sábado, fevereiro 21, 2026

Diário de um peladeiro 2026 – Parte 2. O medo é o assassino da mente

 

“Eu não devo ter medo. Medo é o assassino da mente. Medo é a pequena morte que leva à aniquilação total. Eu enfrentarei meu medo. Permitirei que passe por cima e me atravesse. E, quando tiver passado, voltarei para ver seu rastro. Onde o medo não estiver mais, nada haverá. Somente eu permanecerei.” — Frank Herbert, Duna



Não vou mentir. 2025 não foi um ano fácil. E eu não gosto — na verdade, odeio — daquelas pessoas que tentam olhar tudo pelo copo meio cheio. Eu não quero copos meio cheios; quero taças de champanhe. Para ser mais honesto, uma garrafa de Coca-Cola bem gelada. Meio copo não mata a sede. Não para o que eu lutei em 2025.

Mas vamos olhar com frieza.

Praticamente tudo que eu tentei entre 2024 e 2025 deu muito errado. Mas, com muita boa vontade, percebo que, como dizia minha terapeuta, “houve um movimento”. Passei a fazer um doutorado, ainda que como disciplina isolada no primeiro semestre. Não satisfeito, resolvi fazer duas disciplinas de faculdades diferentes no segundo semestre.

Sem grana para pagar passagens e comida, dependendo de parentes, cursei as três disciplinas. Mas ainda não consegui uma bolsa. E, apesar da nota máxima em duas, reprovei na terceira por atrasar a entrega do artigo científico. Placar: 2x1.

Tudo bem. 2025 ainda teve o lançamento — com boas vendas e boas críticas — de Hegemonia: Vellanda, livro que demorei nada menos que 18 anos para terminar. Claro, acho que o livro ainda saiu incompleto. Não o achei perfeito. Mas, no final das contas, terminei o interminável e lancei. E as pessoas gostaram mais do que eu imaginava.

Fiquei semanas pensando qual era o saldo positivo disso. O que seria? A resposta veio apenas hoje: coragem.

Nos últimos meses, eu vinha duvidando da minha coragem. Sempre fiz questão de lutar contra o medo. Não o aceitava. Se sentia medo de alguma coisa, aquele medo virava uma meta a ser batida. Confesso que, nos últimos dois anos, achei que tinha perdido a coragem.

Mas o que diabos isso tem a ver com futebol?

Contra as indicações médicas, resolvi insistir em voltar ao futebol. Com os joelhos estraçalhados, resolvi jogar como goleiro. Comprei joelheiras e luvas. Nunca tinha comprado luvas de goleiro na vida. O motivo foi ter machucado o dedo médio na semana passada.

Hoje, assim que coloquei a luva, uma pessoa (ainda não gravei o nome de quase ninguém — que vergonha) chutou a bola por cima, levemente, e eu, também levemente, levantei a mão em direção à bola, que bateu exatamente na ponta do dedo médio, causando uma dor absurda.

O fato de o toque ter desviado a bola para a trave, francamente, não valeu o esforço.

O dedo está doendo, e assim vai continuar a semana toda.

E, durante todo o resto da pelada, a bola não voltou a acertar o dedo médio isoladamente nem uma vez. Ou seja, o azar de 2024 e 2025 ainda está presente.

Pelada normal. Falhei absurdamente com um passe errado na saída do gol. A bola não pegou velocidade suficiente. Caiu no pé do atacante, que só precisou escolher como ia chutar para o gol vazio.

Claro que não gostei de ter falhado. Mas o time não reclamou. Eu também não achei o fim do mundo, pois, afinal, tentei inventar. Isso faz parte. Tive coragem de tentar.

Mas o problema veio quando resolvi jogar na linha para ver se aguentava. Foi nesse momento, depois de uma troca de passes, que recebi a bola livre. Só eu e o goleiro, meu camarada João Vitor. Havia outro atacante do outro lado. Seria perfeito se ele viesse e eu tocasse para ele. Mas, quando ele se mexeu, o gol se abriu todo para mim.

Era só chutar.

 E foi aí que tive medo. Pois já tinha errado um chute, no caso um passe, antes. O João Vitor podia defender. A bola poderia ir para fora.

Por covardia eu dei o passe (ruim). Não chutei. Era só chutar. Era só ter coragem.

Mas foi aí que entendi.

A gente só entende o que é coragem quando sente realmente medo. Quando o medo vence. E ali o medo venceu. Deixei de fazer um gol por medo.

E é por conta disso — de um chute não dado por medo — que passei a valorizar minhas tentativas. Fazer três disciplinas sem certeza se teria dinheiro para ir e voltar. Se teria dinheiro para comer.

Não que meus parentes tenham me negado. Mas tive medo de que, um dia, meu pai ou meu irmão parassem de pagar passagens e um sanduíche com Coca-Cola toda semana. Afinal, não é obrigação deles me sustentar em meio a avalanche de entrevistas de emprego que não deram certo, concursos que não passei... Definitivamente, não é obrigação deles. Eu não tenho certeza de que vou compensar o sacrifício deles algum dia. E quando a gente tem um pouco de vergonha na cara, a gente pensa duas, três, quatro, dez vezes, antes de fazer uma conta para outra pessoa que você ama pagar.

Mesmo com medo, eu fiz. Eu enfrentei. Eu tive coragem.

Então, esse gol perdido por falta de um chute teve sua serventia. Senti o gosto da covardia e, através dele, passei a valorizar mais as vezes em que tive coragem de terminar e lançar um livro. Tive coragem de fazer três disciplinas.

Agora é o ano de 2026. Não sei se vou acertar os chutes. Não tenho garantia de nada. Mas o que fiz em um ano todo, no caso, em 2025, vou fazer neste primeiro semestre: três disciplinas em três faculdades diferentes.

Ficou curioso?

Literatura, comunicação e cinema.

Sim, na prática, estou fazendo três doutorados de uma só vez. Além disso, vou lançar Hegemonia: Vellanda no Rio de Janeiro, em Volta Redonda e na Bienal do Livro de SP.

Tem que ter coragem para isso.

 

 

 

Apesar de ter “—", este texto foi escrito sem ajuda de qualquer IA além do corretor do Word.

Clinton Davisson Fialho é jornalista, pós-graduado em cultura africana e indígena, mestre em Comunicação pela UFJF e autor de seis livros, sendo o último deles Hegemonia: Vellanda, sobre uma menina neurodivergente.