de se esperar.


No fundo, sou um típico caramelo brasileiro: fruto de misturas, encontros, tragédias e sobrevivências.


A ironia é que, nos séculos passados, a ciência europeia defendia a ideia de uma suposta “superioridade do sangue puro”. Hoje, precisamos ter cuidado ao discutir esse conceito, não para reforçar uma visão depreciativa de nós, “vira-latas”, mas porque existe uma verdade sedutora nisso: indivíduos com genética diversa muitas vezes são mais fortes, mais resistentes. Basta olhar nossos cães Caramelos, que vivem longos anos, necessitam de menos vacinas, menos visitas ao veterinário. Mas esse raciocínio nos leva a um terreno perigoso: a eugenia, que nunca esteve certa no passado e não vai estar agora.


A grande lição que tiro disso tudo é que devemos valorizar o que nos faz únicos. “Superioridade” é um conceito subjetivo e ilusório. O que me fascina é imaginar a vida dos meus ancestrais:

A ansiedade de quem deixou a Itália em busca de um novo mundo.

O terror de quem foi arrancado da África e lançado em um navio negreiro.

As mortes que atravessaram essas linhas do tempo, e os que as causaram.

As dores, as paixões, os pequenos momentos de alegria.


Há séculos de histórias escondidas nos nossos genes. Uma sequência interminável de acasos, escolhas, violências e esperanças que culminaram na pessoa que sou. Gosto de acreditar que todos eles estão vivos em mim, em algum lugar. E que são eles que, silenciosamente, me movem.


#afrodescendencia #ancestralidade #identidade #origens #orgulhoancestral #historiafamiliar #diversidadecultural #autoconhecimento #povosindigenas #diadeafirmacao #memoriaancestral #herancacultural

domingo, outubro 13, 2024

Diário de um peladeiro 2024, parte 4 – Issac Newton e os joelhos de Nietzsche


O empoderamento da dor, ou a valorização do sofrimento como parte essencial do crescimento humano, é um tema central na obra de Friedrich Nietzsche, especialmente em Assim Falou Zaratustra e A Genealogia da Moral. E já que estamos citando Nietzsche, vale também citar Newton: O enunciado da Terceira Lei de Newton (Princípio da Ação e Reação) é descrito da seguinte forma: “A toda ação há sempre uma reação oposta e de igual intensidade: as ações mútuas de dois corpos um sobre o outro são sempre iguais e dirigidas em sentidos opostos.”

Pois é, os três gols da semana passada cobraram um preço. Os joelhos carregando 99kg durante uma pelada de uma hora de duração em futebol de salão não ficaram exatamente contentes. Se toda ação tem uma reação, a minha consequência é que meus joelhos doeram a semana toda. Inclusive na academia. Passei a fazer só 15 minutos de esteira, os outros 15 de bicicleta para poupar os joelhos, mas a dor continuou.

Chegou sábado, eu evitei fazer qualquer movimento mais elaborado. Corri, acho que até chutei a gol, mas não lembro de ter dado um passe para gol, sequer. Gol então, nem pensar. Acho que ao invés de jogar futebol, eu fiz um spining elaborado na quadra. Mesmo assim, cheguei em casa com os joelhos estalando do dor.

Hoje, domingo, 13 de outubro, teve a entrega do manto sagrado do Furabola FC, nosso querido Mustela. Dei dois passes para gol, um eu lembro que foi para o Renan, que, aliás, acreditem, tem 15 anos, contra meus 53, é como usar um Uno (eu) disputando contra um Fórmula 1(ele).  Gostei também de ter armado ao menos três jogadas que terminaram em gol. Fiz um gol com um passe açucarado do Ramon, só precisei escolher o canto do gol e chutar de chapa à direita. E um de rebote, também de direita. O Gabriel jura que fiz um gol chutando de fora da área, sim, foi um chute lindo de Trivela, mas que eu me lembre, essa bola foi para fora. Gabriel que hoje fez 4 gols, um deles de cabeça quando eu estava de goleiro. Aliás, tomei mais gols hoje que o Julho Cézar na Copa de 2014, dois deles com falhas grotescas minhas ao sair a bola de foram errada, mas vida que segue.

 Forma física

Já entendi que eu preciso me aquecer antes. No começo da pelada eu fico sem fôlego, a cabeça não processa nada. A ansiedade tenta me tirar a concentração, mas é para isso que a gente insiste em jogar futebol, porque é o melhor meio de controlar a ansiedade. Desacostumado com o salão, a bola corre muito. O domínio de bola é diferente. Mas vai chegando no final, tá todo mundo cansado e eu tô lá ligado no 220v. Se eu tivesse uns cinco quilinhos mais magro, dava para arriscar mais. De semana passada para cá, perdi 2kg, o que é bom, mas correr com 97kg, sendo que 15 deles na barriga, não é nada bom. Só é pior que ficar em casa depressivo. A escolha então é fácil.

Mas é isso. Amanhã vou ao médico para resolver como fazer as pazes com o joelho e continuar emagrecendo. Porque se parar de jogar, é pior. Prefiro mil vezes a dor no joelho à depressão. Assim como Nietzsche via no empoderamento do sofrimento como o caminho para a transcendência pessoal, o autor deste diário vê no futebol o meio para manter sua saúde mental e espiritual, mesmo que isso venha ao custo de dores físicas. É essa relação com a dor que o fortalece, fazendo com que, ao final, ele sinta que a superação é não só possível, mas necessária.

 

 

 

Saldo 2024  

 

7 jogos

10 gols

9 assistências

 

Clinton Davisson Fialho é jornalista, com pós em cultura africana e indígena e mestrado em novas tecnologias de comunicação. Autor de cinco livros dos gêneros ficção científica e terror, vai lançar o sexto ainda este ano, intitulado Hegemonia I – Vellanda.

sábado, outubro 05, 2024

Diário de um Peladeiro 2024 – parte 3 - Dois em um.

 Esse texto é mais longo porque abrange duas peladas. Mas vamos lá.

No ápice de uma semana de bosta. Perdi a data da inscrição no doutorado da Facom (eu queria mesmo o de cinema, mas este era obrigatório não esquecer, mas eu sou uma droga de um autista com TDAH e com um pico de depressão), porque eles resolveram adiantar em dois meses a data da inscrição. Resta o Doutorado de cinema em Juiz de Fora e de Comunicação na UENF. Briguei com os gêmeos também por causa da depressão, agora são três filhos que não falam comigo. Perfeito! A cereja no bolo foi que eu tinha planejado um pequeno curta metragem para filmar semana passada, arrumei equipe, equipamento, roteiro pronto, dava para filmar as cenas em um dia, mas a atriz ficou doente. O tempo que eu tinha era só aquela semana. Filmar alguma coisa agora só ano que vem. Enfim, semana de fezes, para usar um termo mais polido.


E foi com este espírito que fui ao jogo do dia 28 de setembro, sábado passado. Fui me arrastando. Realmente estava muito deprimido e chateado. Mas fiz este esforço porque ficar em casa é pior. Corri meio desajeitado como sempre, mas dei dois bons passes para gol. Chutei duas vezes com perigo, mas não rolou nenhum gol. Voltei mais desanimado do que quando fui. A única coisa boa é que a bola que eu comprei lá em Brasília, quando ainda era rico, passou a ser usada na pelada.

Mas o planeta gira, né?


Ao contrário da semana passada que teve uma série de acontecimentos lamentáveis, esta semana começou bem.  Segunda-feira fui à médica levar alguns exames e apesar da gordura no coração, ela falou que o risco de infartar em campo é zero. Que eu tinha que me preocupar mesmo com o fígado. Este sim, tem gordura demais. Peguei firme na academia. Fui 4 dias seguidos. Perdi 2kg. Ainda não abri mão da Coca-Cola. Não tá na hora ainda. Além da academia, peguei firme no projeto de doutorado, tanto de cinema, quanto para a UENF, interrompi apenas porque chegou a reta final de mandar o livro novo para a editora. E posso dizer que suei mais nesta reta final do livro do que na academia. O livro final tinha um total de 97 mil palavras. Algo que há dez anos atrás seria bom, mas que hoje, com o preço do papel muito exacerbado, não é bom negócio. As pessoas pagam R$ 50 felizes por um combo no McDonalds, que fica pronto em cinco minutos (dependendo da filial do McDonalds que você vai), mas reclamam de pagar R$ 50 em um livro que demorou 12 anos para ser escrito. E me refiro ao livro anterior, o premiadíssimo Baluartes. Imagina o de agora, um drama de hiperfantasia e ficção científica hard, sobre uma menina autista com TDAH? E sabendo que o livro não deve sair por menos de R$ 60? Não adianta falar que este eu demorei nada mais nada menos que 16 anos para escrever. O tempo que o Tolkien demorou para escrever O Senhor dos Anéis, mas a comparação é injusta porque eu abandonei este livro por anos e depois voltava e abandonava de novo. Então, não, não sou Tolkien.

Mas enfim, peguei pesado esta semana para terminar o livro conforme orientação da editora, que por sinal, é a mais profissional com a qual já lidei. E a primeira que tem um profissional para atuar como editor de verdade. Ele me aconselhou entre outras coisas deixar com no máximo 90 mil palavras. Ou seja, eu tinha que sumir com 7 mil palavras. Apontou onde exatamente eu poderia cortar. Eu pensei por meia hora, fui lá e cortei. Depois fiquei uma semana enxugando a história e, ao mesmo tempo, revendo se havia ficado buracos. As cenas de batalha final, estavam grandes e confusas. Não sei os outros escritores, mas eu quando escrevo uma cena de batalha, parece que estou lá dentro, vendo tudo com minha câmera e tentando registrar e escrever o que vejo. Foi preciso me distanciar um pouco e reescrever. Deixar as coisas mais claras. Resultado, mesmo acrescentando coisas e mais o prefácio, o livro ficou com 10 mil palavras a menos. Total 87 mil palavras, com direito a um dicionário de uma língua que inventei para os dragões (não sou Tolkien, mas também crio idiomas).

Com isso, livro terminado e entregue, academia em dia, carteirinha de autista chegando pelo e-mail (será que vou andar de ônibus de graça?), e o remédio novo para depressão finalmente fazendo efeito, parti hoje, sábado, 5 de outubro de 2024, em direção ao futebol com a certeza de que iria chegar lá igual o Thor chegou a Wakanda em Vingadores - Guerra Infinita.

Ah, ledo engano. No começo eu me senti mais cansado do que antes. A musculação demora a fazer efeito e na prática, meus músculos estavam eram mais duros. A agilidade estava pior que antes, que já era ruim. Puxava o ar e ele não vinha. Cheguei a pensar em ir embora. Mas aí, algo aconteceu. Eu comecei a me sentir melhor, a respirar melhor e a correr mais. Acho que tive umas 10 chances de gol, bem diferente da semana passada quando tive umas duas que não aproveitei. O primeiro gol veio de um rebote que peguei uma bomba de esquerda, o goleiro não conseguiu segurar. Se fosse meu amigo, Igor Sardinha, iria ter calma de mirar onde o goleiro não estava. Mas ele é craque, eu não sou. Meti uma bomba de esquerda. Golaço.

O segundo veio de um passe perfeito da direita. Novamente peguei de esquerda, lindo gol, mais pelo passe. Eu só tive o trabalho de escorar. O terceiro não foi bem um passe, acho que foi um chute mal dado para a esquerda do goleiro que já ia caindo para aquele lado, eu desviei a bola com a ponta do pé (direito) para o lado oposto. Bola de um lado, goleiro de outro.

Sim, hoje bati o recorde, fiz três gols e vou pedir música no Fantástico. Não quer dizer que foi uma atuação de gala. Ainda não me reacostumei com o futebol de salão, apesar de ter passado muitos anos jogando, tanto em Barra Mansa (a gente jogava com bola de campo), quanto em Juiz de Fora no saudoso Guanabara no Alto dos Passos. Mas meu joelho reclama.

Como eu disse, não foi atuação de gala. Eu tentei mais coisas justamente para me testar. Por isso mesmo errei muito mais. O equilíbrio ainda tá horrível. E quanto tentei acompanhar um jogador na corrida que tinha 30 anos a menos que eu, foi um desastre. Mas só vou ter uma noção real de como estou realmente depois que voltar aos 85 kg. E faltam 15 kg ainda para chegar lá.

Enfim, uma semana realmente boa. Aniversário da filha, consegui escrever uma coisa legal para ela que voltou a falar comigo. Livro terminado. Três gols. Falta agora terminar o projeto de doutorado. Vai ser uma semana muito difícil. Já tenho todos os livros que preciso ler e mais alguns. O tema está quase definido, mas sinto que preciso estudar mais a linha de pesquisa dos orientadores. Então é isso, vamos para cima!

 

Saldo de 2024

5 jogos

8 gols

6 assistências

 

Clinton Davisson Fialho é jornalista, com pós em cultura africana e indígena e mestrado em novas tecnologias de comunicação. Autor de cinco livros dos gêneros ficção científica e terror, vai lançar o sexto ainda este ano, intitulado Hegemonia I – Vellanda.

 



sábado, setembro 21, 2024

Diário de um peladeiro 2024 – Capítulo 2

 Deus pode estar morto, mas a depressão ainda insiste em continuar viva



Quem conhece a vida do filósofo Friedrich Nietzsche, aquele que mostrou que o homem criou Deus, e não o contrário, sabe que as constantes dores que ele sentia. Provavelmente era uma sequela de sua participação na Guerra Franco-Prussiana, que ocorreu entre 1870 e 1871, o conflito entre o Império Francês e o Reino da Prússia, que resultou na derrota da França e na unificação da Alemanha. As dores no corpo e principalmente na cabeça ajudaram a criar o conceito de se empoderar da dor. Grande parte da genialidade de seu trabalho vem de sua relação com a dor. Digo isso porque hoje eu sou todo dor. Sem querer me comparar com o Belchior germânico matador de deuses e criador do conceito de “super-homem” que sua irmã Elisabeth distorceu depois de sua morte para ajudar a criar um certo regime que apareceu na Alemanha em meados de 1935... O fato é que em 2024 tem sido o ano da dor. Dor física, dor mental, dor da alma... Solidão, sensação de abandono, fracasso, tristeza... Já tive depressão antes, mas em 2024 ela virou uma constante. Assim, como Nietzsche, estou tentando passar isso para uma obra literária que está praticamente pronta. Meu quarto romance, uma ficção científica sobre uma menina autista em um futuro muito distante...

Semana passada eu fui para Macaé City, minha cidade adotiva. Lançamento de livro bombando de gente, fiz palestra, dei entrevistas, muitos livros autografados e, por que não? Um joguinho de futebol com meus amigos Samuca e Glauco. Preferi não entrar no jogo em si, porque era um daqueles jogos oficiais. Mas brinquei antes e, sim, fim um gol. Testei três chutes de esquerda que deram trabalho para o goleiro. Na quarta oportunidade, dei uma de Inigo Montoya (do clássico A Princesa Prometida) e surpreendi o goleiro mostrando que não sou canhoto. Soltei um petardo e a bola bateu nas duas traves antes de entrar. Voltei de Macaé dividido. Vontade de voltar a morar lá. Mas há coisas para fazer em Juiz de Fora ainda. Há coisas para resolver na minha cabeça ainda.



Passei a semana me recuperando da viagem e planejando um curta metragem. Sim, vamos fazer cinema, por que não? Achei minha atriz principal, a bela Monise Glatzl, que me fez uma proposta para treinar no estúdio dela. Talvez façamos uma parceria aqui no Blogg. Arrumei equipamentos de filmagem com meu quase sócio Gilmar David, escrevi o roteiro, arrumei dois assistentes e falta uma maquiadora.

Fora do mundo cinematográfico, ainda falta eu terminar de revisar o Vellanda, o próximo livro e mandar para editora em definitivo. Estou trabalhando na capa com o Matias Streb, o eu novo capista oficial ninja! Falta pegar firme nos estudos do doutorado e, principalmente, falta bater de frente com essa depressão. Para isso, minha maior arma é o futebol.

Hoje teve jogo de uma hora e meia no Mustela. Lembrando que o nome do meu time é Mustela Putórius Furo, o Furão, em homenagem a qualidade de seus jogadores. Lugar perfeito para mim.

Não é que meu time venceu os quatro primeiros jogos logo de cara? E ainda por cima com dois gols meus. O primeiro foi aquele de artilheiro oportunista em que a bola vem chorando na cara do gol e eu estava no lugar certo, na hora certa. No segundo eu estou reaprendendo a jogar futebol de salão e tasquei um porradão de bico de fora da área que entrou no cantinho. Indefensável. Ainda dei ao menos uma assistência estilo Zico: “Faz meu filho!”. Foi lindo, a bola veio e time adversário veio todo junto para o meu lado. Eu consegui dominar e ir para lado oposto, pegando o time no contrapé e dando o passe de esquerda para um golaço. Ainda estou reaprendendo alguns macetes. Tentei chutar de bico de longe, de tênis, duas vezes e foi horrível. Mas a gente aprende.

Pobre depressão, ela não tem como concorrer com o Mustela. Mas precisamos fazer uns ajustes. Estou ainda carregando 100kg no meu corpo a cada jogada. Deve ter uns 20kg só na barriga. Percebi que fortaleci as pernas, os joelhos não estão doendo tanto. Aliás, quase nada, até porque ganhei um tênis novo do meu irmão, é top de linha. Agora é aguentar a dor de cabeça (dei um passe lindo de cabeça hoje também) e o corpo todo. Passei no mercado, comprei uma caixa de um litro de água de coco e tomei toda de uma vez com gelo. Depois dormi a tarde inteira, com direito a grandes quantidades de analgésicos.

Se tudo correr bem, semana que vem, devo chegar mais inteiro ao Mustela no sábado com a ajuda da Monise. E vamos ver como vão ser as filmagens no domingo.

Acho que esta semana, a depressão vai levar uma coça, porque, afinal, depois de tudo que ela fez comigo, eu ainda estou vivo. E com diria Nietzsche, o que não me mata, me torna mais forte.

 

Saldo de 2024

Três jogos, cinco gols, quatro assistências.


Clinton Davisson Fialho é jornalista, com pós em cultura africana e indígena e mestrado em novas tecnologias de comunicação. Como escritor é autor do clássico Fáfia, o jogador do futuro, do sucesso Hegemonia – Herdeiro de Basten, adotado como paradidático nas escolas do estado do Rio de Janeiro e agora do terror premiado Baluartes – Terra Sombria. Para este ano, vai lançar a prequel, Hegemonia – Vellanda, uma ficção científica sobre uma menina autista.

 

 

 

 


sábado, agosto 31, 2024

Diário de um peladeiro 2024 – O retorno com autismo e TDAH na bagagem

 Como pode um trabalho feito com tanto carinho, de recuperação e reconstrução que realizei em minha autoestima com tanta esperança entre 2018 e 2020, ser derrubado de um golpe só em janeiro de 2024? A verdade é que, como já dizia o Lito do Youtube, um avião não cai por apenas um motivo. Entre 2022 e 2023 eu caí de cabeça no trabalho e deixei todo o resto em segundo plano, este resto, incluía minha saúde. Por uma série de fatores, que vão desde uma infestação de escorpiões, passando por 3 meses sem poder ficar na minha casa, dormindo em um colchão nada confortável, até uma distensão que demorou meses para sarar, o nível de estresse foi lá em cima. Quando voltei para minha adorável casa, fui informado que havia ali uma infestação de escorpiões amarelos, um dos mais venenosos do mundo. Encontrei escorpião na minha cama, na pia, no chão, na poltrona, em todo lugar.

Voltar lá no começo de tudo

Sem contar que eu estava lidando no trabalho com várias crises na saúde indígena. Dá-lhe viagens para o interior da Amazônia para resolver problemas estruturais de comunicação entre o Governo Brasileiro e os Yanomami. São mais de um milhão de indígenas no Brasil, 34 distritos sanitários de saúde indígena, 70 casas de saúde indígena, 376 polos bases, 1206 Unidades Básicas de Saúde indígena, tudo com dezenas de médicos, enfermeiros, motoristas, todo tipo de profissional, mas para responder as demandas de imprensa de todos os jornalistas do planeta, era só eu. O pior é que eu dava conta... Mas o fato é que começou uma depressão se formando como uma onda daquelas que a gente vê em vídeos no Youtube, que começa a crescer até virar algo monstruoso que parece que vai te engolir. Comecei a falhar, ficava cansado demais e o tempo todo. Acabei ficando sem o meu trabalho e não consegui arrumar outro em Brasília. Neste ponto o estresse e a autoestima foram para o ralo e os ralos de Brasília estavam cheios de escorpiões.

Este ano parei tudo e fui cuidar de mim novamente. Academia e médicos. Esta semana, depois de muitos testes e mais testes, saiu o laudo dizendo que sou autista nível 1 com TDAH. Comecei a estudar o autismo seriamente faz um ano, porque meus filhos são autistas nível 1 também. Como sou pesquisador, imergi na coisa. Não posso explicar os outros níveis de autismo e nem o TDAH, mas o autista nível 1 é uma mistura de X-Men com Superman. Temos o cérebro maior e mais neurônios, de fato somos muito inteligentes. O problema é que ter muito neurônio no cérebro é como uma repartição pública lotada, como tem muita gente, nem todo mundo trabalha e nem sempre de forma organizada. Uma representação do autismo foi feita de maneira belíssima no filme O Homem de Aço, do Zack Sneider. O jovem Clarck Kent sofre com os excessos de seus poderes, super-visão, super olfato, super audição e precisa da sua mãe para acalmá-lo. Esses somos nós, não enxergamos melhor, mas percebemos mais detalhes do que as pessoas normais, meu olfato é tão intenso que dá para saber o que uma vizinha está cozinhando dando uma fungada na janela; se eu foco em uma música que gosto, posso destrinchá-la com meu ouvido absoluto. Tudo para nós é mais intenso, nem sempre conseguimos processar informações, pois recebemos milhares de estímulos de uma só vez.

Nos apaixonamos facilmente porque não há por que se envolver com alguém, sem ser de forma intensa. As separações então, são dolorosas, mas o problema é que muitas vezes, enjoamos muito rápido das pessoas, da rotina, do trabalho. Paradoxalmente, também nos sentimos nervosos quando a rotina que gostamos é interrompida.

Enfim, embora o autismo não seja uma doença, usei a boa e velha receita que havia funcionado antes: academia e futebol. (com acompanhamento e recomendação médica, claro).

Hoje foi a primeira pelada desde Maricá em 2022, meses antes de me mudar para Brasília. Levei as chuteiras ainda cheio de barro maricaense, mas para minha surpresa, era futebol de salão. Soubesse teria levado a minha bola. Último artefato que comprei com meu salário astronômico de pesquisador da Fiocruz. Levo na próxima.

Eu estava com medo. Agora os exames físicos não eram encorajadores, eu tinha tido uma intoxicação alimentar brava na viagem para Brasília. Estava voltando à academia bem devagar.

O nome do time é sugestivo, “Fura Bola futebol clube”, temos até camisa com a nossa mascote, mustela putorius furo, estampada. Demorei a me achar em campo e o time inteiro também. Ao contrário da propaganda enganosa, a galera sabia jogar direitinho. Comecei tentando me movimentar bem, mas logo pedi para ir para o gol por falta de fôlego. Duas bolas bem chutadas e tomei dois frangos. Segunda pelada já me soltei mais no gol e fiz ao menos três boas defesas que perturbaram o time adversário.

Com o tempo voltei para a linha. Dificuldade de dominar a bola. Dei passe para um gol, já achei o suficiente. Depois um companheiro chutou no melhor estilo Branco em 1994 e eu tentei sair da frente no melhor estilo Romário em 1994, só que a bola bateu nas minhas costas e confundiu o goleiro. Embora polêmico, o juiz anotou gol meu na sumula. Houve mais duas chances de chutar, mas peguei muito de peito de pé na bola, algo que facilitou para o goleiro que era bom. Passei a pressionar a saída de bola e deu bons resultados. Em mais um chute, a bola bateu na trave e subiu, quando caiu de novo, pressionei o goleiro e o zagueiro e chutei livre para o gol. Que sensação maravilhosa. Saí comemorando de braços abertos, planando como um beija-flor obeso de 98 kg.

Talvez o grande destaque da pelada tenha sido a simpatia dos outros participantes. Ninguém reclamando, muita gentileza, muita cordialidade. No final todos exibiam um rosto feliz de terem passado um início de sábado em uma atividade saudável. Só fiquei com a impressão de que o mais velho ali devia ter a metade da minha idade. Mas para quem tinha medo de sair dali em uma ambulância, o resultado foi superpositivo.

Agora é continuar jogando e indo na academia enquanto foco no doutorado e artigos científicos. Até o lançamento do livro novo em Macaé, dá para perder ao menos uns 4kg. E começamos assim, mais uma volta por cima. Desta vez, quem sabe, definitiva.

 

Saldo 2024

Jogos 1

Gols 2

Três passes para gols

 

Clinton Davisson Fialho é jornalista, com pós em cultura africana e indígena e mestrado em novas tecnologias de comunicação. Como escritor é autor do clássico Fáfia, o jogador do futuro, do sucesso Hegemonia – Herdeiro de Basten, adotado como paradidático nas escolas do estado do Rio de Janeiro e agora do terror premiado Baluartes – Terra Sombria. Para este ano, deve lançar a prequel, Hegemonia – Vellanda, uma ficção científica sobre uma menina autista.

quinta-feira, dezembro 28, 2023

Ciência x Religião – fuja dos mortos da extrema direita, tema os vivos da extrema esquerda.

 

Existem similaridades irônicas entre o meio acadêmico e alguns princípios religiosos. Os evangélicos costumam usam a expressão “do mundo”, tipo, eu sou músico e já toquei música “do mundo” e agora só toco coisas da igreja.

No meio acadêmico também existe isso, só que, nas igrejas gostam de pensar que tem grandes respostas, além da salvação para a humanidade e devem compartilhar isso com o maior número de pessoas possível, incluindo muita cantoria nos ouvidos dos vizinhos, pregações na rua e por aí vai.



Na academia é o contrário, os eventos são para poucos, as respostas sempre questionadas, a divulgação é mínima e a interação e retenção de conhecimento só são rompidas em troca de muito dinheiro.

Os EUA encontraram uma solução bizarra e cômoda: mantém uma população com um nível educacional baixo e ainda difundem culturalmente que educação demais é exagerado, não é de bom tom. Aí, dão bolsas especiais para os gênios de diversos países para que levem suas pesquisas para a terra do Tio Sam. Assim, mantém uma população com um nível cultural que o governo considera mais dócil.

No Brasil é um pouco diferente. Quem se propõe a ser acadêmico tem alguns mimos e ainda tem a possibilidade de flertar com o grande pote de ouro da nossa sociedade há 300 anos que é os benefícios dos concursos públicos. Mas é importante frisar que uma coisa não é exatamente igual a outra. Quem realmente pode passar no concurso público são os concurseiros, um grupo oriundo da classe média alta que pode dedicar de dois a cinco anos de suas vidas para passar em um concurso e continuar fazendo parte da classe média alta.

A sociedade criou uma dependência dos avanços acadêmicos de forma mais efetiva do que um viciado depende de drogas fortes como a cocaína, o crack ou o Rivotril. E a academia ganha suas migalhas da indústria para produzir mais inovações como computadores mais rápidos, celulares melhores, drones, carros elétricos, etc. Mas eu confesso que preferia que essa relação fosse mais parecida com a das igrejas. Queria ver gente pobre lotando auditórios e pagando dízimo por aulas de biologia, física, ainda que aplicadas ao dia a dia. Já que falam tanto em matérias que sejam mais práticas nas rotinas diárias, que tal filosofia com ênfase na ética? Nada mais útil e transformador para a rotina do brasileiro.

Enfim, parafraseamos Carl Sagan que alertava 40 anos atrás que vivemos numa sociedade que é absolutamente dependente de tecnologia onde 90% das pessoas não entende nada de tecnologia.

Nunca um astronauta vai bater na sua porta perguntando se quer conhecer a palavra de Sir Isaac Newton, mas é bom avisar que já é de conhecimento público que os carros elétricos já vêm com aviso de que, quando apresentam defeitos, são jogados fora por falta de mecânicos que entendam aquela tecnologia.

Do outro lado as igrejas fazem parte dessa intrincada conspiração silenciosa, tentando transformar Darwin em uma espécie de demônio e apelidaram a ética de “ideologia”, um novo palavrão o qual não sabem explicar. Nem cogitam que a religião seja uma ideologia. Nos últimos anos flertaram abertamente e promiscuamente com o fascismo se negando a aceitar que o que faziam era fascismo, “apenas somos contra essas ideologias”, afirmam até hoje.

 Tudo isso se torna tão lamentável quanto desnecessário. Igreja, fé, religião não são elementos naturalmente antagônicos à ciência. Ao contrário, é comum que criações tecnológicas recentes sejam usadas rapidamente por religiosos e arrisco dizer: por que não usar esses elementos para combater o estresse, aumentar a interação presencial, a socialização, ou mesmo uma fuga da realidade necessária. Pois como diria a autora americana Shirley Jackson, “Nenhum organismo vivo pode existir muito tempo com sanidade sob condições de realidade absoluta; até cotovias e gafanhotos, supõem alguns, sonham. ”

O fato é que o meio acadêmico gosta do isolamento, rejeita os divulgadores científicos porque compactua com a exclusão. E assim caminhamos para uma distopia de um apocalipse zumbi como a série The Walking Dead, onde temos que fugir de zumbis que estão mortos, sem capacidade cognitiva, mas ao mesmo tempo temer os vivos, ávidos por neutralizar ou cancelar quem se atreve a expor questionamentos que fujam aos dogmas preestabelecidos. Enquanto isso, a grama está sempre cortada, as casas estão limpas, a gasolina, a comida e a munição nunca acabam, estamos sempre com roupas boas, os cabelos cortados, a barba aparada. E assim a vida segue, sem saber em qual notícia podemos confiar, mas sem perder a pose porque o Instagram tem que estar sempre com um conteúdo atrativo, não necessariamente verdadeiro.

domingo, outubro 22, 2023

"Simplificando com Marcos Machado: Uma Noite de Stand-Up Promete Agitar o Bairro do Brás, em São Paulo"

Marcos Machado, um comediante de destaque na cena do Stand-Up, tem conquistado o público com seu humor perspicaz e crítico. O jovem de São João de Meriti, aos 29 anos, já acumula 9 anos de experiência e aborda temas que vão desde a infância até questões mais sérias, como religião e desigualdade. Além de sua carreira como comediante, Marcos é também um ator com uma década de atuação em peças populares, incluindo "Sítio do Pica-pau Amarelo" e outros sucessos.

Com um histórico impressionante, Marcos Machado foi finalista em 6 competições de comédia, tendo vencido em 4 delas. Em fevereiro de 2022, ele estreou seu espetáculo solo "Simplificando", que tem sido um sucesso em todo o país. Em aproximadamente um ano, mais de 10 mil pessoas já riram com suas piadas no teatro, e nas redes sociais, seu alcance já atingiu milhões de pessoas.

 O talento de Marcos Machado não passou despercebido por celebridades, com Pedro Cardoso, Tatá Werneck, Ferrugem, Buchecha e Dira Paes elogiando seu trabalho. Pedro Cardoso o chamou de "genial", enquanto Tatá Werneck se declarou sua fã, e Ferrugem afirmou que "passa mal" com suas apresentações.

 Recentemente, Marcos Machado foi convidado pelo projeto "Incluir Direito UFMG" para apresentar um Stand-Up aberto ao público em um evento dedicado à consciência negra. O humorista, conhecido por seu sucesso entre o público jovem, aborda temas sensíveis como racismo, religião e desigualdade em suas apresentações. Ele compartilha experiências pessoais de forma engraçada, abordando questões complexas de maneira ácida e mordaz.

 

E o melhor está por vir! Marcos Machado se apresentará ao vivo em São Paulo no dia 27 de outubro, às 20h, no Point do Jamanta, no Bairro do Bras. Uma oportunidade imperdível para rir e refletir com um dos comediantes mais talentosos do país. Não perca essa chance de vivenciar o humor transformador de Marcos Machado em sua própria cidade!

 

Marcos Machado continua a cativar o público com seu humor inteligente e sua abordagem corajosa de questões sociais e preconceitos. Seu sucesso nos palcos e nas redes sociais é uma prova de que o humor pode ser uma ferramenta poderosa para questionar e desafiar normas sociais, levando as pessoas a refletir sobre o mundo ao seu redor.

 

 

Entrevista:

Como foi a sua infância e como ela te influenciou na comédia?

Minha infância, foi difícil, criança preta de comicidade e financeiramente falando não tínhamos nada, mas também não deixei de ser criança, fiz tudo o que uma criança da minha época tinha pra fazer, sonhadora, sonho de ser jogador de Futebol, mas não tive boas oportunidades, a comedia veio atreves do curso de teatro, foi onde eu conheci o humor, e numa apresentação eu fiz um monologo de comédia, o Stand Up, o vídeo da Matemática hoje é um marco na minha carreira por que de fato tenho dificuldades e resolvi falar sobre nos meus shows onde muita gente se identificou e gerou todo esse transtorno positivo na minha carreira.

 

Você explodiu nas redes sociais com o vídeo sobre matemática, mas isto foi resultado também de um processo. Fale um pouco da sua trajetória?

A internet é isso né, ela te dá toda ferramenta pra você se dar bem e mal ao mesmo tempo, a gente que escolhe o que queremos falar, mas temos as consequências e sim ela ajuda muito no processo de criatividade, me ajudou muito também.

 

Como você recebe este reconhecimento do público?

O reconhecimento do público na primeira vez que subi ao palco, foi uma coisa linda que me ganhou, amor à primeira vista, desde então não parei, os temas que abordo são de fatos temas que vivi na minha vida e a comedia me ajudou a poder falar sobre de forma cômica.

 

Como você começou sua carreira na comédia Stand-Up e o que o inspirou a abordar temas leves e críticos em suas apresentações?

O nome do meu show já fala por si só, eu poderia simplesmente desabafar no palco, mas eu preciso fazer todos rirem, então eu pego os temas e tento deixá-lo o mais leve e simples para que o público entenda o que quero passar e ao mesmo tempo rir da situação, é um público que se identifica comigo, que já viveu de tudo um pouco do que eu falo no show onde gera risadas de identificação.

 

Você aborda questões como racismo e desigualdade em seu Stand-Up. Como você equilibra o humor com a sensibilidade desses tópicos, e qual é a reação do público?

Tudo aconteceu muito rápido com o vídeo da Matemática, muita gente chegando e eu de início não sabia como lidar com tudo até mesmo pessoas querendo contratar o show, mas com estudos e amigos me ajudando fui administrando e entendendo o que estava acontecendo, meu público gosta da minha simplicidade e procuro não perder isso nos conteúdos que crio para eles.

 

Você tem uma presença significativa nas redes sociais, com milhares de seguidores. Como as plataformas online impactaram sua carreira e como você mantém seu conteúdo relevante para seu público?

O teatro me ajudou muito no sentido de encarar o público, sou muito tímido, tinha dificuldades para falar em público e isso eu consegui encarar com as técnicas que aprendi no teatro, e a comedia me deu mais liberdade de criações de personagens para as apresentações teatrais.

 

Sabemos que você tem uma apresentação marcada em São Paulo no Point do Jamanta. O que o público pode esperar dessa apresentação e quais são seus planos futuros na comédia Stand-Up?

Dia 27/10 sexta feira, vai ser um show lindo, com tudo que já passei na comedia SP é um palco onde muitos comediantes querem pisar, o público é cativante, receptivo, vai ser um lindo show. E para o futuro quero poder ter estrutura para rodar com esse show pelo Brasil inteiro e quem sabe uma turnê fora do Brasil.

 

terça-feira, outubro 17, 2023

A Cuca vai pegar!

 Novo romance de Clinton Davisson mergulha no lado sombrio das lendas folclóricas do Brasil


Resenha de Jorge Luiz Calife

 

            Nascido em Volta Redonda, Clinton Davisson é um autor muito versátil. Seu primeiro livro “Fáfia e a Copa do Mundo de 2022” imaginava o futuro do futebol em 1999. No ano de 2007 ele produziu a sua obra mais ambiciosa até então, a space opera “Hegemonia – O herdeiro de Basten”, no cenário de um universo fechado, dentro de uma esfera de Dyson. Paralelamente o autor exerceu uma intensa atividade acadêmica, se tornando mestre em Comunicação pela UFJF e se pós-graduando em cultura africana e indígena pela FeMass de Macaé. Seu novo livro “Baluartes – Terra Sombria” é um resultado dessa experiencia. Trocando o mundo da ficção espacial pela fantasia de terror ele nos leva a acompanhar as aventuras de três jovens, caçadores de fantasmas, que desembarcam no Brasil colonial no distante ano de 1780.

Nossos heróis são o português Luís Monteiro, o príncipe africano Akim Shinedu do reino do Daomé

e a índia Jaciara, única sobrevivente da tribo dos Oitacás. Eles são os baluartes, jovens com poderes especiais convocados pela igreja católica para livrar o mundo das assombrações. E sua primeira missão, num vilarejo de Minas Gerais, é enfrentar ninguém menos do que a Cuca. Aquela bruxa mistura de mulher e jacaré que todos aqueles que já tiveram infância conhecem dos episódios do Sítio do Pica Pau Amarelo. Na verdade, ficamos sabendo que esta criatura tem uma origem europeia, como muitos fantasmas brasileiros, e lá no velho continente é chamada de Coca.

A Cuca é malvada e tem muitos poderes. Uma vez, lá no Sítio, ela bebeu uma poção mágica e se transformou na loira Angélica. Seu objetivo era seduzir o inocente Pedrinho, mas o feitiço não deu certo e ela acabou ficando com o Luciano. No romance do Clinton a Cuca do século dezoito é ainda mais perversa e consegue sequestrar todas as crianças do vilarejo de Ibitipoca. Conseguindo a ajuda dos curupiras, aqueles guardiões da floresta da mitologia indígena. Nosso trio de heróis tenta salvar as crianças e acaba caindo em uma armadilha mortífera. Sim, como diz a música, “A Cuca te pega, e pega daqui e pega de lá.

Essa primeira parte do livro é cheia de detalhes sobre os costumes e a vida no Brasil colônia. Na segunda parte voltamos alguns meses no tempo e estamos na universidade de Pavia, onde o grupo começa a se formar, alguns meses antes de viajar para o Brasil. Viajando para Gênova os nossos heróis salvam a vida do músico Amadeus Mozart e da escritora inglesa Mary Wollstonecraft, que no futuro se tornará mãe da criadora do Frankenstein. Esses encontros com personagens históricos, como Tiradentes e Napoleão Bonaparte são outro detalhe pitoresco do livro. O grupo vai parar no sinistro castelo de Montaldeo, onde enfrenta um fantasma assassino.

Um dos personagens mais interessantes é a Jaciara, que tem o poder de ver o futuro. Em certo momento ela fala de “um olho que tudo vê” o que me fez lembrar daquele clássico do filme B, “O Homem dos olhos de raios X” com o Ray Milland.

O resultado é uma narrativa que se lê com prazer e quando termina ficamos querendo mais. Quem sabe um confronto com a Mula Sem Cabeça ou o Saci Pererê. Mas é só esperar. Afinal as aventuras dos Baluartes estão apenas começando.

 

Jorge Luiz Calife é jornalista e autor pertencente à vertente ficção científica “hard”, ou seja, com maior rigor científico, detalhamento e pesquisa. Foi Calife quem sugeriu a Arthur C. Clarke uma sequência para 2001: Uma Odisseia no Espaço, inclusive fora creditado por Clarke em 2010: Uma Odisseia no Espaço 2. Trabalhou também como tradutor de obras importantes da ficção científica no Brasil como Duna de Frank Herbert e Eu, robô de Isaac Asimov.

 

segunda-feira, agosto 28, 2023

Precisamos aprender a conviver com a depressão se quisermos vencê-la

 
Esta semana parei para pensar sobre a minha companheira a Senhora Depressão. Pois, apesar de estar vivendo um momento único em termos de produtividade no trabalho, na vida pessoal e na vida artística. Tem coisas que mantém a depressão por perto. A vida não é o nosso Instagram.

Às vezes, os recursos que usamos para nos proteger e sobreviver nos momentos mais difíceis, são equivalentes a adrenalina que nos impede de sentir a plenitude da dor enquanto estamos “quentes”. Quando tudo esfria, sua respiração volta ao normal, você percebe que passou por assédios morais que vão te traumatizar para sempre porque você não reagiu na hora parte para manter o emprego, parte porque não sabia se defender como hoje, parte... bom, parte para não perder a condição de Réu Primário.


Quando tudo esfria, você percebe que foi real que a casa de seus filhos pegou fogo, que não inventou que sua amiga caiu da moto para debaixo de um carro e morreu destroçada. Que ouviu coisas que achou melhor relevar porque ouviu de alguém que você ama.

Um dia você acorda com cicatrizes abertas e entende que vai demorar um tempo para pararem de doer. É neste momento que se torna imprescindível entender que a recuperação é um processo que pode ser lento, mas, convenhamos, desistir não acelera.

A jornada de superação da depressão é uma estrada repleta de desafios, mas aprender a conviver com essa condição é um passo crucial para conquistar uma vida saudável e significativa. A depressão não é apenas uma batalha a ser vencida, mas também um território a ser explorado e compreendido. Ao abraçar essa perspectiva, é possível desenvolver estratégias eficazes para lidar com os altos e baixos emocionais, promovendo uma sensação duradoura de bem-estar mental.
Educar-se sobre a depressão é empoderador. Quanto mais você entende os sintomas, as causas subjacentes e as opções de tratamento, mais capacitado estará para tomar decisões informadas sobre sua saúde mental. Isso também pode ajudar a normalizar sua experiência, ao perceber que você não está sozinho e que muitas outras pessoas enfrentam desafios semelhantes.

Aprender a conviver com a depressão envolve aceitação, autocompaixão e educação. É fundamental aceitar que a depressão é parte da sua experiência, mas não define quem você é como pessoa. Ao invés de lutar contra esses sentimentos, aceite-os como uma parte temporária e tratável da sua vida. Isso permite que você se liberte do estigma associado à depressão e se concentre em explorar maneiras construtivas de lidar com ela.

terça-feira, junho 20, 2023

Resenha de Baluartes: Terra Sombria

Por Lawrence Gonçalves

Riqueza de informações nos primeiros capítulos. Aparentemente desconexas, demandam seguimento para começar a entender porque são informados tantos detalhes.

As descrições de comportamentos humanos em imagens são convincentes, como se dá ao ilustrar gestos comuns, mas ligeiramente específicos. Por exemplo, o contorno de um cumprimento de Jaciara (longa reverência simpática).

 


Entre os baluartes, clássico conflito de crenças recebe tratamento conciliador em diálogo dentro de uma igreja. Um tanto quanto generosa a providência do autor para explanar a dissolução dessas contradições humanas. Mas, por fim, convence rapidamente, ao equalizar tal simplicidade com saberes pouco triviais que se põem ao conhecimento do leitor. Aliás, outra característica que se observa ao longo da construção é a disposição para o azeitamento das diferenças, num esforço para viabilizar a coesão do grupo de personagens.

 

‘Lembranças’, um dos primeiros capítulos, tem função de revelações. Interessante e cuidadoso, o excerto anuncia sentidos importantes para atiçar o interesse em seguir adiante. Este capítulo tem característica acentuada que também se encontra nos demais, - arremata-se em si mesmo, o que parece ser aspecto contínuo na construção do livro: cada capítulo assemelha-se a um episódio de novela televisiva. Em ‘Lembranças’, há espaço para reminiscências de mais velhos que, como eu, assistiu Sítio do Pica-Pau amarelo e conheceu muito bem a Cuca (Coca, de agora em diante). Ou achava que conhecia. Insinuava-se suficiente, até então, a imaginação de Monteiro Lobato.

 

Diante de ‘A volta dos que não foram’, supõe-se que será enaltecido o teor sombrio da história. No entanto, trata-se de um recurso mnemônico do autor a par de suas vocações temáticas. De fato, o curto capítulo traz boas novas, enquanto ao final outro integrante do folclore nacional integra o enredo de forma assustadora. O ponto alto do sombrio, no entanto, parece concentrar-se no último quadro da trama, em típico cenário de castelo mal-assombrado. De qualquer forma, com perfis menos triviais, Coca, Sacis e Curupiras já preparam o leitor para a atmosfera lúgubre da história, o que imprime à Baluartes sua classificação indicativa básica.

Personagens do folclore nacional recebem projeção sombria e respeitosa no correr da história. Talvez essa reverência associe-se à projeção de Clinton Davisson atualmente. Retomado o olhar para o Brasil, a reconhecida vocação para a valorização das riquezas nacionais personifica a condução do país em 2023. Neste caso, alcançam-se raízes folclóricas e talentos modernos, como o autor, que adiciona ao lúdico e fantástico um aspecto de rigor acadêmico na descrição de fatos e boatos ao longo do enredo.

 

Com o mesmo rigor se estende a abordagem de personagens históricos, estrangeiros ou nacionais. Para não demorar-se muito, basta dizer o quanto é inusitado encontrar Mozart em meio a flechas mágicas, índios canibais e reinados africanos. Adicione-se, sem prenúncio das surpresas que a leitura traz, o trabalhoso tour por épocas históricas contíguas e dimensões paralelas.

Embora os capítulos apresentem uma boa cadência e conclusões provisórias, a obra sustenta pontas soltas. Baluartes tem densidade para seguir. Hoje um desafio maior, visto a limitada prontidão para bullet points, o acompanhamento dos personagens, seus assuntos a serem resolvidos e os propósitos de sua irmandade esotérica promete reavivar uma disposição para expectativas. De fato, apenas assim seria saciado o desejo criado neste primeiro volume. Lugar já menos comum, a leitura de Baluartes põe-nos como que diante da TV, esperando os próximos capítulos da novela. Parabéns, Clinton Davisson!

 

 

Att, Lawrence

segunda-feira, março 13, 2023

Apesar de cansativo, Tudo em todo lugar ao mesmo Tempo explica o mundo polarizado em que vivemos e propõe soluções

Sobre o fato de Tudo em todo lugar ao mesmo tempo ter levado a estatueta de melhor filme, eu posso dizer que se trata de um filme sobre a guerra entre as três gerações: os Baby boomers nascidos dos anos 40 aos 60, a Geração X, nascida dos anos 60 ao final dos 70, e os mileniais do final dos anos 80 para cá. Talvez isso explique o sucesso da produção dos “Daniels”.

Classificado naquela lista de filmes “ame ou odeie”, Tudo em todo lugar ao mesmo tempo, não conseguiu nem meu amor e nem meu ódio.
Como pai de mileniais, acho muito útil. Como comédia, dei ótimas risadas. Como fã da série Ricky & Morty, sei que já vi coisa muito mais inteligente e engraçada sobre o mesmo assunto. Mas como fã de boas atuações, aí fiquei feliz, porque o diferencial do filme é que temos bons atores que dão peso e credibilidade à trama. Ke Huy Quan dá um show mudando constantemente de personalidade, de tímido, para confiante e até para um galã, tudo isso num picar de olhos, sem que a gente duvide disso. Não vemos Ke Huy Quan, atuando, vemos várias pessoas dentro de um corpo. Isso bastaria para pagar o ingresso.
Já Jamie Lee Curtis está hilária, em uma hora ela é literalmente um monstro, na outra vira interesse amoroso de outro universo.
As homenagens a Matrix, Ratatouille e, claro, a Ricky & Morty não são nada sutis. E o filme fica se explicando a cada 15 minutos para não correr o risco de não ser entendido pela galera que está acostumada a ir ao Youtube para entender o final de filmes... da Marvel...
Mas é como serviço de utilidade pública que o filme se justifica, mostrando o conflito de três gerações. Trata-se de algo que é totalmente antenado com que acontece nesta realidade polarizada em que vivemos. Afinal, Michelle Yeoh é uma mãe de meia idade que tem que lidar com o marido sem sal, o pai que a considera um fracasso e a filha que é uma milenial que se sente incompreendida (pleonasmo, todo milenial se sente incompreendido e acha o esforço para compreender alguma coisa algo extremamente doloroso). Ela tem que fazer a ponte entre a geração do pai, que representa os conceitos e preconceitos preguiçosos do século XX, que não consegue entender nem de perto coisas óbvias (do tipo racismo e homofobia são coisas erradas), e a filha com toda a intolerância que os nascidos no século XXI tem com a geração anterior (para os mileniais, o mundo começou neste século e tudo que existia antes era errado e indigno de esforço para ser entendido, com isso, eles justificam um sentimento de eterno e contínuo cancelamento).
Michelle Yeoh representa a azarada geração X, que nasceu entre os anos 60 e 70, que consegue entender (não exatamente concordar, apenas entender de leve) tanto a geração anterior, quanto a posterior e, por isso, é odiada por ambos. Afinal, não vai cancelar os velhos como querem os jovens e nem cancelar os jovens como querem os velhos.
Neste ponto, sim, Tudo em todo lugar ao mesmo tempo tem muito a dizer, tem muito a ser entendido. Não se deixe intimidar pela trama aparentemente complicada pois, como eu já disse, o filme para e se explica a cada 15 minutos. É basicamente uma mãe recrutada por pessoas que têm acesso a um multiverso para impedir que um ser poderoso e rancoroso destrua todos os universos. Esse ser maligno, é claro, é uma versão de sua filha, ou seja, uma milenial que quer acabar com tudo porque acha que isso é mais fácil do que tentar entender o mundo, entender a mãe, entender o avô.
Do outro lado está uma versão do avô que acha que precisa matar a milenial porque, afinal, não tem capacidade para entende-la. Retrato mais fiel do mundo de hoje não há. Por isso levou o Oscar.
Enfim, se você tem filhos que nasceram da década de 90 para cá, principalmente se nasceram neste século, Tudo em todo lugar ao mesmo tempo é obrigatório, mesmo que você ache chato. É um manual de instruções sobre como lidar com mileniais. E acredite, nunca houve uma geração mais complicada de se lidar. Seja um bom pai, seja uma boa mãe e assista, uma, duas, três, quantas vezes for necessário. Não quer dizer que seja um filme bom, não quer dizer que seja ruim. Você não precisa gostar, eu mesmo acho que não gostei. Mas é um filme necessário.

domingo, julho 31, 2022

O recorde do Fliperama e aquele rapaz idiota que apareceu (e sempre aparece)

 

Estava jogando fliperama. Era a primeira metade da década de 80 e fliperamas não ficavam em shoppings, até porque Shoppings não existiam no Brasil fora das capitais e eu estava numa cidade pequena, do interior de Minas Gerais.

Eu devia ser tão novo que minha mãe estava comigo no bendito Fliperama. Sabe o que é engraçado? Eu não tenho certeza se estava jogando Donkey Kong ou Pac Man. Só sei que naquele dia minha mãe comprou muitas fichas, porque era mais barato naquela cidade pequena.

E aí, de tanto jogar, finalmente, pela primeira vez na vida, deixei meu recorde naquela tela de maiores pontuadores. O problema é que não vi isso. Terminei de jogar e dei as costas para a máquina. E falei para minha mãe que já deu. Que queria ir embora.

— Olha lá, Tato! – apontou minha mãe.

Eu já estava na porta do Fliperama quando ela me mostrou que eu tinha colocado um recorde na máquina. Voltei correndo e fui lá tentar descobrir como escrevia meu nome ou minhas iniciais naquela tela enquanto minha mãe comemorava.

Assim que terminei, apareceu um cara surgindo de nada. Faz tanto tempo, mas tanto tempo, que não lembro que idade ele tinha, não lembro se era negro, branco, alto, baixo, magro ou gordo, e quando tento imaginar o rosto dele, lembro no mendigo do filme Cidade dos Sonhos. Com certeza era apenas um garoto, provavelmente bem-vestido, nada a ver com aquele mendigo medonho do filme que vi mais de 20 anos depois no cinema. Mas é assim que minha memória gravou. Talvez porque ele tinha a voz grossa. Não era a de um garoto, mas eu tinha o que? 10? 14 anos? Mas isso não importa, o que importa é o que ele disse:

— Você gosta de colocar seu nome nos recordes, né? – Havia um sarcasmo tão palpável na voz dele, que eu poderia sentir aquilo me abrando, podia sentir o cheio azedo do sarcasmo.

Aí, o cara foi falar com o rapaz que vendia as fichas. Falou com todos que estavam jogando. Só faltou subir na mesa e gritar:

— Ele tá colocando o nome dele no jogo! Não pode!

Eu já estava saindo, minha mãe já estava saindo. Não sei se ela ouviu, mas fomos embora e deixamos o homem reclamando.

Eu entendi na mesma hora, com entendo até hoje. Ele chegou e não me viu jogando. Chegou depois. Ou estava jogando outra coisa. Tudo o que ele viu foi eu vir da ponta do fliperama e colocar meu nome ali no recorde, como se tivesse trapaceado. Para ele, eu estava enganando todo mundo, inclusive a minha mãe.

Aquilo me deixou chateado. Tanto que voltei outros dias lá e joguei até encontrar o cara e fazer novamente o recorde na frente dele, para ele ver que eu não estava mentindo.

— Agora você fez o recorde – disse o mendigo monstro da Cidade dos Sonhos. – Sem jamais admitir que aquele recorde naquele dia era meu.

Eu penso nisso porque aquele foi só o início de uma série de situações em que pessoas desconfiaram, duvidaram e até afirmaram que eu não tinha capacidade, que eu não merecia alguma coisa.

Com o tempo, eu vi que não era só comigo. Que todo mundo já passou por uma situação parecida em que um desavisado resolve que você é ladrão, trapaceiro, corrupto, desonesto, fraco, incompetente, tudo isso baseado em uma observação rasa. Todo mundo já foi julgado dessa forma. E acho que é por isso que eu não lembro o rosto do rapaz. Porque aquilo se tornou para mim uma soma de várias pessoas, um Frankenstein de rostos colados ou sobrepostos. Para quem não sabe, o mendigo monstro de Cidade dos Sonhos é a própria protagonista, ou melhor, a atriz Naomi Watts, coberta de maquiagem de mendigo. Assim como ele representa as minhas dúvidas, meus receios, minhas inseguranças, tanto quanto representa todas as pessoas idiotas que me julgaram de uma forma errada e continuam julgando, julgando e julgando.

Mas assim é a vida. Um movimento constante de ter que provar o seu valor para o mundo, provar que merece estar nele. Provar para pessoas que talvez nem seja más, burras, ou idiotas, elas são apenas um reflexo dos horrores que habitam dentro de nós.

sexta-feira, setembro 24, 2021

E eles foram embora

 


Depois de dois meses, a festa acabou. Os meninos voltaram a morar com a mãe que já está recuperada, graças aos deuses. Durante dois meses eu pude ser pai deles em tempo integral de novo depois de 7 anos. É bem diferente de ver apenas nos finais de semana. É diferente quando você é o responsável por alimentar eles todo dia. Quando você pode ensinar valores como a importância de eles lavarem a louça e passarem um pano no chão todo dia sem precisar pedir.

É diferente quando você propositalmente os enche de comida porque estão em fase de crescimento e você não consegue falar não quando pedem mais um bife, mais dois sanduíches, mais um prato de macarronada. Você faz o possível para deixá-los felizes porque passaram por um incêndio e quase perderam a mãe. Você gasta tudo que tem para que eles esqueçam o trauma. Compra sorvete, compra açaí, compra churros, leva para praia, leva para passear de carro para que não lembrem do incêndio. Compra roupas novas porque perderam muita coisa. Mas eles não reclamam, apenas agradecem. Pedem permissão para poder pegar o chocolate que você comprou para eles, mesmo depois de você dizer que comprou para eles.

O medo pelo excesso de Coca-Cola e aí você compra garrafinhas d’água bonitinhas para incentivar a tomar mais água e fica feliz porque gasta um galão de água mineral por semana, já que Rio das Ostras em geral não tem água encanada, mesmo depois de 20 anos, então você tem sempre que comprar água mineral.

Não tem mais conversas sobre o universo, a vida, política, sobre meninas e como eles vão fazer quando se apaixonarem por alguém. A paciência de ensiná-los a dirigir. Enxugar as lágrimas deles quando estão preocupados com a mãe. Ensinar que não pode gritar com a mãe. Ensinar que, quando acontecer algo errado, que falem comigo. Não precisam resolver sozinhos agora, que vai chegar um dia em que eles terão que resolver tudo sozinhos, mas não agora.

Agora a casa está silenciosa. Eu parto para outro desafio que pode me ajudar a ser um pai melhor para eles. A chance de estar ainda mais presente. Mas para isso, vou ter que me afastar um pouco. E por mais que tenha a confiança na competência da mãe em cuidar deles, sei que a função dela não é ser pai. Eu tenho que fazer a minha parte, custe o que custar.

Agora a casa está silenciosa, mas não completamente. Eu ouço um choro infantil, bem baixinho em alguns momentos. Dá para imaginar uma criança que machucou o joelho e tá fazendo beicinho. Dá para imaginar uma criança que teve arrancado tudo o que era importante. Aí, percebo que o choro é meu. Porque nunca na vida me senti tão sozinho.

domingo, agosto 29, 2021

Reflexões da insônia

 


Quando eu era criança, eu tinha medo de fantasmas. Passei o ensino fundamental todo praticamente sem entrar no banheiro da escola com medo da loura do banheiro. Até em casa eu obrigava meu irmão mais novo a ir ao banheiro comigo com medo de alguma coisa terrível que poderia aparecer. Ia ao banheiro de porta aberta, mas com medo dela se fechar de repente e aquela coisa me pegar.

Hoje na vida adulta eu tenho saudade daqueles fantasmas. Sinto falta deles. Porque ao menos com a presença de um adulto, o fantasma não aparecia. E eles não me atormentavam o dia inteiro, só quando eu ia ao banheiro. Quando adultos os nossos medos são piores e os pesadelos acontecem quando estamos acordados. E as inseguranças nunca, nunca vão embora.

Os medos são diferentes e muito mais assustadores. Medo de não ser bom o suficiente. Medo de não conseguir proteger as pessoas que amamos. Medo de decepcionar as pessoas que amamos. Mas o maior medo é de decepcionar aquela criança que nós fomos algum dia e muitos anos atrás tinha medo de fantasmas, mas acreditava que teria no futuro, uma vida feliz, que seria uma boa pessoa e que mudaria o mundo.

Reflexões da insônia - Rio das Ostras, 30/08/021


Clinton Davisson é jornalista, professor e mestre em Comunicação. Autor de quatro romances, entre eles o sucesso Hegemonia - O Herdeiro de Basten.