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Entrevista de Christian Petersson
Autor: Clinton Davisson
Parte II
CP - Isso mesmo que você ouviu! (nervoso) Aquela coisa falou! Uma voz
que parecia ter saído do fundo do inferno, com um chiado enervante...
Uma pele verde pegajosa molhava meu peito e minha barriga. Seus braços
eram finos... A criatura falando...
L - Um diabo com asma?(ri nervosamente) O que ele disse?
CP - Ele olhou para os céus e disse: “Livre! Estou livre!”.
Depois, seus braços se dobraram e suas mãos pequeninas agarraram
a gola da minha camisa. Seu toque era viscoso como o de um inseto! Seu hálito
exalava podridão!
L - Ele falava português?
CP - Com sotaque alemão, eu diria! Apesar do chiado, dava para entender
bem o que ele dizia: “Não sabe como é... ficar aqui... você
não sabe como é! Fome! Muito tempo sem comer, eu preciso comer!
Você não sabe o que é ficar aqui!”.
L - Era a você que ele se referia quando mencionava comida?
CP - Foi a primeira coisa que perguntei! Se seria eu a próxima comida!
“Você me libertou! Dívida... eu tenho agora... dívida
com você!”, repetia. Eu perguntei o que ele gostaria de comer. “Você
me alimentar...sim...carne!”. Eu então comecei a me levantar e
ele escorregou para o chão com estranha habilidade. Todo o meu corpo
tremia convulsivamente. Só quando fiquei de pé é que notei
que minhas calças estavam molhadas (sorriu nervosamente). Eu não
liguei e apontei para o corredor que levava a cozinha. Ele se arrastava atrás
de mim dizendo: “Sim! Sim!”. Eu fui até a cozinha e peguei
dois bifes que haviam sobrado do almoço e joguei no chão próximo
a criatura. Ela dobrou os braços e segurou a carne. O espetáculo
que se seguiu foi tão apavorante, que me causou ainda mais náuseas.
A boca enorme se abriu ainda mais para abocanhar os dois bifes de uma só
vez, mastigava-os sem fechar os lábios.
L - Mas você não tentou fugir? (incrédulo)
CP - Estava paralisado de medo! Só consegui fazer o que ele pedia, me
pareceu lógico na hora. Minha respiração ainda estava difícil,
mas eu me esforcei para me portar como se aquilo fosse a coisa mais corriqueira
do mundo. Imagine só, um monstro na minha casa e eu não queria
que ele notasse que eu estava desconcertado... (risos nervosos)
L - Mas o que ele disse depois?(impaciente)
CP - “Eu te devo um favor! O que você quiser... Mindus pode fazer!
Mindus pode fazer qualquer coisa...”. Ele pareceu querer me tranqüilizar,
mas eu não iria parar de tremer tão fácil assim. Perguntei
o que ele era e sabe o que ele respondeu? “Gamoni”, respondeu naturalmente,
“Mindus é um Gamoni”. Eu já ia lhe dizer que ele só
precisava ir embora, mas perguntei: “O que você pode fazer por mim?”,
e ele sorriu novamente com aquela carranca! “Tudo! Hi! Hi! Hi! Mindus
pode fazer tudo, Mindus é um Gamoni, não é?”. “Lógico!”,
respondi, “Mas não pode me mostrar...”. Ele não esperou
que concluísse a pergunta e levantou seu braço fino direito num
gesto majestoso. Fagulhas douradas saltaram dos dedinhos verdes em direção
a porta da cozinha. Ao tocá-la, algo fantástico aconteceu: toda
a cozinha pareceu tomar vida. O fogão e a geladeira se transformavam
em pessoas, móveis, pirâmides, animais... Eu lembrei do desenho
animado do Aladim, com a voz do Robin Willians. Mindus ia falando: “Não
há limites para o que um Gamoni possa fazer para pagar uma dívida!
Todo o universo me ajuda! O tempo, o sol, a lua! Eles são nossos aliados!
Você pode ter agora o que você quiser!”.
L - Normalmente os gênios concedem três desejos!
CP - Mas ele não era um gênio, era um Gamoni. (impaciente) E depois,
gênios não existem!
L - E o que desejou? Dinheiro?
CP - Pedi um tempo para responder. Mas pensei logo na revista Playboy, imagine!
Um cara como eu, que só havia transado com onze mulheres a vida toda,
poderei desejar qualquer capa da Playboy! Poderia escolher um harém até!
Quem sabe poderia desejar mulheres famosas: Sharon Stone, Xuxa, Isadora Ribeiro,
Carla Pérez... Nossa! Poderia desejar que minha esposa tivesse um corpo
de coelhinha, né? Mas aí, lembrei-me de minha família e
resolvi que pediria dinheiro, muito dinheiro. Afinal, não há limites
para o que o dinheiro pode fazer pela vida de um homem. Poderia ser fiel para
o resto da vida, pagar plásticas, regimes, silicones, recauchutar minha
esposa toda, sabe? Ajudar meus pais! Era perfeito...
L - (risos) Recauchutar é ótimo! Mas...
CP - Enquanto eu pensava, Mindus projetava imagens de meus pensamentos! Me via
com a Xuxa, com dinheiro, como jogador de futebol, astro do rock.
L - Então você pediu dinheiro, uma montanha de dinheiro?
CP - Era perfeito, né? Mas...Mas...Sei lá! Era muito obvio pedir
isso!
L - Era mais do que óbvio, era lógico! Eu pediria dinheiro, qualquer
um pediria dinheiro! Ninguém perderia esta chance.
CP - Mas não foi isso que eu desejei!
L - Não acredito que deixou passar essa oportunidade após tanto
sofrimento seu e de sua família!
CP - Eu pensei durante duas horas, minha esposa já estava quase chegando
em casa, quando eu perguntei à criatura: “pode me fazer voltar
no tempo?”, ele conseguiu fazer uma expressão cínica naquela
cara horrenda. “Sim! Voltar no tempo... avançar no tempo! Mindus
pode fazer isso sim! Claro!”. E se eu voltasse como criança? E
se eu lembrasse de tudo, isto é, eu posso voltar a ter quatorze anos
e continuar a lembrar de tudo o que lembro agora?
L - E o que aconteceu? Eu quero dizer...
PC - Foi isso o que eu pedi! No dia 26/04/1985, minha mãe notou que seu
filho começou a ficar meio abobado e ao mesmo tempo elétrico!
Começou a ter idéias malucas do tipo: trabalhar, tocar instrumentos
musicais que nunca havia tocado antes, ler jornais estranhos, mas, sobretudo,
notou uma súbita e contagiosa alegria de viver que poucas vezes presenciara.
Começou a ter idéias esquisitas e a fazer estranhas previsões.
No ano seguinte, já era um dos astros do então chamado novo Rock
nacional. Depois compôs músicas consideradas obras primas em todo
o mundo como “Come as you are”, “smells like teen spirit”,
“more than words”. No Brasil, tinha sucessos como “Bem que
se quis”, “Tudo que vai”, “Oceano”, era um compositor
versátil. Em 88, resolveu se aventurar na literatura com livros falando
de magia e de anjos, outro grande sucesso. Já multimilionário,
resolveu investir muito dinheiro numa firma desconhecida, uma tal de Microsoft,
anos depois, virou o homem mais rico do mundo! Mais tarde resolveu investir
em cinema onde colecionou Oscars e mais Oscars. Ganhou muito dinheiro com a
loteria esportiva também...
L - Mas espere aí? Quer dizer que é esse o segredo do seu sucesso?
Achou um monstrinho e voltou no tempo? Então, foi por isso que você
disse, no início da entrevista, que conheceu uma realidade na qual o
nosso penta campeão Airton Senna teria sido morto em um acidente antes
do seu tetra campeonato?
CP - É... Hoje sou muito amigo do Aírton. Disse a ele, logo em
89, que, se um piloto morresse num treino em Ímola, ele não deveria
correr o grande prêmio. Em noventa e quatro, eu o convenci que devia reclamar
com os diretores do estádio sobre aquela curva chamada “tamburelo”.
Como forma de protesto, ele não disputou aquela corrida e os diretores
arrumaram a curva...
L - E o grupo musical que você descobriu em Guarulhos, o Utopia? Você
uma vez afirmou que eles deveriam mudar de estilo e cantar outro tipo de música.
Eles são conhecidos como o seu único investimento que não
foi bem sucedido.
CP - Ainda os estou convencendo a mudar para um estilo diferente, mais radical,
mais pastelão, mas eles acham que não daria certo. Foi um erro
meu, se eu não tivesse apostado neles tão cedo... Só me
preocupei em contratá-los rapidamente e proibi-los de viajar em qualquer
avião vagabundo.
L - Quem mais estaria morto? O Chico Mendes...?
CP - Com certeza! Até o Renato Russo e o Cazuza estariam mortos a esta
hora.
L – Isso é absurdo! Nessa eu não acredito! E o que estaria
tocando nas paradas de hoje no lugar destes compositores de sucesso? Pagode?
Funk? Sertanejo?
CP – Quem sabe? (sorriso misterioso)
L - Você é conhecido por namorar muitas de nossas garotas da Playboy
antes mesmo de posarem, houve até um boato de que era você quem
as indicava para nós...
CP - Como vê, minha história explica muita coisa, né?
L - Quanto às acusações do atual governador de Alagoas,
de que o Senhor teria sido responsável pela morte de dez políticos
num reveion em Angra dos Reis em 1988...
CP - Foi um infeliz acidente, naquele barco estavam o governador de Alagoas
Fernando Collor de Mello, O Deputado João Alvez, Paulo Maluf, Antônio
Carlos Magalhães, Fernando Henrique Cardoso e até o filho do ex-presidente
americano, o George W. Bush. Eram pessoas que eu estimava muito, sabe? Políticos
honestos e promissores! Eu convidei cada um deles e o barco explodiu antes que
eu chegasse, não se sabe o porquê. E ficou provado que não
houve negligência. O que eu teria a lucrar com a morte deles?
L - Para terminar, duas coisas, primeiro: Onde está o tal Mindus?
CP - Sinceramente, eu não sei. Ele realizou meu desejo e nunca mais o
vi.
L – Agora, aquela clássica pergunta: O que achou de dar esta entrevista
para Playboy?
CP - Tem um significado muito importante para mim. Eu sei que pouca gente vai
entender o que disse aqui hoje, mas eu tinha que contar isso um dia. Se acreditam
ou não, o problema não é meu!
(fim)