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(continuação)
Pelo monitor, acompanhavam os policiais fazendo um fusca parar e, sorte grande, eram três estudantes com bebidas alcoólicas no carro.
- Estão fudidos! – sussurrou Michele já prevendo o show que se seguiria.
Os policiais acharam mais do que bebidas no carro. Havia drogas, mas ninguém seria preso. Eles queriam era dinheiro. O tiro para cima foi para assustar e convencer os estudantes a liberar dinheiro mais rapidamente. Muitos estudantes universitários tinham pouco dinheiro, como Edmilson, mas outros eram bem abastecidos pelos pais. Se dava para comprar droga, dava para soltar uma grana para os policiais.
O momento maior do show da noite foi quando um policial se exaltou e lascou alguns bofetões no estudante mais cabeludo. Edmilson teve medo de um policial escutar as batidas de seu coração, tão forte pulava em seu peito. Depois de dez minutos de terror, os estudantes foram embora escutando gritos e provocações de policiais insatisfeitos com o pouco dinheiro arrecadado.
- Ufa... – disse Michele com suor escorrendo pelo rosto.
- Vamos dormir – disse Edmilson. – Agora é só deixar gravando. Não deve acontecer mais nada hoje...
Um detalhezinho importante para aumentar e euforia
O espetáculo estava apenas começando.
- Olha lá... – interrompeu Renata.
Os policiais pararam um negro, alto. Dava para ver que era negro mesmo com a câmera noturna sem muitas cores. Alguma coisa que o negro disse, deve ter irritado muito os policiais que começaram a estufar ainda mais o peito e falar alto.
- Negão burro, fica quieto! – pediu Michele ao monitor de tv.
Mas o negão foi andando displicentemente para frente sem a permissão dos policiais. Irritados, avançaram como cães enfurecidos. Renata tapou os olhos com as mãos. Edmilson arregalou os seus quando percebeu a carnificina que estava filmando. Um estrondo enorme foi ouvido quando um corpo foi arremessado para fora do campo de visão da câmera. Outro policial teve seu peito atravessado pela mão do crioulo que abriu a boca mostrando dentes reluzentes que se cravaram na jugular do homem fardado. Ouviu-se três, quatro, seis tiros. Não deu para perceber se o policial errou todos, ou se o negro era blindado. Edmilson só viu quando o braço que empunhava o revolver foi arrancado e devorado.
O negão, como foi batizado pelo policial, se sentou na rua deserta e, como se estivesse em um restaurante de luxo, se banqueteou com os guardas. Um deles, devia pesar mais de 100 quilos. Mas coube tudo, na barriga da criatura.
O monitor mostrou tudo. Cada mordida, cada policial devidamente comido, pedaço por pedaço.
- Bem feito! – disse Edmilson, quase sem querer, como se o terror mostrado no vídeo fosse apenas um filme no qual policiais corruptos foram punidos por um ser sobrenatural, talvez um herói.
- Ele está olhando para cá – praguejou Renata fazendo sinal com a mão para que o barulho cessasse.
Michele voltou correndo para a cama, como se pudesse se esconder ali.
Pelo monitor, os três jovens puderam ver os olhos do negro brilhando na escuridão como se fossem duas lâmpadas de néon vermelho. Com uma agilidade sobre-humana, o monstro pulou sobre o carro da polícia e, com um grande impulso, saltou sobre a janela onde os jovens estavam.
Renata gritou. Michele desmaiou. A janela se estilhaçou num estrondo. A coisa estava dentro do quarto. Edmilson não soltou nenhum som. Apenas contemplou horrorizado a criatura. A boca era desproporcional a cabeça e havia dentes demais. Tanto que a mandíbula não se fechava, apenas reluzia no quarto pouco iluminado. A barriga estava estufada, arredondada. Mas não parecia conter cinco policiais.
- Por favor – balbuciou Edmilson - , não vamos contar nada para ninguém. Aqueles caras tiveram o que mereceram.
A criatura sorriu. Dava para ver que aquela aberração era um sorriso. Os dentes começaram a se retrair até um ponto em que conseguiu falar.
- Vou-lhes dar uma escolha que eu nunca tive...
Como bom cinéfilo que era, Edmilson lembrou na hora do filme “Entrevista com o vampiro”. A escolha em questão é ser transformado em vampiro ou morrer. Edmilson quase sorriu. Talvez fosse uma coisa boa, virar um vampiro, se tornar imortal, invulnerável... Poder destroçar policiais com as mãos. Sim, poderia ser uma boa coisa.
Michele desfalecida foi a primeira a ser mordida no pescoço. O vampiro afagava o seio esquerdo da menina com a mão direita enquanto sugava o sangue com voracidade. Em seguida, ele cochichou algo em seus ouvidos. Ela acenou fracamente com a cabeça. O vampiro fez um corte no próprio pulso fazendo escorrer um sangue quase negro sobre os lábios de Michele que começou a se contorcer. Parecia um filhote de cachorro que cheira carne pela primeira vez na vida. Os gritos de dor e prazer que se seguiram eram quase sensuais.
Renata tentou fugir pela porta soltando um gemido quase infantil de frustração quando a criatura a alcançou com relativa facilidade e avançou em seu pescoço como um pitbull enlouquecido. Entre uma golada e outra, ele parava e descia o top para desfrutar dos seios empinados, tendo a gentileza de não mordê-los com força. As mãos apalpavam o sexo da menina com movimentos coordenados. A cena era excitante, mas não o suficiente para tornar o espetáculo menos hediondo. Os gritos de Michele eram cada vez mais histéricos e sensuais, como se ela estivesse tendo orgasmos múltiplos. Mas ela continuava deitada na cama.
Renata disse “Sim” para alguma coisa que o vampiro perguntou e recebeu também sua dose de sangue transformadora. Enquanto começaram as convulsões e gritos, o vampiro arrancou as roupas da morena e a penetrou com voracidade. O espetáculo de sangue e sexo perdurou por quase uma hora e ganhou a participação de Michele, agora devidamente vampirizada com direito a caninos do tamanho de um picador de gelo.
Finalmente, o vampiro se virou para Edmilson, caído no chão, cuja mente trabalhava em alta rotação, tentando aceitar o que estava por vir. No fundo, havia uma empolgação. Mas havia também incertezas. Todas as histórias de vampiros que já assistira, ouvira, lera ou pensara, chegaram a passar por sua mente. Mas Edmilson respirou fundo e chegou a duas conclusões distintas:
1º A escolha era virar vampiro ou morrer. O negão não tinha dado nenhum indício de que havia uma terceira opção. E Edmilson não achava boa idéia perguntar a essa altura do campeonato.
2º A sua vida atualmente não era algo agradável. Dívidas, problemas amorosos, rejeição. Não seria difícil escolher entre outra opção.
- Sim – bradou Edmilson solenemente-, eu quero me transformar também em um vampiro.
O vampiro se aproximou com um sorriso contagiante. Atrás dele, Renata e Michele se aproximaram com uma sensualidade latente nos olhos. Edmilson já podia sentir como seriam as sensações da orgia que teria com as duas meninas. Se vampiros fossem realmente imortais, esse bacanal perduraria por séculos a fio. A respiração ofegante foi seguida de uma ereção ainda discreta.
Uma coisinha para baixar a euforia
O vampiro não estava olhando para Edmilson quando falou de escolhas.
- Você daria um bom vampiro, com certeza! – admitiu o vampiro com um sotaque francês. – Muitos vampiros da Europa e alguns do Brasil apreciam ter parceiros masculinos, mas não é o meu caso. De fato, você vai me ser útil para outro projeto. Eu devorei cinco policiais e não cabe mais nada no meu estômago. Nem mesmo um magrelo como você. Mas acontece que minhas novas noivas estão muito famintas. Vampiros, como vocês costumam chamar nossa espécie, precisam de carne humana para se alimentar e é aí que você se encaixa: entre os dentes de minhas novas noivas.
Edmilson mal teve tempo de digerir as palavras. De fato, o olhar de Renata e Michele dizia muito mais. Era um olhar de desejo que nunca antes uma mulher lançara para ele. Era um olhar de fome.
A loura e a morena avançaram vorazes na direção de Edmilson. Morderam primeiro as partes macias, suas carnes nobres. A dor dilacerante era diferente de todos os machucados que ele havia sentido até então. Há poucos segundos atrás, ele se imaginava desfrutando do corpo das amigas. Agora, eram as amigas que o devoravam. Ele era o jantar principal daquela noite. As mordidas eram rápidas e cada vez maiores à medida em que as vampiras debutantes aprendiam a usar suas mandíbulas avantajadas.
Edmilson gritou, chorou, mas por pouco tempo. Ao fundo ele escutava um zumbido estranho, como o de uma serra de cortar madeira ligada. Ele lembrou de imagens de filmes e desenhos animados nos quais um bandido colocava alguém amarrado, sendo arrastado em direção a uma serra ligada. No último instante, um herói entrava para salvar a mocinha. Desta vez não houve herói. O zumbido foi aumentando até Edmilson perder a consciência por causa da falta de sangue e do excesso de dor. Renata e Michele tiveram dificuldade em abrir a cabeça do colega para comer seu cérebro. O negão teve que ajudá-las batendo algumas vezes a cabeça contra o chão até que se quebrasse como um coco maduro.
No dia seguinte. A prostituta Roberta encontrou a casa em ordem. O quarto estava limpo. Nenhuma gota de sangue. O carro da polícia nunca foi encontrado e o jornal apenas noticiou o desaparecimento dos policiais, fato creditado a alguns traficantes perigosos do município.
Renata e Michele mudaram para o curso noturno depois que perderam um semestre de aulas devido a uma inesperada viagem a Europa.
Fatos importantes para saber sobre o negão
Seu nome era Benedito.
Se tornou vampiro quando ainda era escravo em 1810.
Morou na França durante 70 anos.
Deu aulas em Paris para Michel Foucault.
Ficou com a fita e costuma assisti-la vez em quando acompanhado de Renata, Michele e de outras noivas.
(fim)