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Sexo, pizzas e vídeo-tape
de Clinton Davisson
O sonho de passar no vestibular de uma faculdade federal durou apenas seis meses. Chegou ao ponto em que Edmilson sentia no bolso a dura realidade de ocupar um local projetado para ser ocupado por uma elite econômica a qual ele não pertencia. As bolsas de R$ 100 não ajudavam muito, pois gastava mais do que isso só com transporte. Se as coisas não mudassem radicalmente, ele teria que deixar a faculdade.
Enquanto o tempo ia passando, ele se empenhava na criação de idéias milagrosas que poderiam tirá-lo daquela situação. Logo ele, que todos diziam ser o mais criativo da turma, se sentia impotente diante de uma política educacional que parecia conspirar contra ele.
Um dia, Edmilson sentou-se na biblioteca para ler em busca de inspiração e caiu de cara no livro Crime e Castigo, de um autor russo cujo nome ele não conseguiu pronunciar. A sinopse o atraiu, pois dizia que era sobre um estudante sem dinheiro. “Vou ver como ele resolveu a situação! Quem sabe funciona para mim também”, pensou Edmilson. Dois dias e quinhentas páginas depois, ele entrou na casa de sua senhoria, Dona Bernadete, cheio de idéias na cabeça e um machado na mão.
- Dona Bernadete, é o seguinte... – disse o estudante olhando a velhinha nos olhos.
- Oi, meu querido! Senta aqui, vamos comer um bolinho – chamou Dona Bernadete com o sotaque mineiro combinando com o cheirinho de café e pão de queijo que vinha da cozinha.
- Eu não sei se devo...
- Não faz cerimônia não, menino! – Dona Bernadete chamou uma vez com a mão e foi andando para a cozinha.
Edmilson não comia direito há uns dias. A tevê estava ligada e o cheiro do café e do pão de queijo o deixaram momentaneamente embriagado. Mas não havia só isso. Tinha bolo, pão fumegando, manteiga, milho verde e frutas.
Ao sentar a mesa, o garoto não escutou nada do que Dona Bernadete dizia. Apenas mastigava como se aquela fosse a sua última refeição.
- Mas o que você ia dizer, menino?
- Eu estou sem dinheiro, Dona Bernadete – disse com a boca cheia de pão de queijo. – Eu estou ficando desesperado com essa situação.
Coisas que você precisa saber sobre Dona Bernadete
Seu marido construíra a pousada durante 13 anos e morreu um mês antes da inauguração.
Depois de cinco anos de luto, ela então com 29 anos, se juntou com um rapaz de 22 e viveram felizes por 14 anos.
Ela se separou dele porque ele já não era mais um rapaz e não tinha emprego.
O ex-rapaz a ameaçou com uma faca numa noite sem lua dizendo que ela nunca poderia abandoná-lo assim.
Dona Bernadete nunca abandonou o tal rapaz que está até hoje enterrado, com um tiro na cabeça dado por ela a queima roupa, embaixo de um abacateiro no quintal da pousada.
- Se precisar de um prazo maior para pagar o aluguel, a gente dá um jeito – falou docemente enquanto abria a gaveta de um móvel antigo na cozinha revelando o interior cheio de maços de notas de cinqüenta reais. – Esse mês estou bem de dinheiro, olha! Faz assim: paga no mês que vem, tá certim?
Edmilson olhou as notas e respirou fundo. Depois esticou a mão para o machado que jazia ao seu lado. Dona Bernadete ficou parada olhando, sem saber o que se passava. Nem ao menos perguntou para o que era aquele instrumento.
- Eu queria me oferecer para cortar aquele abacateiro que a senhora tanto reclama...
- Senhora tá no céu – disse com sua voz chiada de vovó. – Meu lindo, como você é meigo. Eu pago sim. Quanto você quer?
- O que a senhora dizer que pode dar, mas mim está bom.
Dona Bernadete sorriu como uma menina levada e tirou uma nota de R$ 50 do maço, entregou na mão de Edmilson e deu uma piscadela. Quando se virou, Edmilson fez um movimento brusco, suas mãos se levantaram segurando a nota de cinqüenta e o machado. No recinto, ouviu-se um grito.
- Tive uma idéia!
- Que susto, menino! Quer me matar? – protestou Bernadete.
- Desculpe, mas é que eu estava olhando essa matéria na televisão e tive uma idéia para ganhar um bom dinheiro.
- E que idéia é essa, menino?
- Eu te conto depois que cortar o seu abacateiro...
Uma semana depois, Edmilson estava em uma sala de estar da casa de uma prostituta que conhecera durante as comemorações de aprovação no vestibular. Roberta tinha um metro e quarenta e nove de altura, mas um corpo proporcionalmente bonito. Suas fotos na internet atraiam muitos fregueses que acabavam perplexos quando descobriam seu objeto de desejo possuía aproximadamente vinte centímetros a menos do que o esperado. Essa perplexidade dura valiosos quarenta segundos, quase dois segundos por centímetro. Indecisão o suficiente para Roberta mostrar outros argumentos que acabavam convencendo a pessoa a ficar e dificilmente se arrependiam. A moça tinha o corpo voluptuoso, mas sólido como se fosse esculpido em madeira. Foi o caso de Edmilson há seis meses atrás. Mas hoje o dinheiro que entregara para ela não era para pagar sexo, mas uma noite de aluguel. Ele se lembrara que a vista da janela da prostituta dava para o que ele considerava a sua mina de ouro. Roberta foi para a casa de uma amiga e Edmilson esperava duas amigas...
Coisas que você precisa saber sobre Edmilson
Ele ajudava Dona Bernadete a levar o lixo todos os dias de manhã cedo antes de ir para a faculdade.
Ele faz faculdade de comunicação
Ele pensou em matar os pais quando fez 19 anos porque teve raiva.
Ele se arrepende todo santo dia de ter deixado esse pensamento absurdo passar por sua cabeça.
Exatamente às 22h em ponto, Michele chegou. Era uma loura de seios grandes, apelidada de S.O.S Malibu pelos meninos. Sua aparência a traumatizava um pouco, pois queria mostrar a todos que seria uma boa jornalista. Ela se esforçava para conseguir bolsas de estudos, mas, como sua família era tradicional na cidade e bem abastada, era acusada de mercenária pelos companheiros de sala. Mas ela queria provar para si mesma que podia ser mais do que uma descendente de uma família tradicional da cidade.
Coisas que você precisa saber sobre Michele
Sua mãe havia tentado abortá-la por pensar que a filha era de outro homem.
Ela fugiu com um homem de 39 anos na véspera de seu aniversário de 14 anos.
Ela roubava salgadinhos em uma lanchonete chamada Água na Boca e fazia isso com certa regularidade.
Renata chegou depois, um pouco atrasada. Era um pouco baixinha, mas com o rosto copiado da Charlize Theron, só que com os cabelos negros. O corpo não ficava muito atrás. Os seios não eram tão grandes quanto os de Michele, mas eram majestosos, com uma aerodinâmica incomum. Apontavam para cima sempre, de maneira imponente. Dava para encontrar o céu há qualquer hora do dia usando os seios de Renata como bússola. Os olhos eram grandes de um castanho cheio de vida e a boca... Ó, que boca. Edmilson sonhara dezenas de vezes com aqueles lábios que pareciam os de uma boneca. Sólidos, firmes e brilhantes. Liberavam uma voz suave e quase hipnótica. Mas Renata gostava era dos badguys, nada em Edmilson interessava a Renata ou a Michele. Para ele, elas eram tudo de bom. Uma paixão tão louca que chegava a doer. Em seis meses de faculdade, era para elas que ele dedicava pelo menos 80% de suas atividades onanísticas. Mas suspeito que Renata ultrapassava Michele no amor platônico de Edmilson. É difícil dizer até onde o desejo de um homem se difere de suas paixões. Mas isso não importa muito. Porque um cara que não tinha dinheiro para pagar o aluguel, nem físico para chamar a atenção, ou mesmo inteligência o suficiente para impressionar. Não despertava nenhum desejo, por menor que fosse, em Renata ou Michele. Edmilson era sem sal como arroz de sogra.
Coisas que você precisa saber sobre Renata
Seus pais vieram de Goiânia e estiveram entre os expostos ao césio 137, em no acidente de 1987. Foram orientados a não se casar e ter filhos, para diminuir o risco de seqüelas da radiação.
Segundo eles, Renata nasceu acidentalmente.
Se fosse menino, ganharia o nome de Césio Túlio...
- Pronto, eu trouxe a câmera – disse Renata tirando a alça da bolsa dos ombros e colocando sobre a mesa.
- Gente, pelo amor... – suspirou Michele ansiosa. – Olha lá o que vocês vão fazer, ein? Essa câmara filma mesmo no escuro?
- Filma sim, eu testei ontem – falou Renata com firmeza.
Edmilson despia as meninas com os olhos. Michele usava calça cargo marrom, larga e confortável. Como todas as mineiras de Juiz de Fora, usava sapatos. Nada de sandália ou tênis. Sapatos. De preferência scarpin. Usava também uma blusa vermelha com um decote generoso valorizando ao máximo os seios exuberantes.
Renata estava vestida com um top sem soutien fazendo pouco caso da lei da gravidade. Um shortinho branco completava o tom casual da vestimenta e mostrava o brilho dourado de um par de coxas arredondadas preenchidas de pelos dourados. Edmilson gostava de imaginar que estava no céu, diante de dois anjos. Imaginava que milagre poderia acontecer para que estas figuras celestes sentissem algum desejo por ele.
- Eu já pedi pizza, tá? – comunicou Edmilson.
As meninas se entreolham.
- Está meio cedo, né? – comenta Renata.
- Eu não sei se eles entregam depois da meia-noite. E eu estou com fome...
- Tudo bem... – Michele encolheu os ombros. – Eu jantei pouco e já faz uma hora. Acho que uma pizza vai bem a esta hora.
Edmilson pegou a câmera na bolsa e a observou.
- Lembraram de apagar as coisas aqui? – indagou sem tirar os olhos do aparelho. – Não queremos ser identificados, só queremos o dinheiro.
- Eu apaguei tudinho – garantiu Renata.
Michele se encaminhou para a janela, seguida de Renata. Ambas se esgueiraram por entre uma fresta pequena na cortina.
- Os policiais já estão ali?
Edmilson se virou para responder, mas perdeu alguns segundos analisando o belo corpo das amigas novamente. Uma loura e outra morena. Talvez duas das mulheres mais bonitas que ele já havia visto. Bendita seja Minas Gerais, pensou.
- Não... Acho que não chegaram.
Outra coisa que você precisa saber sobre Edmilson
Ele era um babão.
As mulheres o achariam menos sem sal se ele não fosse tão babão.
Três horas, uma pizza e quatro litros de coca-cola depois, tudo estava escuro dentro do quarto, menos a televisão que mostrava tudo o que a câmera filmava montada sobre um tripé e apontada para fora da janela. Edmilson estava encostado na parede junto com Renata enquanto Michele estava deitada na cama da prostituta em um sono profundo. Enquanto Michele olhava distraidamente para a tela de tv, Edmilson vislumbrava sorrateiramente os seios da loura que se insinuavam sua potência pela camiseta. Quase instintivamente seus olhos procuraram os seios de Renata que percebeu o olhar, mas apenas sorriu achando graça da situação. Foi quando os gritos começaram.
Michele abriu e arregalou os olhos castanhos A respiração dos três estudantes de comunicação se tornou ofegante. Eram gritos seguidos por tiros. O plano de Edmilson estava dando certo.
O monitor mostrava um carro patrulha parado na rua com cinco policiais do lado de fora, com os peitos estufados e os queixos empinados como cães a espera de uma briga. Eram duas horas da manhã e todos que por ali passavam, levavam uma dura. Edmilson havia visto aquilo quando estava na sétima série. Um cara havia gravado policiais batendo em pessoas e até matando um cara em São Paulo. Ouvira alguém dizer que estavam fazendo isso naquela rua também em Juiz de Fora.
E se ele gravasse isso? Seu professor disse que uma gravação dessas valia, no mínimo, uns vinte mil reais em uma grande emissora de tv. O plano era perfeito. Eles só precisavam ficar quietos e deixar a câmera fazer o resto.
Coisas que o Edmilson não sabia
Emissoras de TV já pagaram até R$ 100 mil por coisas semelhantes as que ele estava filmando naquele exato momento.