Segunda-feira, Novembro 09, 2009

Bastardos Inglórios - Inglourious Basterds



EUA, 2009 - 153 min

Direção e roteiro: Quentin Tarantino

Elenco: Brad Pitt, Mélanie Laurent, Christoph Waltz, Eli Roth, Michael Fassbender, Diane Kruger, Daniel Brühl, Til Schweiger, Gedeon Burkhard, Jacky Ido, B.J. Novak, Omar Doom, August Diehl, Denis Menochet

Em uma espécie de história alternativa da França ocupada pela Alemanha na 2ª Grande Guerra, um grupo de soldados conhecido como Bastardos prepara um plano para destruir um cinema onde os nazistas exibirão um filme sobre um herói nacional. A idéia é trancar os líderes nazistas todos no recinto e tacar fogo sem perdão. Para isso contarão com a ajuda de uma mulher com sede de vingança e uma espiã.

O diretor Quentin Tarantino e seu colega indiano M. Night Shyamalan tem carreiras muito parecidas. Ambos despontaram nos anos 90 com um estilo de direção bem particular que não escondia o amor ao próprio cinema e, principalmente, buscando recursos próprios do teatro, com tomadas longas, com poucos cortes, deixando que os atores dominassem como fios condutores da cena.

Além disso, ambos adoram aparecer em seus filmes como atores. Algo que também pode ser visto como uma homenagem ao grande mestre Alfred Hitchcock, adepto da mesma prática, embora com muito menos tempo nas telas.

O problema é que Shyamalan vem entrando em decadência de crítica e público desde o polêmico Sinais em 2002, culminando com ridículo Fim dos Tempos. Tarantino por sua vez também andou ganhando umas vaias com seu Grindhouse de 2007, mas nada que realmente abalasse sua carreia.

Agora, enquanto Shyamalan começa a perder o crédito depois do ridículo Fim dos Tempos, Tarantino vai à direção oposta, em mais uma consagração com Bastardos Inglórios no qual volta ao tema principal de Kill Bill, a vingança. Embora se passe durante a 2ª Guerra Mundial, a trilha sonora e diversos enquadramentos e situações no filme remetem aos Westerns Spaguetti ou Bang Bang à Italiana como eram conhecidos no Brasil as produções de baixo orçamento nos anos 60 e 70 dirigidos por italianos e espanhóis normalmente em locais mais baratos da Europa. Tarantino volta então a homenagear seu grande ídolo, Sérgio Leone, responsável pela revolução nos westerns e em todo o cinema e considerado um dos grandes injustiçados de Hollywood (parte por causa do fracasso de seu filme mais caro Era uma vez na América, de 1984).

Este cinema de amor ao cinema torna Tarantino um dos diretores mais importantes da atualidade e o fato de trabalhar com orçamentos considerados baixos em Hollywood, não corre o risco de ser trucidado pelos produtores (exatamente o que aconteceu com Sérgio Leone). Assim, Bastardos Inglórios foi seu filme mais caro, custando U$ 70 milhões, mas já arrecadou mais de U$ 300 milhões no mundo inteiro.

Acostumado a lançar seus próprios astros como Steve Buscemi , Tim Roth, Harvey Keitel ou mesmo recolocar no estrelato nomes famosos como John Travolta e Uma Thurman, Tarantino ganhou uma força extra com o superastro Brad Pitt. Robert DeNiro e Bruce Willis, já haviam trabalhado com o diretor, mas Pitt é “O Cara” do momento. O resultado é uma das atuações mais propositadamente canastronas da história do cinema. Em determinado momento, seu personagem, o sanguinário tenente Aldo Raine precisa se fazer passar por italiano e não sabe falar praticamente nada em italiano. Pit então encarna uma mistura estranha e hilária de Don Corleone e John Wayne.

Mas quem rouba o filme é o austríaco Christoph Waltz no papel do vilão Hans Landa, uma espécie de Sherlock Holmes nazista que se beneficia do único defeito do filme: o excesso de cenas longas, o que dá a impressão de que Tarantino perdeu um pouco a noção de edição de suas cenas.

Sem cortes, em uma espécie de teatro filmado, Waltz ganha os melhores diálogos do filme e dificilmente será esquecido no próximo Oscar, já que seu personagem é tão ou mais odioso que o Coringa de O Cavaleiro das Trevas.

Calcado em um cinema honesto e muitas homenagens ao próprio cinema, Bastardos Inglórios peca também ao estereotipar demais os personagens. Se em Pulp Fiction ficamos temendo pelo destino de vários personagens, sejam eles heróis ou vilões, aqui o tom de farsa trunca a degustação de alguns momentos do filme, como a morte de personagens que acabam com um gosto de “tanto faz”.

O grande mérito do filme, porém, está em trazer ao público de hoje uma boa dose do que havia de melhor no antigo cinema europeu, seja no noir alemão, seja na nouvelle vague, escancarando não apenas a funcionalidade dessas escolas no mundo pop, como também deixa claro que elas já estão presentes ali há muito tempo através de influências que nem sempre foram assumidas. Afinal, essa coisa de copiar como homenagem ganhou força e reconhecimento com Tarantino, mas já houve quem dissesse que era mero plágio – que o digam George Lucas e Steven Spielberg nos anos 70 e 80...

Assim é o cinema de Tarantino, uma homenagem dinâmica ao cinema que consegue instigar cada vez mais os espectadores do acostumados com o pop a procurar saber mais sobre as fontes primárias da 7ª Arte e, quem sabe, entender que a linha que separa - ou talvez costure - estas duas fronteiras é muito mais fina do que tentam fazer crer alguns críticos...

Terça-feira, Novembro 03, 2009

Distrito 9



Direção: Neill Blomkamp

Roteiro: Terri Tatchell,Neill Blomkamp

Elenco: Sharlto Copley (Wikus Van De Merwe), Jason Cope (Grey Bradnam), Nathalie Boltt (Sarah Livingstone), Sylvaine Strike (Katrina McKenzie), John Sumner (Les Feldman)

Em um formato de semi-documentário, ficamos sabem que, em um futuro não muito distante, uma nave alienígena – provavelmente comprada na mesma loja que as naves de Independence Day e V – A Batalha Final – chega a Terra e, ao contrário da maioria dos alienígenas, esnoba Nova Iorque e Tóquio, indo parar justamente em Joanesburgo, capital da África do Sul. O que inicialmente era uma coisa legal, virou um tormento, porque se os aliens (que parecem camarões gigantes) não querem dominar a Terra, mas também não sábios cheios de grandes ensinamentos. Parece ser uma ralé pouco provida intelectualmente e sem muitas ambições. Como qualquer minoria, acaba ficando em uma favela (embaixo da nave) se transformando em um problema social.

O pior é que nem a tecnologia da nave dá para se transformar em uma fonte de renda, já que só funciona com os alienígenas, que trocam suas preciosidades por latas de comida de gato.

A solução final é transportar a cambada para outro local, pior do que já estavam, onde podem ser mais facilmente controlados. Para tornar tudo isso um ato legal, é necessário a assinatura dos moradores, os aliens no caso, e é aí que entra nosso “herói”, Wikus Van De Merwe (Sharlto Copley impecável), uma perfeita mistura de Homer Simpson com Ned Flanders com sotaque holandês. O cara é um babaca esforçado que bota fogo em uma ninhada de ovos dos alienígenas e se diverte informando a audiência que os estouros de pipoca que estão escutando são bebês alienígenas sendo abortados. Sabe falar a língua dos camarões, entende um pouco da cultura deles, mas apesar de não ser exatamente mal, ignora as atrocidades que comete como qualquer funcionário público finge que não vê as roubalheiras do poder público.

Mas a vida é uma caixinha de surpresas e no contato com um dos poucos camarões realmente inteligentes, ele vai se defrontar com algo que vai obrigá-lo a mudar toda a sua perspectiva de vida.

Desenvolvido a partir de um curta-metragem do mesmo diretor, Distrito 9 custou aproximadamente 30 milhões de dólares e seria o filme mais lucrativo do ano, se 2009 também não fosse berço do interessante Atividade Paranormal que custou menos 30 mil dólares e também faturou alto este ano.

O filme é uma alegoria clara sobre xenofobia feita pelos maiores especialistas no assunto da atualidade: os sul-africanos. Muitos elementos presentes no Apartheid não apenas foram usadas no filme, como fizeram parte da estratégia de marketing do mesmo.

Apesar do começo lento e didático, a segunda parte de Distrito 9 é um filme de ação no melhor estilo block-buster, com tiroteios, explosões e efeitos especiais que parecem ter custado mais do que os 30 milhões anunciados, o que deve deixar o diretor Neill Blomkamp nas boas graças dos produtores de Hollywood por muito tempo. E nada acontece gratuitamente e a fragilidade do personagem principal nos faz esperar sempre pelo pior, o que torna o filme um suspense eletrizante para quem o assiste pela primeira vez.

Alguns clichês correntes na ficção científica e nos filmes de ação são empregados, quase sempre de maneira competente. Há alguns abusos feitos apenas para instigar ainda mais o suspense, mas que chegam a irritar um espectador mais exigente. Além disso, há um excesso de nojeira que pode afugentar estômagos mais sensíveis.

No terceiro ato, o filme acaba assumindo descaradamente a máscara de Block Buster, com tiroteios, atos heróicos, vingança e muitas exploções. Mas Distrito 9 consegue impressionar mesmo é quando entra no campo em que a ficção científica sabe fazer melhor: mostrar com uma clareza transparente a realidade humana através de metáforas. Os humanos do filme são de uma crueldade com os alienígenas que chegaria a ser inverossímil caso não fosse plagiada de nossa própria realidade.

Até a absurda presença do crime organizado (comandado por humanos) na favela nos assusta ao lembrar que isso realmente acontece perto de nós, em nossa cidade.

No final, Distrito 9 ainda deixa espaço aberto para uma continuação, derrubando qualquer suspeita de que a intenção não fosse fazer um filme hollywoodiano. Mas em comparação com outros sucessos do ano como Transformers 2 e Wolverine, Distrito 9 consegue ter mais ação, mais suspense e ainda por cima trazer conteúdo. Tomara que os Sul Africanos sejam tão competentes para fazer a Copa do Mundo de 2010, como se mostraram para realizar esse filme.

Os Substitutos


Direção: Jonathan Mostow

Roteiro: Michael Ferris e John Brancanato

Elenco: Bruce Willis, Radha Mitchell, Rosamund Pike, Boris Kodjoe, James Francis Ginty, Michael Cudlitz, James Cromwell e Ving Rhames.

Em um futuro não muito distante, 98% da população trocou o corpo de carne e osso por bonecos bonitos e indestrutíveis que vão trabalhar enquanto o “saco de carne” fica em casa deitado em uma cadeira de dentista, ou algo parecido. Este mundo perfeito não é tão perfeito para o detetive Tom Greer (Bruce Willis) que perdeu o filho em um acidente de carro e não consegue lidar com isso. Sua esposa Maggie (a bela Rosamund Pike) não morreu, mas ficou toda arrebentada. Ela usa então os robôs substitutos para fugir da realidade, adotando uma postura de comportamento igual a de personagens das novelas do Carlos Lombardi. O drama dos Greer vai de encontro a uma trama terrorista quando um cidadão parece ter descoberto uma maneira de usar o substituto para matar quem estiver conectado a ele através de um vírus de computador.

O policial começa a investigar os crimes com sua parceira igualmente embonecada (Radha Mitchell que não diz a que veio), mas só vai conseguir resolvê-lo depois que for suspenso, caso contrário, não seria um filme norte-americano, certo?

A trama também esbarra na existência de tribos de humanos que se recusam a usar a tecnologia dos robôs e, por isso, cria verdadeiras comunidades hippies. Será que são eles quem estão por trás dessa ameaça?

Baseada em uma Grafic Novel homônima lançada em 2005, com roteiro de Robert Venditti e desenhos de Brett Weldele, os Substitutos parece realmente seguir aquela lógica absurda de alguns quadrinhos onde vestir a cueca por cima da calça e sair para combater o crime pode parecer uma idéia inteligente e funcional. Quando adaptados para o cinema, normalmente os quadrinhos precisam fazer algumas adaptações para não cair no ridículo, é só lembrar a piada do colant amarelo de Wolverine no primeiro X-Men. Mas no caso de Os Substitutos, os roteiristas não se preocuparam em pensar o que os médicos do planeta Terra teriam a dizer sobre ficar em casa deitado o dia inteiro enquanto um robô faz tudo por você.

Estranhamente, o único cidadão que vai trabalhar todo dia sem o seu robô é também é obeso, enquanto outros parecem somente mais velhos e com menos maquiagem. Parece aquela propaganda da Coca-Cola onde um cara leva uma bronca do Charlie Brown JF por ser o único que não usa determinado assessório (nem lembro o que é). E ainda escuta: “Tem que ter atitude!”. Ou seja, do mesmo modo que neste comercial “ter atitude” vira “não discordar da maioria”, em Substitutos para ser magro bastar ficar dentro de casa deitado. Se você for trabalhar, sair do sedentarismo, vai acabar engordando.

Ainda no campo lógica de Quadrinhos, o filme diz que 98% da população mundial aderiu aos substitutos. Será que em 2054 a fome e a miséria tenha acabado no mundo e todo mundo tem dinheiro para comprar esse boneco? Ou novamente o planeta Terra se resume a cidade de Nova Iorque?

E por que a comunidade dos caras que não usam robôs tem que viver numa situação de absoluta pobreza? Tipo, eles não querem contato com os robôs, mas não vi nada impedindo os caras de irem trabalhar ou de tomar banho, ou ir a uma loja de roupas...

Finalmente, as motivações do vilão não fazem sentido algum e parece ser mais uma tentativa de fazer uma das famosas “reviravoltas” no roteiro. Afinal, quem ia esperar que o vilão fosse justamente... quem fosse (não vamos dar spoilers)

Mas nem tudo é idiota no filme. A grande estrela é a maquiagem digital que transforma o bom e velho Bruce Willis em um ator 30 anos mais jovem.

O filme também consegue levantar questões interessantes, como o paralelismo entre o que já acontece no nosso mundo virtual onde podemos usar o MSN, o Orkut, o Second Life e uma infinidade de programas para mudar a identidade. Assim, vemos no filme uma bela e jovem loura, de corpo escultural, revelar ser, na verdade um homem gordo e barbado.

A fuga para a realidade virtual chega a ter uma abordagem política, mas jamais se aprofunda; dando a impressão de que os produtores chegaram a temer que um filme um pouco mais inteligente pudesse afastar a platéia (vamos lembrar que os venerados Gataca e Blade Runner são fracassos estrondosos de bilheteria).

Ainda assim, as cenas de ação são competentes, mas com gostinho de Sessão da Tarde. Nada que lembre os malabarismos de Eu, Robô.

Uma pena, porque são idéias incrivelmente atuais em um filme que mostra que a tecnologia dos efeitos visuais pode dar conta do recado.

Enfim, Os Substitutos está longe de ser um filme chato e gera um entretenimento razoável a quem não for muito exigente com a trama, mas poderia ser bem melhor se os roteiristas demandassem um pouco mais de tempo construindo um pano de fundo mais verossímil. Em tempos onde se investe pesado em obras de Tolkien, J.K. Rowling, Stephanie Meyer e Neil Gailman, que prezam pela complexidade de seus mundos imaginários, era de se esperar um pouco mais de coragem das produções de ficção científica também.

Sexta-feira, Agosto 28, 2009

só um texto mesmo

olha, como é textado

Terça-feira, Junho 02, 2009

Outlander – Guerreiro vs predador


Boa história e ótimos atores em um filme com cara de anos 80

Na Noruega no ano 700, uma nave espacial pilotada por Kainan (James Caviezel) cai entre os nórdicos do passado. Pra piorar, o astronauta também descobre que não foi o único sobrevivente. Um segundo passageiro, da raça Moorwen também emerge dos escombros. Um tipo de animal feroz e sanguinário, o Moorwen quer destruir todos os que considera inimigos ou saborosos. Assim, Kainan precisa unir-se aos vikings e unir sua tecnologia às armas dos guerreiros para enfrentar o monstro antes que ele destrua a todos.
Aos poucos, vamos entendendo a história verdadeira dos dois alienígenas. Apesar de ser um sanguinário comedor de gente, o monstro Moorwen não era simplesmente um monstro mal, mas uma criatura sobrevivente de um planeta dizimado pela raça de Kainan sem de maneira ecologicamente incorreta.
Ainda assim, a criatura vai aprender que, por mais que o protagonista esteja errado, jamais se deve devorar a família do herói em um filme de ação norte-americano.
Com uma idéia inusitada e até certo ponto original, Outlander consegue ser uma eficiente mistura de 13º Guerreiro com O Predador. Semelhança forçada ainda mais com o título nacional que o filme recebeu. O elenco traz pesos pesados como James Caviezel (o Jesus de A Paixão de Cristo), Ron Perlman (o Hellboy que fica mais feio ainda quando não está de máscara) e John Hurt (excelente ator que virou o velhinho da vez em Hollywood depois que Sean Connery se aposentou e Ian McKeley ficou muito caro).
Estranhamente o filme não foi levado muito a sério e foi lançado direto em dvd. A crítica não gostou. Realmente fica difícil entender por que Ron Perlman aceitou um papel onde entra mudo e sai calado. Até porque ele não fazia isso antes do sucesso de Hellboy. Mas o resultado final não é ruim, mas um filme, no mínimo, interessante. Quem gosta de ficção científica costuma dizer que até quando o filme é ruim, é bom. Mas Outlander dispensa esse “recurso” e não só cumpre muito bem sua função de entreter, como consegue fazer lembrar um tempo onde produções do gênero não precisavam ser trilogias ou ter três horas de duração para agradar. Há algo incrivelmente anos 80 no filme, principalmente na preocupação de contar apenas uma boa história sem a pretensão de querer fazer daquilo um marco do cinema.
A produção é feita pelo mesmo Barrie Osborne que também assina nada menos do que O Senhor dos Anéis. Mas, graças a Deus, o filme passa longe de tentar imitar os clichês da criação de Peter Jackson. Nada de longos travelings com pessoas andando ou cavalgando com paisagens deslumbrantes ao fundo. Nada de personagens que parecem ter toda uma história por trás, mas que ainda não foi contada. Outlander é um filme que conquista pela simplicidade (tá, a simplicidade irrita também em casos como a já citada falta de aproveitamento de Ron Perlman).
O monstro, apesar de ser feito em computação gráfica, aparece pouco até ser mostrado no final em toda a sua... monstruosidade? E a produção parece ter gasto boa parte do dinheiro no elenco, deixando o resto com um jeitão deliciosamente trash. Tudo isso conspira para que Outlander pareça ter saído de uma máquina do tempo, direto da época onde produções como O Feitiço de Áquila ou Krull podiam se dar ao luxo de fugir do pedantismo se apresentar honestamente como filmes de aventura.
Com o modismo de reviravoltas mirabolantes que vem tomando as produções hollywoodianas nos últimos tempos, é difícil explicar a alegria que tomou conta de mim quando comprovei que o Moorwen não era pai, mãe ou filho de Kainan, nem houve um flashback mostrando como Kainan se transformava no Moorwen quando o público não estava vendo, muito menos que os vinkings viviam em alguma dimensão paralela da Matrix. Só essa honestidade do filme já vale o dinheiro da locação. Coloca aí também a deliciosa ruiva Sophia Myles fazendo papel de guerreira/princesa com muita competência e temos um filme que vale a pena ser visto e até comprado em dvd.

Devoradores de mortos

Livro mostra a rotina dos vikings pelo ponto de vista de um árabe

Por Clinton Davisson

No século X, quando os árabes eram o povo mais evoluído do planeta, o diplomata Ibn Fadlan levava uma vida boa até se meter com a mulher de um xeique rico que era amigo do califa. Como castigo, ele é mandado em uma missão pelo mundo bárbaro: fazer contato com o rei dos búlgaros. Mas a vida é uma caixinha de surpresas e em uma bela manhã de sol, Ibn vai parar em um confronto entre vikings e uma misteriosa tribo do que parecem ser os últimos neandertais na Terra.
Tudo isso seria uma boa sinopse para uma história comum, mas estamos falando de um relato real ocorrido em 922 DC. Ao menos é o que tenta nos fazer acreditar o livro. O documento foi guardado e traduzido durante quase mil anos até que em 1976, o escritor Michael Crichton (falecido em novembro de 2008, vítima de câncer), um dos gênios mais oportunistas da cultura pop recente, teve a idéia de juntar os relatos e transforma-los em uma história cheia de ação e aventura. O resultado é um livro curto, detalhado e envolvente, com relatos incríveis sobre a cultura, o modo de vida, organização e até hábitos de higiene dos famosos guerreiros louros das regiões geladas da Europa.

Verdade ou mentira?

Ahmad ibn Fadl?n ibn al-Abb?s ibn Raš?d ibn Hamm?d realmente existiu e realmente visitou a Europa no século X. O encontro com o povo Rus (daí vem o nome Rússia) também é verídico. Mas quando o livro e o filme entram na história de Bewulf, vira ficção. Mas tudo em nome do entretenimento e boa parte da divertida narrativa é realmente baseada nos relatos de Fadlan. A cerimônia de funeral vinking é um bom exemplo. Além da famosa fogueira sob a água mostrada em diversos filmes e livros, há detalhes interessantes como escravas que se oferecem para morrer ao lado do corpo do guerreiro.
Os hábitos higiênicos (ou a ausência deles) merecem uma atenção especial do narrador. Acostumado aos banhos regulares e a veneração exagerada às mulheres típica da cultura muçulmana, Ibn inicialmente se surpreende e se revolta com o hábito das mulheres de mostrar seus rostos publicamente, mas depois acaba aderindo aos costumes locais ao desfrutar sexualmente das escravas. Como também os nórdicos não se lavavam mesmo depois de ir ao banheiro, o árabe confessa que teve que prender a respiração para transar com a escrava e suportar o mau cheiro.
Mas Devoradores de Mortos não é apenas um relato documental, o livro também conta com bons personagens como Buliwyf, o chefe dos guerreiros que mostra curiosidade em relação a figura e aos conhecimentos do estrangeiro que sabe “desenhar sons” ou seja, ler e escrever. A trama traz mistérios a serem desvendados: um estranho grupo de monstros, os devoradores de mortos do título, aterroriza um povoado. Eles moram no topo de um vulcão e nunca ninguém os viu de perto.
Para complicar a situação, Wigliff, o próprio filho do rei da tribo se torna uma ameaça, pois o temor em relação a Buliwyf tomar o trono para si é grande. O plano de Buliwyf para intimidar o príncipe é tão genial quanto absurdo: provocar uma briga entre o mais forte e jovem guerreiro local e o experiente Hyglak. O resultado do combate é surpreendente.

O filme

Embalado pelo sucesso de A Máscara do Zorro, o espanhol Antônio Banderas protagonizou em 1999 o filme O 13º Guerreiro, uma adaptação bem fiel ao livro de Crichton. Nem a crítica, nem o público se empolgaram dando um banho de água fria nas carreiras tanto do ator quanto o diretor John McTiernan que estava já em decadência. Ainda assim é uma produção cultuada nos dias de hoje e a renda de quase U$$ 90 milhões não é considerada um fracasso total.
O fato é que, para quem leu o livro “Devoradores de Mortos”, assistir ao “13º Guerreiro” é algo praticamente obrigatório. A recíproca também é verdadeira: se você gostou do filme e gosta de uma boa leitura, vá correndo comprar o livro.

Quinta-feira, Maio 28, 2009

Keanu Reeves e o terninho preto


Sexta-feira, Maio 22, 2009

Marley e Eu é a resposta ao Clube da Luta?



Ter um cachorro é algo aconselhado por pedagogos para ajudar no amadurecimento de crianças, amenizar a solidão de idosos e até em tratamento de doenças diversas como a depressão. A frase "melhor amigo do homem" tem uma explicação histórica, ou pré-histórica, já que seres humanos e canídeos convivem e se ajudam há mais de 200 mil anos em uma das simbioses de maior sucesso deste planeta. Pensando nisso, é estranho pensar que existam tão poucos filmes que prestam uma homenagem tão apaixonante sobre esse relacionamento.
Adaptado do livro de John Grogan, Marley e Eu não mostra exatamente o ponto de vista de um cachorro, mas uma visão tocante da vida de um ser humano, usando seu "melhor amigo" como fio condutor da narrativa.
Após se casar com a mulher de seus sonhos, o jornalista John Grogan se muda para a Flórida e resolve comprar um cachorro. O motivo é abrandar a ânsia da esposa por um filho e, ao mesmo tempo, já ir "treinando" a responsabilidade de ambos para quando chegar o neném de verdade. O problema é que o cão escolhido, um labrador, é incontrolável, indisciplinado, desastrado e fica ainda pior durantes tempestades com relâmpagos (coisa muito comum na Flórida). Capaz de destruir tudo o que está ao alcance de suas mandíbulas Marley é denominado por seus donos como "o pior cão do mundo".
Mas John segue sua vida. Obrigado a se tornar colunista de seu jornal, fica frustrado, pois pretendia seguir uma carreira mais investigativa, sonhando com grandes reportagens como as de Sebastian, seu melhor amigo. John passa então a narrar suas desventuras com o incorrigível Marley e a coluna passa a ser um sucesso (que deu origem ao livro).
Baseado no best-seller de John Grogan, Marley e Eu, de certa forma, guarda assustadora semelhança na temática de O Clube da Luta, mostrando a reação do homem contemporâneo confrontado com a desilusão das promessas do sonho capitalista. Afinal, o que acontece quando chegamos aos 30 anos e descobrimos que não seremos astros do cinema, jogadores de futebol ou (no caso do Brasil) participantes do Big Brother? Enquanto o Clube da Luta propõe o linismo como forma de guerrilha ideológica (o exagero das situações mostra a natureza parcialmente metafórica da proposta), Marley e Eu pode facilmente ser acusado de conformista. Mas é aí que reside parte do brilhantismo do filme. Notem, por exemplo, como é interessante o relacionamento entre os dois amigos repórteres fugindo dos clichês do gênero, que não hesitariam em mostrar competição e provocações entre os dois, já que ambos declaram ter certa inveja em relação ao sucesso de cada um em suas respectivas escolhas. Mas esta "inveja" recíproca é respeitosa, passando a ser também uma grande admiração. Assim, o filme vai de encontro aos conceitos convencionais na mídia contemporânea, flertando com o americam way dos anos 50, só que um pouco mais amadurecido. "Você se deu realmente bem, John", admite o amigo ao ver uma foto de sua família.
Enfim, Marley e Eu é um filme que discute o verdadeiro sentido do sucesso. Ter uma família e conseguir criá-la direito ou ter uma namorada diferente a cada semana e ser famoso?
Mas para dar o veredito, o espectador precisa assistir. E vale a pena!

Quinta-feira, Abril 02, 2009

Eutanásia cultural