quinta-feira, junho 14, 2018

Eu não sou um homem fácil




Filme francês diverte usando universo invertido entre homens e mulheres





Damien (Vincent Elbaz) é um típico solteirão machista, estilo cafajeste, vaidoso e egocêntrico que trabalha em uma empresa de software. Ele está feliz transando com várias mulheres, dando cantadas na rua, no bar, na livraria, no trabalho, em toda parte. Mas a vida é uma caixinha de surpresas e, numa bela manhã de sol, após conhecer a secretária de seu melhor amigo, Alexandra (Marie-Sophie Ferdane), numa livraria, ele bate a cabeça num poste na rua e desmaia. Ao recobrar a consciência, ele descobre que está em um mundo invertido. Não, não é o de Stranger Things, mas uma sociedade matriarcal em que as funções entre homens e mulheres são invertidas, ou seja, são os homens que precisam “prestar contas à sociedade”, se vestir com roupas apertadas e sexistas. Precisam se depilar, fazer as unhas, usar rosa e flores (lembrei do Menudo, pesquisem no Google sobre do que se trata).

A princípio Damien até gosta da ideia de ser cantado na rua por todas as mulheres. Mas depois o pesadelo vai mostrando seu lado cada vez mais sinistro. Seus pais cobram o fato dele ser solteiro, promíscuo e não ter filhos e acham um absurdo seu discurso sobre como um homem pode ser feliz sem ser casado. No serviço, acaba demitindo por “não saber o seu lugar diante da chefe”. O seu melhor amigo, antes um admirado escritor, agora é um passivo, recatado e do lar.

Damien  até que tenta se adaptar ao novo mundo: depila o corpo completamente, pinta as unhas, compra roupas que mostram mais as pernas (depiladas) e consegue um novo emprego, justamente como secretário de Alexandra que, neste mundo é basicamente uma versão feminina dele mesmo, uma colecionadora de homens egocêntrica e que vê em Damien um homem difícil de ser conquistado e, portanto, um prêmio a ser disputado.



Um pouco além de comédia, mas não muito



Escrito e dirigido por Eléonore Pourriat, Eu não sou um homem fácil é uma boa surpresa do Netflix. A produção francesa estreou em junho e pega leve em um tema muito atual, mesmo assim, vale a pena ser visto tanto por homens quanto por mulheres. O entretenimento é garantido principalmente pelas atuações de Vincent Elbaz e Marie-Sophie Ferdane. O primeiro convence como machista que vai se adaptando a nova condição de oprimido e a segunda como uma “mulher cafajeste”.

O filme opta por um caminho mais leve, lembrando muito mais o  constrangedor Do que as mulheres gostam, de 2000, com Mel Gibson, sobre um machista que descobre ter o poder de ler o pensamento das mulheres e passa longe do genial, A Cor da Fúria, de 1995, com John Travolta em um mundo invertido onde os negros são a casta superior e os brancos marginalizados.

O problema é que, o racismo contra negros é algo relativamente novo em termos históricos, datando da época da escravidão há 300 anos e agravado com as teorias eugênicas dos Séculos XIX e XX. A simples inversão dos papeis no filme de 1995 é suficiente para mostrar o absurdo da sociedade e causar incômodo e até, no meu caso, náuseas.

Já a situação da sociedade patriarcal remonta no mínimo uns 100 mil anos e não se restringe ao ser humano. Na verdade, a maioria das espécies de animais possui uma divisão da função entre machos e fêmeas e cada uma com características peculiares que foram, ou não, assimiladas pela raça humana. A simples inversão do papel não resolve o problema e ainda corre o risco de entrar no erro mais comum de pessoas leigas de pensar que o feminismo é apenas o contrário de machismo. (O contrário do machismo é a inteligência, caso alguém não saiba).

Por outro lado, a inversão dos papeis demonstra claramente que o mau-caratismo e a falta de consideração com os sentimentos das outras pessoas não é, infelizmente, apenas uma prorrogativa masculina, mas que a sociedade é mais tolerante com determinados deslizes de caráter de um gênero em detrimento de outro.



Faz rir, faz pensar e faz torcer



Mas se o filme não dá um parecer definitivo sobre as relações de poder entre machos e fêmeas da raça humana, ao menos consegue brincar com os clichês do gênero. E no momento em que fica claro a opção da narrativa por ser uma comédia romântica, confesso que fiquei até aliviado, já que o roteiro vinha se mostrando muito leve para um assunto tão pesado. Quando escolhe ser um estudo superficial, o filme se despe da pretensão de ser um tratado sobre o assunto e deixa claro que quer apenas divertir com um pouco de reflexão.

Neste contexto é fascinante como a direção aproveita os clichês do gênero comédia romântica para brincar e criticar a realidade. Quando Alexandra, por exemplo, percebe que Damien entende realmente de carros, ela começa realmente se apaixonar por ele, afinal, ele não é só um homem superficial preocupado apenas com moda e com a aparência. Ao mesmo tempo, mesmo sabendo e condenando as atitudes canalhas de Alexandra, ele não resiste a dar uma volta no carrão dela. Este momento beira o brilhantismo porque deixa claro que a diretora não vai ser condescendente com ninguém.

A piada sobre os “peitos pequenos” de Alexandra, os quais ela parece querer compensar com carrões e demonstrações de poder, também é digna de aplausos.

Os gays mostrados no mundo invertido também são um ponto alto. Trata-se apenas de homens e mulheres que se vestem de um jeito que a nossa sociedade acharia normal. Mas eles têm que fazer isso em um lugar reservado para não chocar.



Tem hora em que erra, mas tem grandes acertos



O problema maior de Eu não sou um homem fácil está no roteiro preguiçoso. Para começar, a transição para o mundo invertido é feita com Damien batendo a cabeça numa placa de rua. Não se preocupam em dar nenhuma explicação a mais. Tá certo que não precisa, mas a cena é meio broxante. Várias situações propostas como a relação de Damien com os pais não são resolvidas, simplesmente ficam de lado.

No final, fiquei com uma sensação de que, como é uma produção falada em francês e com uma ideia muito original, vai acabar saindo uma versão americana em breve e a história será melhor contada.



E se eu falei do maior problema, o maior mérito do roteiro para mim foi saber terminar a história de maneira coerente, sem cair na pieguice e também sem cair no dramalhão deprimente. Mas para saber o final, você vai ter que ver o filme. E, acredite, este filme merece ser visto!


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