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Reunidos em campo depois de seis anos |
Realizando o sonho
Domingo, 6 de dezembro de 2020.
Eu comecei a escrever esta parte
três logo em fevereiro, mas só voltei a jogar no final de novembro. Não foi
exatamente uma pelada. Ainda estamos respeitando e muito o isolamento social
imposto pela pandemia do Covid-19, mas eu e meus gêmeos achamos uma quadra
vazia e jogamos nós três sozinhos. Era meio-dia e não tinha ninguém nem na
praça para assistir e foi o jogo mais esperado dos últimos anos. Melhor que a
final da Libertadores.
Veja bem, este diário tinha o
objetivo de levar um pouco dos sentimentos que a gente confronta na vida e a
metáfora que eu sempre consigo ver com o que acontece dentro daquelas quatro
linhas. Descobri que isso era útil para outras pessoas também. Dizem que o
xadrez é o jogo da vida. Bom, o futebol é um xadrez com 11 peças para cada lado
ao invés de 16 do xadrez. Claro, o futebol que eu jogo são apenas seis peças de
cada lado. E com essas peças podemos simular estratégias de vida, ações,
atitudes. Dá para saber mais sobre uma pessoa vendo-a jogar que conversando. O estilo
de jogo, as atitudes, dizem muito sobre a pessoa. No meu caso, como já falei
muitas vezes neste blog, existe a ansiedade. A mesma ansiedade que não me deixa
dormir também costuma me atrapalhar a jogar. Afinal, quando você tem uma bola
nos pés e poucos segundos para decidir o que fazer com ela, seu controle sobre
a ansiedade é testado ao máximo. Lembrando que, do outro lado, há outras
pessoas que querem tomar a sua bola e no seu time há pessoas que têm opiniões
distintas sobre o que você deve fazer, como deve agir.
Parte da ansiedade vinha de ficar
longe de duas pessoas que sempre foram diretamente afetadas pelas minhas
atitudes dentro do campo da vida. Dois meninos gêmeos que agora estão tendo sua
despedida da infância e virando adolescentes.
Quando eram mais novos, eu
aproveitava a varanda grande do prédio para ensinar eles a jogar futebol. Eles
não são exatamente craques. Puxaram o pai. Mas há esperança para eles ainda.
Desde junho eu estou de volta a Macaé, novamente perto deles e, depois de 6 longos anos, conseguimos jogar de futebol de novo. Jogamos em Macaé, na quadra pública do bairro Mirante da Lagoa. Um bairro que eu adoro. E depois de tantos anos sonhando com isso, lá estavam eles, meus filhos em campo, jogando comigo. Desajeitados com a bola, mas felizes como o pai, curtindo cada momento. É como se toda a felicidade do mundo, toda a esperança, tudo o que vale a pena neste mundo estivesse ali, representado naquelas duas pessoas.
Parecia um sonho. Eles estavam lá de novo, depois de 6 anos, jogando bola comigo. E eu sabia que desta vez eu não acordaria. Não era um sonho, era o fim de um pesadelo.
Comprei a bola um mês
antes, ela estava meio vazia. Claro que comprei também uma bomba para encher,
claro que ela não funcionou. Mas jogamos assim mesmo. Fizemos cruzamentos,
chutes de longe, passes.
Não contei direito, mas na hora
que “era para valer” fiz cinco gols. Depois catei, depois cruzei. A bola não
estava ideal, mas quem se importa. Eles estavam ali, de verdade. Não era mais
um daqueles sonhos em que eu acordava chorando. Em que eu os abraçava durante o
sonho para ver se conseguia trazer eles comigo para o mundo real. Não, desta
vez, era tudo verdade.
A quadra também tinha cesta de
basquete e usamos para treinar uns arremessos. Lembrando que minha última
partida de basquete na vida em Volta Redonda no Recreio do Trabalhador e, com
certeza, tem mais de 30 anos. Eles levam mais jeito para basquete que para
futebol. Ensinei o que eu lembrava. Adoraram ver eu passar a bola pelas costas.
Enfim, talvez não seja o meu
melhor texto. Mas foi um dos dias mais felizes da minha vida. E talvez a pelada
mais importante do ano. E estes cinco gols, jogados apenas com duas crianças em
uma quadra de Macaé valeram mais que os outros 20.
Como o coronavírus ficou mais
intenso nos últimos dias, combinamos de não jogar de novo este ano. Então,
encerramos aqui o diário de um peladeiro de 2020. Vamos ver o que acontece em
2021...
Saldo de 2020
11 jogos
25 gols
15 pontos no basquete
Clinton Davisson é jornalista,
pós-graduado em educação e mestre em comunicação. Autor de quatro livros, entre
eles, a premiado Hegemonia – O Herdeiro de Basten.
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