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Entrevista de Christian Petersson
Autor: Clinton Davisson


Lopez - Quer dizer que até ontem, você era um verdadeiro fracassado e que foi um desastre em todos os empregos pelos quais passou? Mas agora quer me convencer que tudo mudou? Ora! Francamente senhor Petersson...
Christian Petersson - Não é bem isso... (embaraçado)... Eu posso explicar... É que...
L - Está me fazendo de bobo, não é?
CP - Não... (disfarça com um sorriso amarelo) Eu jamais faria isso com ninguém! Eu juro!
L - Me convença então! (com ar desafiador)
CP - Está bem, acho justo explicar tudo. (risos) Afinal não posso esconder nada do senhor, não é?
L – Bajular não vai ajudá-lo agora, Senhor Petersson!
CP – (ainda mais embaraçado) Tudo começou na noite do dia 26/04/97, eu me lembro perfeitamente, é um dia que nunca mais vou esquecer! Eu acordei exatamente as sete e meia. Minha esposa trabalhava numa escola e eu estava desempregado há seis meses, estávamos passando uma época difícil, muitas dívidas, sabe?
L - Desculpe, Senhor Petersson, mas tivemos outras informações ao seu respeito...
CP – Por favor, tenha paciência comigo! Juro que vai entender! (nervoso) Naquela manhã eu havia prometido ir a um terreno de um amigo meu, o Charles. Só por isso que me levantei da cama. Tinha vontade de morrer! Você não sabe o que é isto, mas eu fiquei dois anos pulando de um emprego péssimo, para outro horrível! Aliás, minha vida toda era um tempo perdido! Tirando minha filha, não tinha nada mais no mundo de que eu me orgulhava, tinha sorte de minha mulher gostar de mim, sorte de ela enxergar, em mim, um homem que tinha potencial para vencer, mas nunca cheguei a mostrar a ela que estava certa, (os olhos brilham a ponto de ficarem úmidos). Mas isso não vem ao caso agora, né? Eu estava falando do Charles. Era um cara legal, tinha muito dinheiro e muito coração, sabe? O tipo de pessoa que eu gostaria de ser...
L - No que se refere ao dinheiro, ou ao coração? (risos)
CP – Eu não invejava o dinheiro! Acredite se quiser, eu invejava a pureza dele! Deus, como eu invejo a inocência! Ele não tinha passado pelo que eu passei, não senhor! Eu vi meus pais perderem todo o dinheiro que tinham com esses malditos planos econômicos e continuarem votando no governo! (seu rosto assume uma expressão furiosa) Eu vi minha namorada ficar grávida e tive que casar para proteger minha filha de uma família de lunáticos! Até aquele dia, sabe com quantas mulheres eu fui para cama, Senhor Lopez? Sabe? Pois eu lhe digo! Onze, para uma vida toda! Onze! Já estou no segundo casamento e vejo as oportunidades irem e virem. Tudo isso porque tinha esta mania de ser certinho. Sou fiel, porque não poderia trair uma mulher como minha esposa, ela era tudo o que eu sempre quis! Mas imagine se eu morresse naquele dia, eu teria morrido tendo transado com apenas onze mulheres! Era batata! Onze mulheres!
L - Ora francamente, Senhor Petersson! Fala de fidelidade como se fosse uma maldição. Não acha que está sendo machista de mais?
CP ( Faz uma pausa e respira fundo, envergonhado pelo que disse) - O Charles estava montando uma casa linda, próxima ao aeroporto, como eu estava desempregado, ele me chamou para ir com ele. Chegando lá, ele ficou conversando com o pedreiro. Aqueles papos de construção, tipo... Sabe? Onde vai ficar a varanda... Então resolvi andar pelo terreno, ficava próximo a uma floresta. Eu cheguei lá perto e comecei a jogar pedras nas árvores mais afastadas, treinando a pontaria.
L - Muito antiecológico...
CP - O mais estranho é que, apesar da mata ser bastante fechada, não se tratava de um lugar intocado pelo homem, muitas pessoas já deviam ter passado por ali nos últimos séculos, e eu não demorei a ver um brilho dourado entre as folhas no chão, entende? Eu vi o brilho na mesma hora e fui lá para ver o que era!
L - Vai me dizer que achou um diamante cor de rosa?
CP - Eu achei uma caixa dourada, pequena e que, mesmo suja, era muito bonita. Fiquei examinando-a por tempo, depois resolvi levá-la para casa.
L - Não mostrou-a para o seu amigo? Afinal, a caixa estava no terreno dele?
CP - Estava convencido de que não tinha valor comercial e depois, não estava no terreno dele, estava na floresta e eu não faço a mínima idéia de quem seja o dono daquela floresta. Mas isso não importa, o que conta é que eu levei o objeto para casa naquela manhã. Minha esposa não havia chegado ainda. Eu pude examiná-la, era cilíndrica, parecia um pote de iogurte, só que dourado. Tinha uns adornos muito bonitos em forma de rostos, expressões faciais, sabe? Eu comecei a achar que fosse feita de ouro e que eu pudesse vendê-la. Mas aconteceu uma coisa...
L - Você a esfregou e saiu um gênio? (risos)
CP - Não...! Eu a abri...Achei que fosse maciça, mas ela se abriu e uma coisa saiu de dentro dela! (faz um gesto enfático com as mãos). Eu levei um susto enorme, imagine! Uma coisa viva, verde, saindo de dentro de uma caixa pequena, uma coisa horrível! Se locomovia como se fosse um efeito especial. Era um bicho, mas não era uma coisa natural. E, quando encostou no meu braço, eu deixei cair no chão. Foi um reflexo, sabe? Já te aconteceu de ir a dispensa pegar um saco de farinha de trigo e, quando está levando para a mesa, percebe que havia uma barata andando sobre o saco e que agora está andando no seu braço?
L - Ahrg!
CP - Foi algo semelhante. Sua pele era gelada e úmida; ele se arrastou pelo meu braço e eu o deixei cair no chão. Quando olhei de novo, ele se escondeu atrás do guarda roupa. Mas eu pude ver! Deus, como poderia esquecer aquilo? Era horrível! Sem dúvida, era a coisa mais nojenta que tinha visto! Devia ter um metro de comprimento, o corpo era como o de uma cobra com braços finíssimos e sinistros como os de um louvadeus. Eu pensei em fugir, mas o apartamento era pequeno e só tinha uma saída. O guarda-roupas ficava exatamente ao lado da porta. Eu devia ter tomado fôlego e corrido, mas imaginei aqueles braços nojentos se esticando para agarrar minha perna. Eu dei dois passos para trás e tropecei num par de sapatos que minha esposa deixara cuidadosamente espalhados pelo quarto. Ela nunca foi uma grande dona de casa, sabe? Eu caí na cama e depois no chão. Arrastei os cobertores que caíram sobre mim, minha mulher também nunca dobrava os cobertores. Eu demorei a me desvencilhar deles. Quando ia tentar me levantar ela veio... Não parecia ter pressa... Tinha um brilho nos olhos, sabe? Um sorriso demoníaco! Seu rosto era como o de uma cobra do Egito, tipo Naja, sabe? Ele era quase todo igual a uma cobra, só que com braços e um sorriso... Um sorriso muito grande! Tinha a boca maior do que a de uma cobra, era desproporcional ao tamanho do rosto e tinha lábios grossos e dentes enormes, pontiagudos... E se aproximava, sabe? Eu fiquei com tanto medo que não conseguia mais me mover, eu só respirava forte, meu pulmão doía e aquela coisa rastejando pela minha perna. Levantou os braços e eu pude contemplar todo o horror de sua forma nojenta. Já estava sobre meu peito quando soltou um grito de satisfação. Já não restava dúvidas de que eu seria seu próximo banquete e já estava me conformando com isso. Pedi a Deus que tudo acabasse logo; que aqueles dentes enormes tivessem veneno para me matar mais depressa. Até que ele falou!
L - Ele o quê?

 

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