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Apesar do medo, a menina largou a mão do pai. Foi procurar a
bola que havia caído de sua mão. O circo estava transbordando
de gente. A noite se fazia sentir fria e escura. O vento vinha com cheiro
de poeira.
Mesmo com dez anos, ela era medrosa. Mas o pai lhe disse em casa, antes
de sair, que não compraria outra bola se ela a perdesse de novo.
Mesmo assim, ela insistiu em levar a bendita bola de plástico. Nunca
mais o pai tornaria a vê-la.
Por isso ela correu atrás da bola de plástico, que quicou
e entrou numa porta aberta. Era a porta de um barraco de madeira velho.
Lá dentro, tudo era escuro. Uma escuridão sufocante, claustrofóbica.
Ela sentiu a barriga congelar de medo. Sentiu náuseas, mas seu pais
disse que não compraria outra bola. Ela chegou na porta, mas tudo
continuou escuro lá dentro. O cheiro de mofo era forte. Lentamente
seus olhos foram se adaptando à escuridão. Das diversas formas
escuras que podia discernir no chão do barraco, uma era arredondada.
Deu um passo para dentro daquela escuridão e imaginou que monstros
podiam habitar naquele ambiente mofado. Deu dois passos e procurou um interruptor
de luz, mas não achou. Imaginou que alguma coisa poderia segurar
sua perna, algo que teria a mão peluda e molhada. Seu coração
acelerou. Sentiu vontade de correr para fora do barraco, mas seu pai não
compraria outra bola. Ele que nem sentira sua falta!
Deu o terceiro passo para frente. A escuridão pareceu engoli-la.
Imaginou novamente uma coisa saltando sobre ela. Algo que teria um
hálito de repolho podre e dentes afiados. Mesmo assim deu o quarto
passo. Desta vez pode ver bem a bola. Se abaixou para pega-la. Sentiu a
poeira do chão em suas mãos. Levantou-se e caminhou apressadamente
para a porta. Seu medo foi aumentando, o coração disparou.
A coisa agora poderia puxa-la para dentro da escuridão, fazer
coisas com ela que seriam mais horríveis do que qualquer imaginação.
A menina fechou os olhos e correu. Sentiu os ouvidos zumbirem, a respiração
ofegante. Quase podia sentir a presença da coisa!
Quando abriu os olhos, estava do lado de fora do barraco. A bola em
sua mão. Novamente o vento soprava em seu rosto. Finalmente suspirou
aliviada.
- como vai?
Ela olhou para o lado e viu uma coisa estranha, porém engraçada:
um palhaço olhava para ela de uma pequena janela, de um outro barraco.
Ele estava com a cabeça e um braço para fora da janela.
- Quem é você? – perguntou a menina.
- Me dê a mão, eu estou preso aqui! – disse o palhaço
sorrindo.
A menina também sorriu. O palhaço tinha cabelos vermelhos,
a cara grande e branca. A boca era vermelha e enorme.
- Como você ficou preso? – perguntou a menina.
- Uns homens maus me prenderam aqui, me dá a mão!
A menina começou a estender o braço, mas parou. Olhou
para os lados. Não havia ninguém por perto. Todos deviam
estar dentro da lona vendo o espetáculo.
- Eu tenho medo! – protestou.
- Por favor! Os homens maus me colocaram aqui. Se me tirar daqui, eu
faço você rir. Você vai ser feliz para sempre!
A menina hesitou, mas estendeu de novo o braço e segurou a mão
do palhaço. Ele segurou a mão dela e puxou para dentro do
barraco.
A menina gritou, mas ninguém escutou.
O rosto do palhaço se transformou numa coisa muito mais feia
do que as coisas que a menina imaginava. Os dentes cresceram e saltaram
para fora da boca. A menina gritou ainda mais quando os dentes se encravaram
em sua barriga!
- Você vai sorrir para sempre! – gargalhava o palhaço
- Todos aqui sorriem!
Ouviu-se um som perturbador! Algo como um braço sendo arrancado
do corpo, músculos sendo arrancados dos ossos e os gritos cessaram.
Dentro do barraco, só se escutavam sons de mastigação.
No dia seguinte, a polícia ainda encontrou a bola, mas o pai nunca
mais viu a menina.