O trecho abaixo se inicia na página
77 da 1ª edição e mostra um diálogo entre
os protagonistas enquanto viajam a bordo do gigantesco Dilena, um navio
que cruza os oceanos de Elôh.
-
Sim, nosso pai pretendia usá-lo contra as criaturas. Mas o povo
da cidade se amedrontou e decidiram que seria melhor pedir ajuda –
diz Orobone em tom de censura. – Nós não fazíamos
idéia do tamanho deste mundo.
- Não tinham contato com outras civilizações? –
indaguei.
Os olhos dos irmãos se viram acusadores em busca de Grumman,
que bebia um líquido fumegante, no canto da sala enquanto ouvia
a conversa. O prefeito parece fitar o chão em busca de proteção.
Segundos depois recompõe a coragem e se vira para mim.
- Turok já havia avistado veículos voadores muitos anos
atrás e foi ridicularizado pelos da cidade...
- Eu não entendi: ridicularizaram seu pai por que? – pergunto.
- Nossa sociedade não aceitava a existência de civilizações
mais evoluídas além das fronteiras... – rosnou Onan.
- Julgaram que ele havia inventado as histórias?
- O termo “inventado” não é comum em nossa
sociedade, jovem branco – explica Grumman sentando-se a mesa com
um recipiente cheio de xá na mão. – Ao menos não
da maneira que vocês humanos. Nós, duarnos, temos um olfato
mais apurado e percebemos as coisas de modo diferente.
Lembro das aulas de biologia: raças diferentes, percepções
diferentes. Os gelfos são marsupiais. Tem melhor audição
e olfato do que os humanóides. Sua raça percebe aromas
distintos que nós não percebemos e podem identificar emoções
específicas como o odor azedo da insinceridade. Mentir para eles
não era tão fácil quanto mentir para um branco.
- Quer dizer que vocês o consideraram louco, pois sabiam que ele
acreditava no que dizia? – concluo.
- A maioria dos nossos administradores da época considerou absurdas
as idéias de meu amigo Turok. Até que resolvemos, eu e
ele, empreender viagem até o extremo oeste do litoral. Naquela
época eu nada mais era do que um mero ferreiro. Após meses
caminhando pela orla chegamos encontramos os frânios. Eles habitavam
o leste de Tekona e foi através deles é que chegamos a
Esparza, cidade costeira que hoje também é dominada por
eles e que fica até mais próxima a nossa vila. O comércio
com os frânios foi o início do nosso pequeno crescimento
econômico.Digo pequeno se comparado a Basten e microscópico,
acredito eu, se compararmos com a Hegemonia.
- Ainda assim, demorou a reconhecerem o mérito de nosso pai –
lamenta Onan.
- Mas reconheceram depois não foi? – indago incrédulo.
- Depois de anos de vergonha... – rosna Orobone. – E nem
todos admitem. Não existe sistema de comunicação
avançado. Muitos ainda acham que este planeta é pequeno...
- Não entendi. Mesmo com o comércio sendo realizado entre
vocês e civilizações como a nossa e os frânios,
ainda há uma ignorância que impera na maioria do seu povo.
- Ensinam nas escolas que o mundo não vai além de região
de Kellini – conta Eveld para meu espanto.
- Temos convivido por séculos com as indras e outros seres da
floresta. Entretanto, a região de Kellini é por demais
extensa e não somos nômades – explicou Grumman.
- Nem somos dados a empreender viagens – completou Eveld que chegara
já pegando um copo para encher do líquido quente.
- Mas vocês sabem a língua da Hegemonia – protesto.
– Como aprenderam?
- Apenas os cultos tem acesso as línguas estrangeiras –
explica Grumman embarassado.
- Só damos informação e conhecimento a quem se
mostra à altura da responsabilidade – decreta Bel com solenidade
na voz.
- Acham normal educar errado até as crianças? –
até Shodan estranha.
- Zelávamos muito nossas tradições – Grumman
olha pela clarabóia pensativo. – Creio que estamos repensando
tudo agora... Se é que ainda existe uma vila de Cestes.
A discussão cessa. Grumman está certo: não adianta
discutir isso agora, quando há uma grande chance de não
existirem mais gelfos para serem educados ou ludibriados.
- Que coisa vermelha é esta? – pergunta Bel para Eveld.
- Pedi xá para o seu serviço de quarto – respondeu
Grumman sorrindo. – Este é de folhas vermelhas...
- Folhas de moranda? – sorri Onan incrédulo.
- Exatamente! Parte da colheita de seu pai vai para Esparza de onde
vem este navio – concluiu Grumman sorrindo maliciosamente. Eu
fico sem entender. Os gelfos se sentam em volta da mesa de refeições
enquanto conversam.
- Farejam mentira, mas não a insanidade? – pergunto curioso.
Grumman dá de ombros.
- A insanidade é um estado que se manifesta na alma, irmão
– diz meu Shodam olhando a chuva pela janela. De onde estou posso
ver o mar agitado pela janela de vidro. Ondas de tamanho incalculável
ameaçam engolir o Dilena e algumas cumprem a promessa. Campos
de força impedem que a água entre e a gravidade artificial
não deixa os protestos do oceano chegarem até nós.
Já vi realidades virtuais mais verossímeis do que isso.
Os gelfos me parecem tão irreais na sua ignorância que
me pergunto se realmente voltei para Elôh ou estou apenas num
campo de realidade virtual nos shoppings de Dison...
- Nossos estudos estão longe de tentar entender como funciona
o cérebro – se defende Grumman. Sua voz me arranca dos
pensamentos distantes.
Shodam parece pensativo, mas sua postura é de quem está
se preparando para falar alguma coisa. Percebo que os gelfos também
olham para ele com expectativa. Ele parece ficar constrangido com o
suspense provocado involuntariamente. Levanta os ombros e sorri.
-
A ciência de Basten também não é avançada
neste aspecto. A maioria das culturas só avança no terreno
psíquico depois que atinge certo nível em outros campos...
Mas nós pesquisamos muito sobre a natureza dos loucos nos rituais
místicos e nossas lendas.
- Tem alguma lenda que explica a insanidade? – provoco.
Shodam sorri enigmaticamente.
- Sim...
- Conte-nos então, Senhor Branco – pede Eved. – Temos
tempo, afinal...
Shodan sorri novamente como se esperasse o pedido. Na verdade, entendo
que ele adora falar sobre as lendas e os mitos de nosso povo. É
a sua função como rei. Perpetuar nossas tradições,
assim como um executivo da Hegemonia fortalece a marca de uma empresa.
- Há milhões de anos atrás, houve um guerreiro
das estrelas que conseguiu entrar no reino dos deuses. No início,
eles se propuseram a puni-lo, mas Tir, o deus da batalha, convenceu
a todos os outros a fazer o guerreiro passar por sete provas. Se as
superasse, poderia estar a viver entre os deuses. A primeira tarefa
foi enfrentar o gigante de Salúzia que atirava fogo pelos olhos.
Monitorado pelos deuses, o guerreiro viajou até terra do gigante,
que era maior do que a mais alta montanha, e desafiou-o. A vitória
foi rápida, mas o guerreiro teve clemência do gigante e
poupou-o. Em troca, o gigante ofereceu sua lealdade eterna. A segunda
tarefa foi derrotar o exército mais poderoso do mundo, com milhares
de soldados bem treinados e armado com espadas poderosas, forjadas no
interior da terra. Sozinho e com uma única espada que carregava
o poder do sol, ele subjugou o exército, poupando a metade dos
guerreiros que juraram servir àquele senhor tão poderoso.
Logo depois veio a fera de Dostrom, uma besta assassina que se escondia
em uma caverna no alto das montanhas rochosas do norte. Desta vez não
houve clemência e a fera foi destroçada com selvageria
além da compreensão. Os habitantes das regiões
rochosas, porém, ficaram aliviados pelo extermínio do
animal que já matara milhares de pessoas e elegeram o guerreiro
das estrelas como seu grande herói. Preocupado com o crescente
poder do guerreiro, Tir, resolveu relatar aos deuses sobre as vitórias
que iam se sucedendo cada vez mais impressionantes. Zeus, o mais sábio,
disse que se o guerreiro das estrelas passasse por todas as provas,
mereceria estar entre os deuses. Mas foi chegada a última prova
da qual ninguém nunca mais passara e o guerreiro já exibia
um sorriso arrogante. Pois possuía agora exércitos e aliados,
além do temor dos próprios deuses. Em sua última
prova, o guerreiro das estrelas foi levado a uma terra distante onde
havia apenas homens fracos, doentes e preguiçosos. Andavam com
dificuldade em uma terra que não era nem fria, nem quente. Não
havia fartura, mas também não havia fome. Não eram
nobres e nem covardes. - Quer que eu mate covardemente estes pobres
diabos? – indagou ofendido o guerreiro das estrelas. – Pois
eu não atacarei estes infelizes. Tir olhou com piedade para o
guerreiro e Zeus, que havia vindo pessoalmente, explicou qual era o
desafio. - Terás que viver durante 100 anos entre estes infelizes.
Se recusar este desafio, serás livre para deixar o reino dos
deuses e contarás para sempre com nossa simpatia. Tens todos
os seus aliados que o respeitarão, mas nunca mais poderá
estar entre os deuses. - Não vejo problema em viver com estes
miseráveis e me alegra o desafio de poder estar entre eles e
ajudá-los – afirmou o guerreiro das estrelas. – Entretanto
- avisou Zeus -, se aceitar só poderá deixar esta terra
após cem anos seguidos entre eles. – Serás um deles,
com a mesma força, as mesmas fraquezas e as mesmas chagas que
eles. Não lembrarás de quem és e, enquanto estiveres
aqui, serás considerado um fraco entre eles. Pois para estar
entre os deuses não basta ter sabedoria e força física
incomparáveis, tens que ter a força mental de um de nós
para saber que és poderoso mesmo quando toda a realidade a sua
volta evidencia o contrário. - Eu aceito o desafio! – bradou
o guerreiro sem hesitação. - A sorte está lançada.
Pois em verdade vos digo, Guerreiro das Estrelas, todos este homens
que povoam esta terra miserável são guerreiros como você
que um dia ousaram querer estar entre os deuses e passaram por todos
os outros desafios. Entretanto passaram-se milhões de anos e
nenhuma alma nunca conseguiu ficar 100 anos seguidos sem enlouquecer
e tentar escapar. Todos acabam se matando, mas nem assim nós
permitimos que saiam. A morte não é mais um direito de
quem ousa estar entre os deuses. Estes voltam a nascer na mesma terra
cada vez mais fracos e assim será por toda a eternidade. Pela
primeira vez o guerreiro das estrelas estremeceu e hesitou. Olhou para
aquela terra onde todos eram medíocres, vivendo de ilusões
mesquinhas sem nunca conseguir grandes feitos ou conquistas. Ainda assim,
ao olhar para trás e para tudo o que conquistara, entendeu que
escolhera um caminho sem volta. Que todas as suas batalhas vencidas
perderiam o sentido ao saber que se acovardou diante do desafio maior.
- Eu escolhi ser um destes miseráveis assim que ousei entrar
no reino dos deuses. Todos aqui são guerreiros das estrelas e
não existe outro destino para mim além de estar entre
eles. Que a sorte seja lançada! - Que a sorte seja lançada
– sorriu Zeus. O guerreiro das estrelas já se matou 12
vezes desde que entrou no reino dos medíocres...
- Tudo bem, quer dizer que a insanidade existe porque estamos aprisionados
em uma realidade virtual de algum deus de Basten? – pergunto sem
esconder a ironia.
- Talvez... – responde Shodan com um sorriso enigmático.
-
Talvez sejamos todos medíocres insanos em busca de evolução
– arriscou Grumman entre uma golada e outra do xá.
-
Talvez saibamos tão pouco de nossas próprias vidas que
o mistério de nossa existência seja tão grande quanto
o universo – diz Eveld.
- Esse guerreiro das estrelas... O que ele fazia antes de desafiar os
deuses? – indaga Bell para minha irritação.
- É apenas uma lenda – respondo sem paciência. –
Não tem que ter um antes ou um depois.
- Talvez ele tenha levado uma vida normal como cada um de nós
até que um dia resolveu querer algo mais para a sua vida –
responde Shodan me jogando novamente o olhar repreensivo.
|