Meu
primeiro contato com a ficção de Clinton Davisson foi
quando fiz uma resenha do divertido “Fafia – A Copa do Mundo
de 2022” para o Diário do Vale. Foi uma grata surpresa
conhecer mais um autor de ficção científica brasileiro
com um perfeito domínio do gênero. Capaz de misturar temas
como Copa do Mundo, futebol, alienígenas e conspirações
e produzir um resultado saboroso.
“Hegemonia – O Herdeiro de Basten” é um trabalho
bem mais ambicioso que celebra um casamento entre dois gêneros
que sempre andaram lado a lado. A ficção futurista e a
fantasia heróica no estilo chamado comumente de “espada
e magia”.
Vários
autores estrangeiros já incursionaram por estes dois universos,
como por exemplo Michael Moorcock, Jack Vance e Fritz Leiber. Mas poucos
enfrentaram os problemas de se estabelecer uma ponte entre esses dois
mundos, aparentemente incompatíveis.
Um dos primeiros, como todo fã de histórias em quadrinhos
deve saber, foi o Alex Raymond com suas aventuras do herói Flash
Gordon. Flash viajava de foguete para o planeta Mongo e encontrava um
mundo onde espadas e armas de radiação dirigida conviviam
lado a lado. Uma convivência que foi encarada a princípio
com ironia, tanto pelos críticos quanto pelos autores do gênero
e representa bem um dos problemas que o autor deve enfrentar quando
navega entre esses dois universos.
Quase todo mundo se lembra de uma cena memorável, no primeiro
filme do Indiana Jones. O herói esta sendo perseguido pelas ruas
do Cairo e de repente topa com um terrível espadachim. O guerreiro
exibe sua destreza no manuseio de uma adaga reluzente e se prepara para
fazer suchi do herói. Mas Indiana Jones não se abala.
Ele saca da sua pistola calibre 38 e derruba o espadachim com um tiro
certeiro. Ou como diria outro personagem, também imortalizado
pelo ator Harrison Ford: “Não há nada como um bom
“blaster”.
Entretanto, armas brancas e armas de fogo podem conviver num mesmo universo,
desde que usadas de modo sensato. Nos exércitos modernos as baionetas
e facas são usadas no combate corpo a corpo enquanto as armas
de longo alcance, sejam de projéteis, sejam de radiação
dirigida, são usadas contra inimigos distantes. Mesmo na Guerra
de Tróia já existia essa diferença. Espadas para
combate corpo a corpo, lanças e flechas nas distancias maiores.
No
livro que vão ler o autor dá um passo adiante ao criar
uma arma embutida na derma, a armadura cibernética do herói,
que pode produzir tanto uma lâmina de energia, estilo Guerra nas
Estrelas quanto uma lâmina sólida. Transformando energia
em matéria graças a um domínio avançado
da teoria das cordas. Aposto como Darth Vader adoraria Ter uma dessas,
mas o império galáctico do George Lucas não está
tão avançado quando o império galáctico
da Hegemonia.
Ao ler “Hegemonia – O herdeiro de Basten” eu me lembrei
o tempo todo de duas frases. A primeira foi dita por Arthur C. Clarke
em meados do século passado: “Toda tecnologia suficientemente
avançada é indistinguível da mágica.”
A Segunda lembrança foi uma resposta dada pela personagem Angela
Duncan a Daniela Lavinci no conto “A passageira dos sonhos”
que faz parte da minha última antologia, “As sereias do
espaço. Daniela sonha com um mundo povoado por dragões,
nalgum recanto distante da nossa galáxia e pergunta a Angela
se isso é possível. “O universo é tão
vasto, praticamente qualquer coisa que você imaginar pode existir
em algum lugar.” É a resposta da minha heroína.
Com isso em mente sejam bem vindos a galáxia da Hegemonia. De
sua capital em Dison, um mundo dentro de uma concha que circunda inteiramente
uma estrela até o distante planeta artificial Elôh. Lar
da casa de Basten. Uma terra de panoramas fabulosos que capturam nossa
imaginação. Montanhas que flutuam no ar, oceanos onde
a gravidade enlouquece erguendo muralhas de água. Terras de sonho
onde humanos, dragões, sereias e fadas convivem numa difícil
harmonia.
É neste cenário que o herói, Ron-ger Schowlen enfrentará
uma difícil jornada de auto-conhecimento, procurando unificar
as várias raças que habitam o planeta, conhecendo o amor,
a lealdade e enfrentando um mistério que ameaça a todos.
Clinton Davisson consegue uma união perfeita entre a ficção
científica hard e a espada e magia. Se fosse obra de um autor
norte-americano ou europeu, “Hegemonia – O herdeiro de Basten”
já seria uma realização notável. Aqui, entre
nós, enfrentando as dificuldade que todo autor brasileiro enfrenta
esta obra é quase um milagre a ser celebrado. Só aqueles
que já escreveram ficção e fantasia no Brasil sabem
como é difícil vencer a resistência dos editores,
o preconceito e a ignorância do público.
Há quem fale numa “invisibilidade” da ficção
científica no Brasil. Mas não somos invisíveis.
Temos bons autores, tão bons quanto os do chamado “primeiro
mundo”, o problema é que nunca tivemos as circunstâncias
históricas que tornaram este gênero popular na Europa e
na América do Norte. Júlio Verne na França e Herbert
George Wells na Inglaterra são considerados os pais do gênero.
Mas eles só ficaram conhecidos porque publicavam os seus trabalhos
em jornais. Os jornais europeus do final do século dezenove publicavam
romances em capítulos nos seus cadernos de cultura. E foi assim
que o público conheceu “A guerra dos mundos” e as
“20 mil léguas submarinas”. Na forma de seriados,
publicados em jornais populares.
Nas primeiras décadas do século vinte a ficção
científica e a ficção heróica conquistaram
seu público na América do Norte graças ao mercado
das revistas baratas, os “pulps magazines”.
Editores
como Hugo Gernsback e Joseph Campbell revelaram autores que depois seriam
responsáveis pela chamada era de ouro da ficção
científica norte-americana. Gente como Edgar Rice Burroughs,
o criador de Tarzan, Edmond Hamilton e E. Doc Smith surgiram nas páginas
marrons dessas revistas de capas coloridas e berrantes. No Brasil, infelizmente
não tivemos nada disso e a ficção científica
só se tornou popular graças ao cinema e aos seriados de
televisão. Até autores célebres como Tolkien só
se tornaram conhecidos entre nós depois que suas obras viraram
filmes milionários.
Mas nossos autores insistem, e por puro amor a sua arte e ao desejo
de contar uma boa história acabam vencendo todas as barreiras.
Portanto virem a página e mergulhem num mundo mágico onde
a ciência e a magia se confundem. Um mundo de montanhas geladas,
mares tempestuosos, batalhas épicas e seres inesquecíveis.
Bem-vindos aos mundos da Hegemonia
Jorge Luiz Calife
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