| |
Diário de Fucô Tusanno
Memórias para o futuro
Deixo esse diário para evitar que os vermes levem
além de minha carne toda, a faculdade que
ainda me resta. Eles não me vencerão!
Pensei em começar essa história com risadas, gargalhadas altas que, mesmo lidas, podem ser ouvidas. Daquelas que perseguem, grandes “HAHAHAs” correndo em vermelho atrás dos leitores amaldiçoados deste diário. Mas desisti. O diário é sobre a minha vida, e eu nunca gargalho, eu não sorrio, eu esqueci a cor dos meus dentes e só lembro deles quando como em frente ao espelho.
Se eu não sei por onde começar, pelo menos eu sei por onde não começar, e assim ninguém pode me acusar de não ser verdadeiro, porque, apesar de eu não ser eu mesmo, eu não minto sobre minha não-existência.
Talvez eu devesse começar com o meu nascimento, mas de tão ordinário ele acaba se tornando irrelevante e rodear um acontecimento que não modificou nem mesmo a rotina pueril de meus pais não é uma alternativa.
A maioria dos gelfos que eu conheço prefere morar em árvores, lá no alto onde os comedores de carne voam. Eu não gosto deles, não me sinto bem quando vejo seus olhos amarelados sobrevoando minha casa, por isso moro embaixo, dentro de uma rocha, porque sou forte como ela.
A casa é pequena e aconchegante, perfeita para mim e para as minhas necessidades, mantenho todas as paredes cobertas, a cor da pedra me incomoda, me lembra leite azedo, apodrecido no canto da casa do meu pai. Eu sempre jogava o leite lá quando não queria tomá-lo.
Potes na floresta para guiar meu caminho.
Sempre gostei do seu jeito de sorrir, mesmo quando eu gritava com você, pedia por silêncio e parecia severo, eu gostava do seu modo de sorrir, do som da sua gargalhada, do movimento dos seus bigodes.
Mas esse diário não é sobre você, esse diário é sobre mim e sobre o que eu sinto.
Eu falava sobre as paredes e sobre como prefiro que elas fiquem cobertas de coisas: na minha sala tenho cerca de 20 plantas, chamo todas pelo nome, e cada uma me responde quando está de bom humor.
As rosadas são sempre dóceis e me respondem toda manhã, as arroxeadas de vez em quando me xingam por não molhá-las como deveria e eu, em forma de aviso aponto meu indicador esmagado e semi-inerte em direção delas, o que faz com que elas fechem logo suas matracas.
As verdes são sempre serenas e na maioria das vezes não se dignam a responder qualquer cumprimento meu, como se eu fosse um subalterno. Relevo esse pequeno detalhe pelo aroma que elas dão à minha sala e pelo frescor que deixam meus pêlos úmidos de manhã.
Não converso com as plantas negras, na verdade não sei porque as mantenho aqui, elas são feias e estão sempre à espreita, toda vez que ouço algo vindo delas sinto minha nuca se arrepiar. Como não consigo me livrar de nenhuma dessas infames traidores, finjo que não existem e às vezes tento matá-las de sede, morte essa que se mostrou ineficaz diversas vezes.
Além das plantas mantenho sempre nas paredes as pinturas que faço, sendo esse o último recurso para reavivar minha memória caduca. Tenho aqui pintados todos os lugares que já fui, também guardo os locais para onde tenho que ir, tudo isso na sala.
No meu quarto deixo as pinturas que expressam melhor quem eu sou, para que, ao acordar todo o dia e olhar para elas eu não me esqueça disso. Tenho também retratos de todos os meus inimigos, e apesar de muitos já terem sido eliminados pelo inclemente punho do destino que nada perdoa, ainda os mantenho aqui para atiçar esse meu coração com as brasas da justiça que não tarda muito e que não falha nunca quando se trata do devido troco.
Eu rolo morro abaixo quando chove, como lama suja.
Na guerra as crianças corriam em bandos, elas se juntavam como animais assustados, gritando por suas mães mortas e chorando por seus pais. O sangue dos gelfos é mais espesso do que o normal, por isso andar pela cidade dos gelfos marinhos em chamas era sempre ver pessoas cobertas de sangue, que parecia um melaço, grudando nos pêlos e empapando suas roupas. Mas nada disso me esmorecia, nada disso me mortificava, eu não tinha pena e instintivamente passava a língua nos dentes quando via essas cenas, como a saborear uma carne nobre.
Não fui sempre assim solitário, antes eu tinha outros ao meu redor, eu acreditava no poder da palavra, acreditava que se eu pudesse contar tudo às pessoas, elas poderiam senão sentir, ao menos me entender. Mas esse tempo passou.
Quem começou a me mostrar que essas coisas eram bobagens foi meu pai: o velho Bartes. Estúpido como ele só, mas perseverante e forte como essa rocha que hoje habito, o velho Bartes passava dias sem emitir um único som, e mesmo assim se comunicava muito bem. O gado sabia exatamente quando ele ia lavar as patas ou quando passaria a escova nas orelhas longas para retirar incômodos carrapatos gordos de sangue.
Nos dias chuvosos o velho sentava-se na sua cadeira desgastada e barulhenta de balanço bebendo de sua enorme caneca e conversando com os deuses. Ele parlamentava silenciosamente e quando eu, um menino inquieto e mirrado, o perturbava, ele replicava entre enérgico e sereno:
_ Não vê que estou conversando com os deuses?
Eu ficava abismado e procurava em todos os cantos de nossa varanda os deuses, chegava mesmo a levantar potes pensando que eles poderiam estar escondidos rindo às minhas custas. E quando, exausto de procurar eu ia interpelá-lo:
_ Não os vejo em nenhum lugar e também não ouço nem sua voz papai, nem a deles. Onde está então essa conversa?
Ele sorria (coisa rara) e com sua mão cheia de calos afagava minha cabeça:
_ Os deuses não precisam estar aqui para se fazerem presentes e eu não preciso pronunciar palavras para que eles me ouçam. Quando se sente muito forte e quando se mantém essa força dentro de si, as palavras tornam-se inúteis, todos entendem você pela sua respiração.
Depois de momentos como esse ele geralmente se fechava na sua quietude e se eu ousasse insistir mais tomava um tapa na altura de meu pescoço, para desespero de minha mãe que odiava a brutalidade do velho.
Roxo. Como seu olho na nossa briga.
Eu poderia dividir esse diário com um cabeçalho. Pareceria mais organizado e você que está aí no futuro lendo a minha vida poderia se relacionar melhor com o tempo. Mas eu tenho que confessar que eu não sei que dia é hoje. Não me preocupo com datas e só sinto o tempo transcorrer por causa da necessidade de dormir.Assim sendo, não posso ajudá-lo a se encontrar.
Ontem à noite ouvi vozes aqui perto de casa. O comum é que por esse horário as plantas estejam silenciosas e somente eu e o fogo da lareira falemos, mas não foi assim que aconteceu.
Eu estava sentado saboreando minha moranda e então os ouvi:
“_ Eles estão perto!
_ Posso sentir o cheiro do pêlo deles, acho que deveríamos descer hoje.
_ Não! Eu já lhe avisei que devemos olhá-los primeiro, estudá-los, não podemos nos dar ao luxo...
_ Nos dar ao luxo de quê? Olhe para eles! São pequenos e frágeis! Todos juntos não conseguiriam matar nem um de nós.
_ Você subestima todos que são menores em altura do que você, por isso continua sendo um subalterno e continuará o sendo para sempre.
_Ora! Cale-se!
_ Você está realmente mandando seu superior se calar?
_ ...
_ Responda!
_ Não, senhor.
_ Ótimo. Vamos embora antes que algum deles nos note. Não quero pânico agora e também não precisamos avisá-los de nossa presença assim tão cedo.”
Ouvi um lufar forte de asas e fiquei sentado na minha cadeira mudo de medo. Alguém nos observava! Mais de um! Comedores de carne! Olhos amarelados na noite! Agora eles não estão somente no alto, mas também perto de mim.
Estarão me seguindo? Não. Não acho possível que eles me enxerguem aqui dentro, minha porta é disfarçada e minhas janelas mantêm-se fechadas de noite. Eles não falavam de mim. Eles falavam de nós, os gelfos. De todos nós! Malditos comedores de carne!
Sangue que escorre pelas paredes! Escorre: es – corre. Quem corre? Ninguém! Não conseguirão, todos ficarão. Sangue que escorre pelas paredes!
Não consegui dormir naquela noite, andei pela casa, de olhos abertos e focinho atento, tentando, inutilmente, sentir o cheiro dos monstros. Eles não voltaram, mas eu sabia que eles chegariam, que voltariam para terminar com todos nós, para saborear nossa carne, que mesmo pouca lhes parecia inestimável.
Acho que será uma guerra. Tão traiçoeira quanto a que se abateu sobre minha família e que eu, com justiça soube vingar anos atrás. Serão esses comedores de carne amigos dos gelfos marinhos? Será que eles esperaram anos para se vingar assim como eu esperei? Destruirão nossas famílias?
Chamas pela cidade dos gelfos marinhos. Fumaça. Gritos estrangulados. Casas destruídas. Vejo pelo chão uma infinidade de objetos que os desesperados gelfos deixam para trás, enquanto tentam inutilmente salvarem suas vidas: panelas de pedra, cachimbos de gudango, roupas feitas à mão, casaquinhos para bebês que não sentirão mais frio, pequenas bolinhas de madeira que as crianças usam para brincar, lanças partidas em batalhas inúteis. Está tudo lá. No chão. Como um tapete feito de retalhos históricos, retalhos de memória, retalhos esses que se eu puder também destruirei, para apagar até mesmo da memória esse povo.
Estremeço. Eles quererão a mesma coisa que eu? Buscarão limpar nossa vila de nós mesmos? Só eu posso ajudar, só eu posso impedir.
Arrumo minhas coisas para a viagem. Preciso descer hoje, encontrar Jepolás, falar com ele, soube que já tem crianças e mesmo ele sendo um ingrato, não merece ver seus filhos morrerem nas mãos dos comedores de carne.
Preciso do meu cachimbo, uma zrinka* para água, frutas para me manter forte durante a subida da volta, um casaco caso esfrie e uma pequena adaga para defesa. Levarei a pintura do local para onde vou e também da minha casa senão, no caminho, perderei para as nuvens a lembrança de onde quero ir e não atinarei de onde vim, ficando perdido para sempre.
Não preciso carregar uma pintura de Jepolás, dele nunca me esqueci, não importa quantos anos passem, não importa o quanto eu peça para as nuvens retirarem ele da minha memória, ele continua aqui. Lembro de seu sorriso e de sua gargalhada, de seu aperto de mão forte que sempre denotou seu caráter bom. Ingrato! Deveria ter morrido! Deveriam os deuses terem levado esse maldito antes que cruzasse meu caminho.
Mas não devo duvidar dos caminhos dos deuses. Ele sobreviveu a tudo e chegou até mim, e agora não posso simplesmente deixá-lo morrer, deixá-lo perder sua família nas mãos de comedores de carne como perdi a minha. Não me vingarei dele nessa moeda, não darei a ele a dor eterna de ver tudo que se tem desvanecer com golpes de lança. O troco virá, mas não será assim.
Bom, aviso a você, amigo leitor, pois de fato já consigo imaginá-lo, que eu ficarei talvez dois dias sem tocar nesse precioso relato. Mas não se desespere, quando eu voltar de Tekona deixarei você ciente de tudo. Não levarei o diário dessa vez, mas quem sabe das próximas eu não o carregue comigo para não deixá-lo sozinho.
Ir para Tekona. Tenho que partir agora. Antes que os comedores de carne voltem. Antes que seja tarde demais.
Fim do primeiro capitulo.
Glossário:
* ZRINKA: pequena moringa feita de pedra, ideal para carregar água e mantê-la fresca. |
|